Vendo um cadáver de pé à sua frente, Eduardo cuspiu um pouco de sangue assim que a mandíbula se regenerou por completo.
— Como consegue ficar de pé? Por acaso despertou alguma habilidade de cura do nada ou algo assim?
— Eu vim cobrar por tudo que você causou às pessoas de Von Legurn. Isso é razão mais que suficiente para eu continuar de pé.
O vampiro riu em zombaria, avaliando o oponente dos pés à cabeça, notando que finalmente recuperou o Atirador Rubro e seu nunchaku.
"Isso é estranho, muito estranho."
Vast podia ser um Amaldiçoado, mas antes disso ele era um humano, e as feridas — físicas e mentais — que carregava agora estavam longe de serem algo suportável para um de sua espécie.
Os olhos e a boca de Eduardo curvaram na forma de uma meia-lua, contorcendo seu semblante num incômodo sorriso malicioso.
"Sim, sim! Continue! Me mostre mais… Me mostre até onde essa evolução é capaz de chegar!"
Toda essa situação era o mais puro ouro. Como um arqueólogo ao encontrar a ossada de uma criatura até então desconhecida, o coração do vampiro chegou a bater pela primeira vez em décadas de tanta empolgação.
Tinha que haver uma explicação para tanta resistência. Determinação? Amizade? Como pesquisador, não acreditava nesses fatores como essenciais na sobrevivência, apesar de reconhecer que tinham seu valor. Porém, ele tinha dicas de terceiros a indicar outra hipótese.
"Ele tem que ter algo de especial, algo que atraiu a atenção de Carmilla ao ponto de que ela o protegeu, e eu vou descobrir o que é!"
Sentiu um pouco de pena do príncipe, arrepiando só de pensar em ser alvo do interesse daquela mulher traiçoeira.
Tumph! Aproveitando essa curta divagação, Vast cortou a distância até seu oponente com ambas as mãos protegidas por luvas de boxe criadas com sangue enrijecido.
A chuva de punhos carmesins focou no torso e a cabeça do vampiro, essa última protegida pelos braços num reflexo de última hora. Com um chute finalizador, Eduardo foi arremessado para o alto.
Sem chão, girou como um peão descontrolado até alcançar o máximo de altura, capaz de perceber de canto de olho o príncipe a mirar com o Atirador Rubro. A saraivada de disparos veio como uma chuva em sentido inverso, determinada a perfurar os céus.
O vampiro se encolheu em posição fetal e seu corpo foi envolto numa camada densa de luz, agindo como barreira que aguentou a maior parte dos disparos e desviou o resto.
TUM! Aterrissando como um pequeno meteoro, iniciou o contra-ataque.
"O que é o seu combustível? Seria dor?"
Criando lâminas de luz, arremessou várias em sequência enquanto se aproximava a passos curtos. Vast priorizava desviar dos projéteis, notando que a tentativa de mudar suas trajetórias à força era inútil.
"Talvez seja raiva…"
Perto o bastante, envolveu apenas a ponta dos dedos indicadores no brilho cegante. Seguiu-se um ataque quase inofensivo, uma sequência de cutucões tão velozes que seus braços pareciam ter multiplicado. Os acertos não eram fatais, mas construíam marcas de queimado pelo corpo do príncipe como se alvejado por disparos à queima roupa.
Seu sangue ferveu e os punhos cerraram para devolver a investida em dobro.
Snap! Em um estalar de dedos, uma bomba de luz queimou seus olhos. O soco atingiu o ar, enquanto os ouvidos pegaram a risada do vampiro.
Sem chance de reagir, um chute acertou o estômago de Vast e o arremessou por alguns metros. Uma vez que recuperou sua visão, encontrou o vampiro parado no mesmo lugar com as mãos na cintura, ileso.
— Não é dor, não é raiva, também não parece arrependimento. Poderia ser… — Seus olhos brilharam numa centelha de realização. — O que te motiva a continuar lutando, poderia ser… amor?
— … O quê?
Vast esfregou os olhos e em seguida limpou os ouvidos, atormentado por dúvida genuína de se havia escuta certo. Se viu obrigado a questionar de volta.
— Essa foi uma pergunta séria ou é uma tentativa de me desestabilizar?
— Claro que é uma pergunta séria. Algum problema, por acaso?
— Não, só fiquei surpreso. Meio que… a situação, sabe.
— Humph, parece que você é um homem um pouco menos aculturado do que eu pensei.
