"Isso é… o pós-vida?"
Com a consciência perdida num estado meio acordado, Vast considerou a opção mais óbvia. O prazo do Julgamento de 20 Dias terminava hoje e, uma vez que havia desmaiado logo que a luta se encerrou, era muito provável ter sofrido a morte súbita enquanto dormia.
Sentia o corpo leve, apoiado contra a nuvem reservada apenas para si no descanso eterno. Podia relaxar, finalmente.
— Você fez muito bem.
A voz de sua mãe confirmava isso. Havia feito o suficiente, punido não apenas os traidores do Reino como também eliminado um Vampiro Original. Apenas este último era o suficiente para lhe render infinitos títulos de honra.
"Espera… eu nunca conheci minha mãe."
A realização súbita teve o mesmo efeito de quando se percebe estar sonhando. Sua consciência foi tragada de volta para o corpo físico numa onda violenta. Seus olhos se abriram devagar.
— Oh, quem diria que realmente está vivo.
Tomou seu próprio tempo para se localizar, inevitavelmente encontrando um rosto familiar. Sua voz um pouco rouca ecoou num cumprimento misturado a susto.
— Carmilla…
A vampira deu um curto sorriso caloroso. Estavam ainda no fundo da vala, a mulher sentada com as costas a descansar numa parede.
Seu rosto era finalmente observável. Os olhos verdes brilhavam como a grama de uma planície após uma chuva leve, os curtos cabelos negros num corte chanel ajudavam a destacar o rosto redondo, tal como os pequenos lábios rosados e a pele clara como a neve.
Ela segurava Vast como seu próprio bebê. O corpo repousava sobre seu aconchegante colo enquanto o rosto encontrava asilo entre seus peitos, permitindo o par de obsidianas sonolentas encontrou por alguns segundos as esmeraldas cintilantes.
— Eu quero levantar.
Seu pedido foi uma ordem. A vampira apenas parou de segurá-lo com seu braços, permitindo que se erguesse sozinho.
Como esperado, ainda estava cheio de feridas, sujo e seminu. Cansaço se fazia mais que presente, afinal o fato de que estava vivo indicava que tirou apenas um cochilo de no máximo alguns minutos.
Mesmo assim, uma alegria imensa fez um sorriso brotar nos lábios quando procurou ao redor, sem sinal de Eduardo.
"Eu realmente venci!"
— E o que pretende fazer agora?
Carmilla, pelo visto, não o deixaria ficar parado. Ele se virou para responder após travar por um momento.
— Meu objetivo saindo do castelo era punir os Baskerville e descobrir quem estava por trás deles. Eu não apenas fiz isso como até derrotei essa pessoa.
— Realmente, você é o primeiro humano que matou um Vampiro Original. Parabéns!
Ela bateu palmas genuínas, ou talvez fosse muito boa em esconder a ironia. Era difícil ter certeza.
Encarando a mulher com um olhar enigmático, Vast iniciou:
— Carmilla…
— Hum? Diga.
Ter o par de olhos verdes lhe encarando diretamente causou calafrios. Eram nostálgicos, mas no mal sentido, desenterrando memórias recentes ao mesmo tempo que outras tão distantes que o príncipe questionava se eram de fato dele.
Engoliu em seco.
— E-Esquece, não é nada.
— O príncipe de Von Legurn hesitando em fazer uma pergunta? É a primeira vez que vejo isso acontecer.
Ela riu baixinho, como uma jovem adolescente que obteve sucesso em fazer o interesse romântico corar.
…E então? Ainda não respondeu minha pergunta. — Se levantou, ainda recostada na parede. — O que vai fazer agora?
Vast averiguou a própria situação. Apesar de ficar de pé, era impossível correr ou cavalgar qualquer montaria que surgisse magicamente como solução.
Retornar para o castelo agora era impensável. Em outras palavras, seu único destino agora era aceitar a morte súbita. A não ser que…
— Eu não consigo te levar para o castelo — disse Carmilla num ultimato. — Apesar de eu ser bem veloz, minha habilidade não é de teletransporte ou algo parecido.
A ideia do príncipe acabou antes mesmo de começar. Sentia que, mesmo que ela fosse capaz, a vampira recusaria seu pedido.
Então, como se para se redimir desse prejulgamento, ela propôs:
— Por que você não vai para a Torre?
— …? E qual razão eu tenho?
— E qual razão te impede de ir?
— Não é assim que se convence alguém.
— Aff, mas tentar de verdade é tão~ chato…
Ela agachou e suspirou numa birra totalmente infantil, tirando um inesperado riso do príncipe. A comparação entre Carmilla e Eduardo, dois Vampiros Originais, tinha uma diferença imensa demais para que mantivesse uma feição séria.
— Se tem tanta curiosidade, por que não vai lá e descobre?
A mulher fez biquinho e começou a fazer linhas aleatórias na terra. Toda a aura de vampira misteriosa e sensual foi perdida para a atitude de criança, levando junto o peso e hesitação que o príncipe tinha em conversar.
— Vampiros não conseguem entrar.
Sua resposta seca travou Vast. Como assim? Perguntou sem perceber, a confusão agindo antes do pensamento lógico.
— Eu também não faço ideia do motivo, mas qualquer vampiro que tente entrar vai se perder num labirinto maluco e acabar voltando para a entrada. Eu mesma perdi a conta de quantas vezes tentei e falhei. Se vampiros são incapazes, então eu suponho que humanos consigam.
— Então você quer aproveitar que eu estou à beira da morte e me usar de cobaia.
— Colocando assim você me faz parecer a vilã. Só estou tentando dar um último sentido à sua vida pra você não cair morto como qualquer outra pessoa.
Ela abriu os braços dramaticamente, lembrando um pouco Eduardo.
…Morrer dentro da lendária Torre Divina, lar da misteriosa entidade conhecida como Rei Eterno e que nem sabemos se realmente existe. Isso soa bem mais épico, não concorda?
Numa situação normal, Vast simplesmente mandaria Carmilla deixá-lo em paz e iria embora. Mesmo que ela fosse meiga e agisse inocentemente agora, nada mudava o fato de que ela era uma Vampira Original. Alguém da mesma laia e — o príncipe tinha certeza — pior que o Verdadeiro Sol.
Torná-la um inimigo era uma má ideia mesmo para alguém cujos dois pés estavam na cova. Felizmente, os sentimentos da mulher eram compartilhados.
Assim como qualquer pessoa e vampiro, Vast guardava imensa curiosidade sobre a Torre. Ela era uma estrutura imensa e chamativa que podia ser vista de absolutamente qualquer lugar de La Serva, então qualquer um tinha esse mesmo anseio de explorá-la.
Quais eram as chances de ser uma armadilha da vampira? Vast diria que altas, mas, novamente, não fazia diferença ante seu curto tempo de vida.
"Não faz mal verificar, eu acho. O pior que pode acontecer é ficar perdido lá dentro."
Nunca fez questão de ter um funeral digno, então que pelo menos seu corpo pudesse se decompor sem ser destroçado por bestas selvagens ou encontrado por vampiros menores.
— Pode fazer uma coisa por mim em troca?
— Às suas ordens, meu príncipe — respondeu em tom irônico.
— Diga ao Vincent, o líder do burgo de Ormstade, que eu deixo Von Legurn nas mãos dele.
— Ok~! Isso significa que você vai para a Torre mesmo, certo? Pegue esse presente antes de ir.
Ela levou a mão às costas e tirou um conjunto de roupas perfeitamente dobrado de roupas nobres. A cor majoritária era o preto, com detalhes dourados para elevar a natureza de uma vestimenta da realeza. No lado esquerdo do peito havia o nome “Vast Los Filho” bordado à mão.
Sem quaisquer razões para recusar, ele agradeceu e pegou o presente, o colocando de imediato. Serviu tão perfeitamente que parecia feito sob medida. Limpou também o excesso de sujeira no rosto e ajeitou o rabo de cavalo com uma nova fita vermelha.
— Bem melhor. Seria ruim encontrar o Rei Eterno destruído como você estava.
Sorriu em resposta ao jeito orgulhoso da vampira, era como uma costureira se sentindo um máximo quando as roupas que fez foram elogiadas numa festa.