Como se lhe dado o trabalho de professor, Eduardo gesticulou de forma teatral, usando de sua manipulação da luz para criar um auxílio visual junto à sua fala.
— Como um exímio pesquisador da raça humana, eu devo ir atrás de todas as possibilidades para comprovar minhas teorias, por mais absurdas que elas possam soar de início.
Criando uma figura humana do tamanho de um boneco, começou a atravessá-lo com estacas de luz.
…Descobrir o limite desses corpos de carne e elevá-lo para patamares cada vez maiores, esse é o meu interesse. — Envelopando a boneca em seu punho, ele a esmagou em pedaços. — Encontrar o limiar definitivo e usá-lo ao favor dos vampiros, esse é o meu objetivo!
— Pensei que era criar um reino onde a força decidia tudo.
— E por acaso a humanidade é limitada em apenas um sonho? Claro que não! Uma única pessoa pode buscar infinitos sonhos durante sua vida, e assim também são os vampiros.
Absorvia luz constantemente enquanto falava, controlando a intensidade em que seu corpo brilhava ao descartar parte da luz absorvida na forma de pequenas lanças. Uma ação constante.
— Como um vampiro, eu não preciso me preocupar com meu tempo de vida acabando ou algo assim. Mas e quanto a você, príncipe? Já escolheu o sonho pelo qual irá dedicar sua vida inteira?
Mesmo sendo um péssimo momento, Vast refletiu profundamente na pergunta. Sabia que o vampiro iria priorizar uma resposta acima da vitória, e o que encontrou nessa ação foi uma intensa dúvida.
Devido aos acontecimentos recentes, principalmente o fato de ter ficado preso num poço e ter lutado incessantemente sem tempo para descanso, apenas agora o príncipe pôde organizar tudo e chegar à derradeira realização.
"O Julgamento de 20 Dias. O limite… é hoje."
E ao contrário do que esperava quando iniciou essa jornada, seu coração estava calmo. Sob o risco de sofrer um mal súbito e cair morto no chão a qualquer momento, calma prevalecia em seu peito.
— E daí?
O vampiro ergueu uma sobrancelha para a resposta que soou desconexa. Vast não se preocupou em corrigir ou complementar, satisfeito ao alinhar tudo apenas para si.
A vida humana era curta por si só, o príncipe com mais noção disso que qualquer outro agora com seu tempo contado na casa de apenas algumas horas.
— Não sei se estava surdo quando eu falei, mas eu já disse a razão de eu estar lutando. — Afundou os pés no chão, firme como uma árvore que sobreviveu ao maior dos incêndios. — É meu dever como herdeiro do trono de Von Legurn eliminar a maior ameaça para os meus súditos. Raiva, tristeza, dor, amor, com certeza existem pessoas que se movem apoiados em algum desses pilares…
Todo o sangue espalhado pelo campo rastejou de volta ao príncipe, escorrendo pelas feridas abertas e voltando a correr pelo corpo, aliviando a palidez de sua pele. Uma pequena quantidade tornou-se numa casca sólida, fechando as mais problemáticas.
…Mas eu estou aqui apenas pelo meu dever. — Envolveu os antebraços numa camada segunda sólida como diamante rubro. — Agora, se não se importar, eu não quero perder mais tempo conversando.
O cenho do vampiro contorceu num leve desprezo.
— Certo, pelo visto é a maneira mais fácil de conseguir minhas respostas. Não se arrependa disso depois.
Copiando o príncipe na cara dura, Eduardo envolveu seus dois braços numa fina camada de luz. A fragilidade equivalente a de vidro compensada pela temperatura de um vulcão.
"Vast Los Filho, você acha que é o primeiro a durar tanto assim contra mim?"
Um sorriso frio tomou seus lábios.
"Pois está certo! Eu nunca vi outro humano ir tão longe!"
Normalmente morriam ou tentavam fuga no momento que eram atingidos pela primeira lança de luz.
Vast, além de estar lutando sem sinais de que iria se render, vinha direto de dias de luta incessante no poço. O vampiro obviamente jamais admitiria isso em voz alta, mas uma pequena faísca de medo residia no fundo de seu peito, a causar uma coceira desagradável.
"A única que me fez sentir isso até hoje foi a Carmilla. Bem, não devia esperar menos de alguém que chamou a atenção daquela maníaca."
Pronto para a luta, foi inevitável a relação que seu cérebro fez. Essa situação e até os envolvidos nela. Eduardo foi pego numa agradável nostalgia.
O sol fervente castigava as dunas de areia abaixo. No chão um deserto escaldante, no céu um mar azul que já esqueceu a sensação de ter uma nuvem a percorrê-lo.
Rastejando pelas ondas sólidas, uma criatura invasora do ambiente de alguma forma sobrevivia, o jeito como o fazia era incerto.
— Garh… Bas-tar…dos! Urk!
A garganta de Eduardo, tão seca quanto os grãos de areia, passava pelo processo de derreter e se transformar em vidro. O único destino dos que ousavam permanecer ao alcance dos raios do grande sol.
Ia para um horizonte vazio, impulsionado por um sonho infantil de encontrar a construção mítica que ouviu existir onde os olhos não alcançavam. Uma estrutura negra que se estendia para além do céu, lar de uma entidade tão grandiosa quanto.
Mesmo com pele queimada e cheirando à carne assada, nem a mais valente das criaturas ousava se expor às mesmas condições que si, se é que havia de fato algo além dele nessas dunas sem fim.
A água acabou na noite passada, a energia das pernas há algumas horas; a razão, minutos. Sua vontade, no entanto, se erguia em equivalência à estrela a queimar no céu. Sua boca era incapaz de produzir sons para além de murmúrios doloridos, já a mente trabalhava mergulhada em indignação.
“Como podem ser tão… tão…”
Cada passo impulsionava o corpo menos de cinco centímetros adiantes. A sola de seus pés queimou ao ponto dos ossos serem visíveis, o último dedo de suas mãos foi mascado na esperança de prover o mínimo de calorias para continuar acordado.
“Bando de cobras!!”
Seu corpo sofreu a queda inevitável. De barriga para cima, se viu à mercê do sadismo do único companheiro de toda a jornada.
A estrela no céu; um olho a observar sua solitária e veloz decadência. Depois de sua pele, seria a carne, depois seus órgãos e por fim os ossos. Tudo seria eventualmente reduzido às cinzas. Suas unhas derreteram, os dentes eram pedras que queimavam a gengiva de dentro para fora e os olhos viraram ameixas secas.
Para onde sua existência iria após a morte, não queria saber. Não enquanto tivesse aquela dúvida.
“Por que eu deveria morrer aqui? É a isso que eu estou destinado? Esse é o fim que o mundo escolheu para minha existência?”
O que ele havia realizado em vida? Em resposta simples: nada. Sua pesquisa ainda engatinhava, morta à pauladas antes que pudesse se colocar sobre as duas pernas.
Qual era o valor de um pesquisador que gerou apenas perguntas? Crianças faziam isso o tempo inteiro. Neste deserto, nem mesmo seu cadáver encontraria utilidade. Sem um predador ou um carniceiro à vista, toda sua matéria orgânica seria lentamente consumida por vermes e bactérias já existentes em seu corpo, os quais também iriam eventualmente sucumbir ao sol.
“Mas… eu quero continuar!”
Concentrando todas as forças que tinha no presente, passado e futuro, ele apostou tudo. Nem que fosse um mero espasmo, queria se mover nem que fosse um único centímetro adiante.
“Eu preciso descobrir o limite! Não é possível que seja esse!”
“O Rei Eterno… Ele realmente existe?”
“Eu quero perguntar tanta coisa. Descobrir, confirmar, refutar… é um crime tão grande assim querer alcançar minha melhor versão?”
Estava imóvel. O mundo tornou-se escuro, inaudível e inodoro. Somente uma coisa restava, e era o calor. Um infernal porém acolhedor calor.
“É isso que vocês queriam? Eu faço alguns pequenos testes e é assim que me retribuem?!”
Só porquê algumas pessoas morreram no processo não significava que ele era um monstro. Tudo exige sacrifícios, tanto de quem está disposto a fazê-los quanto daqueles que são sacrificados, mas principalmente do primeiro!
“Como conseguem ser tão cegos? Como podem ser tão presos ao presente!? Só eu que me preocupo em construir um futuro sólido??”
O agora passa num literal piscar de olhos, e o que virá depois é decidido pelas ações tomadas em cada um desses milésimos de instante. Ser derrotado por algo que agora é previsível tinha como culpado unicamente aquele que se recusou a se preparar.
“Mas não aqui, não eu, isso é apenas injustiça!!”