Claro, as feridas da batalha ainda existiam por debaixo da roupa, mas pelo visto a preocupação da mulher era apenas que ficasse apresentável.
— E o que você vai fazer agora?
Sua pergunta súbita trouxe breve confusão ao semblante de Carmilla, que parecia aguardar um soco na cara ao invés disso.
— O que eu sempre fiz. Nada vai mudar, honestamente. — Deu de ombros, desinteressada.
Entendo, seu tom lamentoso chamou a atenção, mas não o suficiente para a mulher questionar qualquer coisa. Na verdade, seria mais correto dizer que apenas não guardava interesse ao ponto de querer saber mais.
— Mesmo assim… — Com uma das mãos sob o peito, encarou o par de esmeraldas. — Eu agradeço por tudo. Adeus.
A seriedade durou menos de cinco segundos no rosto meigo, logo voltando para o sorriso de segundas intenções.
— Até mais, tenta mandar uma carta depois falando o que tinha na Torre.
O príncipe riu curtamente ante o pedido impossível, fazendo uma última reverência para aquela enigmática vampira e então partindo.
Vast não olhou para trás. Nunca foi alguém de lamentar despedidas ou o passado de forma geral, muito menos agora que sofreria a morte súbita em poucas horas.
Toda sua concentração foi direcionada ao agora, especificamente o lugar à frente.
A apenas alguns metros da Torre, a estrutura imensa insistia em crescer a cada passo em sua direção. As paredes negras se estendiam para além do alcance dos olhos, tanto para cima quanto para os lados.
Sua superfície era como a de um rocha negra perfeitamente polida, confundindo a mente quanto o toque reconhecia a asperidade do metal.
Neste muro impenetrável havia somente uma entrada. Um túnel em forma de arco se estendia para dentro da estrutura, o caminho rapidamente envolto numa escuridão tão densa que parecia sólida.
“Mostre-me quem você é, Rei Eterno.”
Sem motivos que o fizessem hesitar, o príncipe seguiu a passos firmes o caminho envolto em mistério, rapidamente desaparecendo na escuridão do corredor.
Ao contrário das paredes externas, o interior carregava as características visuais de placas metálicas. As frestas expeliam um vapor fraco, em suma reconfortante, mantendo o ambiente fresco. Os parafusos dançavam pela superfície áspera como pequenos insetos, moldando por constante a forma, posição e maleabilidade do metal.
Gulp! Vast arrepiou, uma reação simples mas que fez junto uma onda de dor devido o corpo ferido. O corredor era como a garganta de uma criatura desconhecida, onde o príncipe entrava por conta própria.
Andou por o que pareceram horas, mesmo que seus passos fossem apressados. O eminente ataque do Julgamento de 20 Dias fazia o coração bater mais rápido. Sofreria um ataque cardíaco antes da morte súbita em si.
“Quanto mais eu preciso andar?”
No momento que se questionou, a mudança no cenário finalmente ocorreu.
O corredor se abriu num grande salão, como esperado, coberto numa escuridão impenetrável. Os limites do local se faziam fora de visão, dando a incômoda sensação de um ambiente infinito.
O chão era de concreto puro, mas tão liso e brilhante que refletia de leve a figura do príncipe como num espelho. No centro do local estava seu único ponto distinto, também o foco da atenção.
Um círculo de luz cuja origem era desconhecida destacava não um trono, mas uma cadeira simples. Ela não estava mais alta, na verdade se fazia um degrau abaixo do resto do chão.
Nesta se sentava um homem.
“É ele?”
As sobrancelhas de Vast formaram um arco. Andou sem problemas na direção da figura, um pouco hesitante, mas muito mais facilmente do que esperava.
Urgh! Mudou no tempo de um único passo.
Quando estava há dez metros do assento, sua mente processou uma onda de informações de uma só vez. De súbito, se fez ciente de quem jazia adiante.
Ele era uma silhueta, sua identidade oculta por sombras que nem a luz misteriosa era capaz de penetrar. O único órgão notável em seu rosto eram os olhos, tricolores — em vermelho, azul e cinza —, e as pupilas negras como carvão.