Sozinho no alto de uma das dunas, lentamente engolido pela areia, Eduardo amaldiçoou.
“Eles não vão conseguir alcançar o potencial máximo sem a minha ajuda! Eles não conseguem! Eles…”
“…são iguais a mim.”
Um súbito entendimento freou seus pensamentos. Era essa a realização da verdade antes da morte? Era incapaz de responder, na verdade uma curiosidade imensa tomou seu peito, uma ânsia em pesquisar um tópico que até agora ninguém havia explorado.
Mas agora era tarde demais.
“Droga… Talvez, apenas talvez, eu realmente mereça tudo isso.”
Esquecendo o fogo que queimava em sua alma, concentrou-se no calor que alcançava cada centímetro de seu corpo.
Apesar de estar completamente sozinho nesse deserto, essa sensação era bastante familiar. Sim, lembrava com clareza. Era o mesmo sempre que agarrava alguém pelas costas. A respiração quente e rápida na palma de sua mão quando cobria suas bocas, o sangue a escorrer pelos braços quando unhas rasgavam sua pele. Lágrimas, essas eram uma iguaria que fazia questão de provar todas.
“Tão caloroso!”
Mas por que o sol lhe trazia essa mesma agradável sensação? Logo este que atualmente atravessava sua pele seca como galho queimado para assar sua carne. Como era possível existir tamanha dualidade numa mesma ação?
“Eu quero saber mais! O sol… eu quero conhecer melhor!”
Seus lábios tremularam numa tentativa de risada. Era loucura, ele reconhecia, querer conhecer melhor uma estrela era algo digno de pena do mais louco dos homens.
Mas e daí? Outros não tinham nenhuma relação com suas próprias aspirações, não entendiam nem sequer se esforçariam para fazê-lo. Ele sozinho era mais que suficiente para torná-las realidade.
“Eu quero… ver!”
Com mais da metade de seu corpo soterrado na areia, ele abriu os olhos outra vez. A luz era pouca para lhe cegar, servindo agora para tornar tudo ao redor visível.
“Eu quero… provar!”
Seu coração parou de bater há alguns minutos, mas nunca se sentiu tão vivo. Cada órgão que foi assado pelo calor voltou a um tom cinzento, estático para nunca mais apodrecer. Com a língua recuperada, lambeu os lábios em satisfação.
“Eu quero… tocar!”
Ergueu os braços ao alto, fazendo uma concha as mãos para cavar o buraco onde afundava. Eventualmente, se pôs de pé no alto da duna que segundos atrás o engolia. Ele então olhou para cima, exibindo seus longos caninos com a felicidade de uma criança.
E a estrela sorriu de volta.
“Eu entendo agora.” Sentiu ainda melhor o calor percorrer seu corpo. “Isso… é um novo limite para mim!”
Mesmo sem saber com exatidão o que acontecia, sabia que essa hipótese era a mais provável. O abraço da salvação veio do mesmo que o condenava a secar sob o mar de areia. Tudo que precisou foi querer entender essa entidade.
“Rei Eterno… Me parece que ele não está dentro desse lugar que chama de Torre. Não, ele estava diante de meus olhos esse tempo todo!”
Tão perto e ao mesmo tempo tão longe. Eduardo não era capaz de tocá-lo, mas podia receber suas dádivas.
A luz percorreu seu corpo pela primeira vez, devolvendo o tato para cada centímetro, estimulando partes antes mortas a acordarem mais uma vez. Imponentes.
— Esse… poder? Não, essa maravilha evolutiva! Eu… Eu preciso compartilhá-la!
A voz retumbou pelas dunas, causando tempestades. Como pesquisador, esse foi seu primeiro pensamento. Avanços eram feitos para elevarem uma sociedade inteira à um novo patamar, não apenas um indivíduo.
Raiva deixou de existir em seu peito há muito tempo, agora tomado somente por essa alegria e a ansiedade em demonstrar aos ignorantes o que ele havia entendido.
Seus olhos âmbar miraram na direção de onde veio. Pouco distante no horizonte, a silhueta de uma grande comunidade se erguia entre as ondas de calor.
— Eles precisam saber do que são verdadeiramente capazes!
O futuro refletido em seus olhos mostrava um mar de chamas, necessárias para, assim como com ele, elevar os dignos da verdade ao mesmo nível da estrela que carregava todas as respostas.
[Sonne], esse era o nome do primeiro e único apóstolo da grande estrela de fogo.