Sentava com uma perna apoiada sobre a outra, os braços a descansar no apoio de braço e a cabeça levemente baixa.
Encarava Vast de uma posição inferior, mas de forma alguma isso lhe tirava mérito. Tanto é que, para corrigir a afronta de ainda estar de pé, o príncipe de Von Legurn se ajoelhou.
"O que significa isso!?"
Ele viu algo que, para si, era pior que a morte de um ente querido. Pairava sobre a cabeça da figura, numa forma incomodamente familiar.
Raça Desconhecida
Força (Erro)
Agilidade (Erro)
Inteligência (Erro)
*
Habilidades Passivas:
Número excede os limites calculáveis.
Habilidades Ativas:
Número excede os limites calculáveis.
— Vast Los Filho… Por favor, erga a cabeça.
A voz era surpreendente calma, de forma alguma associável àquele trovejante e imenso peso esperado de alguém que carregava o título de Rei Eterno.
O príncipe obedeceu ao pedido, lentamente reconectando seu olhar ao do homem.
— Co-Como sabe o meu nome?
— Está bordado na sua roupa.
Ah… Seu rosto corou de leve. Quis levantar e se desculpar de todas as formas possíveis, porém o forte estalar de seus ossos ao menor movimento brusco lhe manteve travado no lugar.
Vendo a situação do príncipe, o Rei Eterno riu curtamente e estalou os dedos.
Snap! Todo o peso que Vast sentiu se dissipou no ambiente junto ao som. Quando analisou seu corpo, notou que as feridas e até a sujeira havia desaparecido. Estava curado!
— Consegue se levantar agora? Esse chão é um pouco desconfortável pra ficar de joelhos.
O fez devagar, incrédulo com o quão bem se sentia. A exaustão que levaria semanas de sono e recuperação foi resolvida num piscar de olhos.
— Então você realmente é… o Rei Eterno?
— Ahaha, é assim que sou chamado fora da Torre? Até que não soa tão mal. Eu sou algum tipo de deus ou coisa parecida?
— Hã? — Confusão tomou o semblante de Vast, gradualmente se misturando à preocupação. — E-Espera, você não sabe de nada mesmo?
No fim das contas, o príncipe teve de — resumidamente — explicar ao Rei Eterno o que era o Rei Eterno. Uma vez que a história terminou, ele repetiu a frase mais importante:
— “Aqueles que alcançarem a Torre terão o direito de fazer um pedido ao Rei Eterno”… Ahaha! É como um conto de fadas, que coisa mais interessante.
Vast massageou a testa, o peso que sentia devido à presença da entidade substituída por uma carga de estresse que ameaçava fazer todo seu cabelo cair de uma só vez.
— Perdão pela pergunta, mas, se você não sabe de nada disso, quer dizer que eu não consigo fazer nenhum pedido?
— Hum? Eu não disse isso.
Uma chama de esperança reacendeu no par de obsidianas.
— Sé-Sério? E quais são as condições?
O Rei Eterno ponderou por alguns segundos.
— Você tem apenas um pedido, então seja criativo. Depois disso, eu te enviarei para o local de seu desejo, porém você nunca mais será capaz de entrar na Torre.
…Considerado isso, pode pedir o que quiser.
A afirmação emudeceu Vast. Foi uma demonstração clara de poder feita como um comentário qualquer.
Pode pedir qualquer coisa, pois eu sou capaz de qualquer coisa.
No entanto, ao invés de inundar o ambiente com um forte senso de temor, os dois continuaram conversando como se fossem amigos de longa data. De certa forma, essa leveza na fala independente do que saísse de sua boca lembrava e muito Russisch.
Agora, dotado de uma liberdade excessiva, Vast travou.
O fato de que seria enviado para um lugar de seu desejo resolvia o perigo do Julgamento de 20 Dias, uma vez que bastava ir para o castelo e reiniciar o cronômetro invisível. Porém, a condição de nunca mais entrar na Torre pesava demais sua decisão.
“O que exatamente eu poderia pedir?” Tudo que lhe vinha à mente parecia pequeno demais. Não estava pronto para ter tanto poder em mãos.
A prosperidade de Von Legurn.
A saúde de todas as pessoas.
Paz para toda La Serva.
A limpeza das nuvens nubladas e a restituição do sol.
Estas e muitas outras possibilidades cruzaram sua mente, da cura de todas as doenças à vida eterna. Tudo parecia fraco, simples ou até egoísta demais.
Como poderia ele, uma única pessoa, escolher por algo que afetaria todos? Era impensável!
Vendo a criança perdida, o Rei Eterno decidiu ajudar. Mesmo envolto em sombras, a feição de seu rosto indicava um sorriso agradável em seu lábios.
— Todos possuem algo que desejavam desde pequenos, a maioria super egoístas, e está tudo bem com isso. Use esse como ponto de partida, tenho certeza que vai te levar a uma conclusão satisfatória.
O príncipe assentiu, regredindo alguns anos no passado. Havia de fato um pensamento que vagava por sua mente quase todos os dias.
Quando passeava, analisava ou perguntava sobre a paisagem seca além dos muros da capital. Quando devorada a refeição que consistia em água e pão seco, às vezes acompanhado de rato assado. Até nas vezes que — num dia de grande sorte — era permitido a dormir ou tomar banho junto de Emilia.
Aquele desejo em específico sempre esteve lá, vivo até os dias de hoje. E quando seu caminho foi melhor observado, Vast vocalizou sua conclusão.
— É possível extinguir a raça dos vampiros?
O Rei Eterno murmurou animado.
— Esse é um pedido interessante. Sim, é possível, mas… — Aguardou por um questionamento dramático que nunca veio, obrigado a continuar quando o silêncio se tornou constrangedor demais. — Po-Por mais que eu consiga, seria desinteressante fazê-lo de tal forma. Terá de haver um pequeno processo para tornar isso realidade.
— E qual seria ele?
Seguindo o apontar de dedo, a atenção de Vast caiu num altar que não se lembrava de estar ali. Chegava na altura de sua cintura, feito de uma exótica madeira escura em perfeito estado e adornado com ouro, guardando em seu topo uma esfera do tamanho de uma cabeça humana que emitia um leve brilho esbranquiçado.
— Para tornar seu desejo em realidade, você precisará passar um teste, e eu advirto que sua força atual está distante de ser suficiente para concluí-lo. Para ter uma melhor noção, é como se você fosse uma formiga desafiando um elefante para uma luta até a morte.
O príncipe engoliu em seco, imaginando que tipo de prova seria essa.
…Aquela esfera será o nosso "medidor". Quando você tocá-la, eu irei lhe transformar em pedra e sua mente entrará num estado de hibernação, que irá inclusive interromper o cronômetro natural do Julgamento de 20 Dias, resolvendo o problema da morte súbita que tanto amedronta vocês Amaldiçoados.
…Uma vez que você vai precisar de ajuda para passar pelo teste, assim que mais pessoas chegarem e aceitarem participar da batalha, a esfera vai eventualmente brilhar na cor verde. Quando isso acontecer, você e os outros que estiverem aqui serão despetrificados para lutarem juntos!
O Rei Eterno juntou as mãos sobre as pernas, como um homem de negócios vendendo seu produto.
— E então, como isso soa para você?
— Estou de acordo.
Vast havia se convencido na parte do Julgamento de 20 Dias. Sendo essa sua maior preocupação, o fato da petrificação resolvê-la tornava o acordo numa vitória absoluta em sua perspectiva. Mesmo que demorasse centenas de anos para as próximas pessoas chegarem, estava disposto a aguardar por um bem maior.
Claramente surpreso com o jeito direto do príncipe, o Rei Eterno considerou jogar um pouco de conversa fora imaginando que o rapaz talvez devesse pensar um pouco melhor sobre a proposta, afinal nem ele sabia quanto tempo poderia levar até os "prometidos colegas de batalha" surgirem. Havia sempre a possibilidade de sequer aparecerem.
Entretanto, os olhos do príncipe deixavam mais que evidente sua decisão, deixando até o Rei Eterno sem escolha.
— Bem, se é assim, pode tocar na bola quando estiver pronto.
Sem mais motivos para hesitar, Vast foi até o altar e respirou fundo. A esfera refletia seu rosto levemente tenso, o que tirou-lhe um riso curto.
— Tem certeza de que não quer fazer mais nenhuma pergunta? — O Rei Eterno perguntou por desencargo de consciência.
Dessa vez, o príncipe refletiu um pouco mais e, de costas para a entidade, perguntou:
— É uma pergunta um pouco repentina, mas… O que você considera um Rei?
Com o título que o homem tinha, Vast era incapaz de imaginar alguém melhor para responder esse questionamento. Escondia o rosto para evitar demonstrar a ansiedade em seus olhos, e principalmente a surpresa quando recebeu sua resposta.
— "Rei", isso é apenas um título. — O silêncio do príncipe lhe deu a abertura para elaborar. — Já me deparei com vários indivíduos se diziam reis, alguns não verbalmente, mas carregavam os trejeitos do que poderia ser um. Sempre que analiso esses casos, essa é a conclusão que pessoalmente mais me satisfaz. Mesmo que esse título seja tirado daquele que o carrega, o indivíduo por si só não muda, e o mesmo vale para o caso onde alguém aleatório o recebe. Ela não ganha nenhum conhecimento ou habilidade imediata, é a mesma pessoa porém sendo referida de um jeito diferente. Se pensar um pouco mais, pode perceber que qualquer título é equivalente ao "Rei" nesse quesito.
Refletindo na própria resposta, o Rei Eterno considerou-a como extremamente simplória. Imaginou que tipo de reação alguém como o herdeiro de um trono reagiria, crescendo um pouco em ansiedade.
Vast então respondeu:
— É uma visão interessante. Obrigado por compartilhar esse conhecimento.
Teve um curto sobressalto em sua cadeira.
— Não pretende me questionar? Pensei que era isso que pretendia.
O príncipe riu internamente. Era de fato o esperado de qualquer um, e se fosse o Vast de vinte dias atrás de pé aqui, ele entraria numa discussão com o Rei Eterno. Porém, este que estava aqui e agora, após tudo que a jornada lhe proporcionou, era alguém completamente diferente; até mesmo se comparado ao Vast Los Filho de minutos atrás, antes de entrar na Torre.
— Eu não perguntei em busca de uma resposta, apenas uma opinião. Como herdeiro do trono de Von Legurn, meu dever é saber o que pensam todos em meu território e fazer o meu melhor para deixá-los satisfeitos. Isso, obviamente, inclui você.
O homem ficou em silêncio, seus olhos tricolor arregalados em surpresa, encarando as costas daquele que demonstrava zero hesitação em petrificar-se por um bem maior, mesmo incerto se isso realmente adiantaria de alguma coisa. A mera possibilidade de cumprir seu objetivo já era o bastante para continuar seguindo em frente.
Apesar de não colocar em palavras, o homem na cadeira pensou que, talvez, a pessoa diante dele fosse muito mais merecedora do título de Rei Eterno.
— Ahaha! É raro os que pensam como você. — Ele ergueu uma das mãos e estalou os dedos. — Muito bem, fique numa posição confortável e mantenha pelo menos uma das mãos sob a esfera.
Vast obedeceu sem questionar, vendo a transformação partir da ponta de seus dedos.
Curioso… Sua pele e até a roupa mudava de textura, mas apenas isto. Não sentia dor, diferença de peso, frio ou calor. Era a exata sensação de sentir o corpo adormecer lentamente após um longo dia de trabalho.
Ao invés de se desesperar, ele aguardou ansioso pela transformação. Um casulo que eclodiria no tempo certo, tinha certeza, pois aquele que o cuidava era mais do que confiável.
— Eu agradeço por tudo, Rei Eterno. Até breve.
Em poucos segundos, todo o corpo do príncipe foi envolvido. Seu corpo e até as vestimentas, tudo transformou-se em pedra, um estado de conservação tão imaculável quanto o próprio passar do tempo. Havia se tornado numa escultura que faria até os mais incríveis escultores chorarem de admiração.
— Sim, até breve.
E de tal forma, o interior da Torre voltou ao silêncio absoluto. Em seu interior, duas pessoas agora aguardavam pela chegada dos próximos indivíduos, seja lá onde estivessem neste exato momento.
