Convidado para a batalha, Vast apontou o braço direito à frente só para terminar envergonhado. O reflexo de usar o Atirador Rubro ainda residia em seus músculos.
— Se Verdadeiro Sol é só um apelido, qual seu nome?
— Oh, eu não disse, né? Meu nome de batismo é Eduardo, pode me chamar assim.
— Eduardo? Tem uma sonoridade incomum. Você é de fora de La Serva?
— Não acho que seja importante, e também faz muito tempo. Eu estou na sua frente, aqui e agora. — De braços abertos, deu um sorriso caloroso misturado à zombaria. — Por que não tenta me acertar?
Com o braço direito estendido, a razão para a hesitação do príncipe deveria ser óbvia. As marcas das mãos feitas de pura luz ainda queimavam, com o cheiro de carne assada preenchendo o ambiente a atiçando os vampiros na plateia. Alguns ameaçaram invadir a arena, recuando ao mero encarar do Original.
"Que tipo de situação é essa?"
Ao que o ambiente indicava, estava numa espécie de coliseu criado por propósitos indefinidos até agora. O vampiro diante de seus olhos era, sem sombra de dúvidas, uma grande ameaça à sua vida, mas por alguma razão o manteve vivo.
"Aquela estaca de luz que matou Alex deve ter sido coisa dele."
Pelas palavras de Eduardo, Vast estava aqui para ser testado, então a intenção desde o início era capturá-lo vivo. Alex havia dito que estava desobedecendo ordens ao levar a luta à sério, mas matar um subordinado com habilidades no nível dele pareciam exageradas até para um Original.
Tamanha decisão em mantê-lo vivo, o coração do príncipe bateu mais rápido.
"Seja lá o teste que ele queira fazer, eu não posso deixar essa chance passar!"
Assim como todos os outros vampiros até agora, Eduardo era arrogante. Deixar uma ameaça como Vast viva era a maior besteira que poderia cometer, tão tolo quanto os vilões dos contos de fadas lidos por Emilia.
"Se eu conseguir matá-lo aqui, eu ainda tenho uma chance!"
Agarrado à essa esperança, avançou.
Seus passos longos e velozes deixaram apenas poeira para trás. Eduardo recolheu os braços abertos para defender o golpe evidente, muito lento. O punho do príncipe afundou em seu rosto, o som de ossos se partindo ecoando por todo o ambiente.
Vast prendeu o corpo do vampiro no lugar ao pisar num de seus pés, seguindo com a saraivada de golpes. A chuva de impactos que se seguiu abafou qualquer som da plateia. Todos focando unicamente no rosto.
A urgência se misturava se disfarçava junto à seriedade no rosto do príncipe.
"Eu não posso perder essa chance!"
Até onde Vast sabia, haviam três maneiras de se eliminar um vampiro.
A primeira era exposição ao sol. Era a mais difícil e demorada uma vez que o céu de La Serva era sempre nublado. Vampiros andavam mesmo durante o dia, porém o sol ainda estava lá, e se ficassem tempo demais expostos eles ficariam enfraquecidos e abertos para ataques.
A segunda maneira, descoberta recentemente pelo príncipe, era o sangue de um Amaldiçoado. Apesar dos detalhes serem incertos, era fato de que seu sangue era o mais potente dos venenos contra as criaturas que entrassem em contato direto.
A terceira — e mais eficiente — era simplesmente explodir a cabeça do vampiro.
"Só mais um pouco!"
Seu maior obstáculo no momento era evidente. Os mesmos punhos que antes destruíam os oponentes com um simples abanar, encontravam em Eduardo a resistência digna de ser chamado de muralha.
Apenas socos seriam insuficientes para terminar o serviço. Mesmo considerada a força duplicada da [Mutter], a regeneração natural de Eduardo somada à sua resistência inesperada tornava impossível que os danos se acumulassem. Ambos os oponentes tinham noção disso.
"Agora!!"
Numa única e feroz mordida, Vast arrancou a ponta de seus dois polegares. O ato brutal tirou um resmungo impressionado de Eduardo.
A explosão vermelha se concentrou na palma de suas mãos, criando em cada uma um largo bloco de sangue tão duro quanto concreto. Os braços abertos fecharam num movimento de garra, mirando a cabeça do vampiro no meio.
— MORRA!!!
Seu grito canalizou toda a força do corpo nos braços, pronto para explodi-los junto se assim fosse preciso.
Tunk! Se realmente era, jamais descobriria. Eduardo parou o ataque no meio do caminho, segurando os blocos de sangue com as mãos enquanto sorria levemente.
— Muito abaixo do esperado, Vast Los Filho.
Uma terceira mão surgiu de seu torso, atingindo o príncipe com um soco no estômago que o arremessou para trás. Conseguiu ainda terminar de pé apesar da sequência de giros, retendo o pouco de dignidade que ainda restava.
— HAHAHAHA!!
— Que fracote é esse?
— Ele sequer conseguiu tirar o mestre do lugar!
A plateia zombava até suas gargantas secarem, e Vast podia apenas fingir não ouvir. Afinal, tudo que diziam era verdade.
Imóvel desde o início do combate, Eduardo cortou fora o braço de luz que havia se formado. O membro se desfez em fragmentos menores até desaparecer por completo.
"Por que ele não absorveu de volta?"
A última coisa que o príncipe teve foi tempo para refletir em sua pergunta, distraído pelo vampiro que afundava um dedo no nariz em tédio.
— Por que você não está lutando a sério?
Indo contra o clima estipulado pela plateia, Eduardo foi capaz de calar esta com uma simples pergunta.
— O que… quer dizer com isso?
— Hah~, qual é, eu sei que você consegue mais que isso. Estava se apoiando tanto assim naqueles dois brinquedinhos? Isso não é saudável.
Ele disse isso enquanto retirava o dedo do nariz com a ponta coberta de ranho. Uma mistura de sujeira, sangue e possivelmente pedaços de seu próprio cérebro. Após cheirar a gosma, ele lambeu o dedo, saboreou a massa e engoliu com um semblante satisfeito.
…Um Rei precisa saber se virar apenas com os punhos, não é verdade?
Stomp!
Vast afundou um dos pés no chão. Raiva de repente emergiu em seu semblante, fazendo os olhos obsidiana brilharem com uma leve chama prestes a explodir.
— Maldito… De quem você ouviu isso?!!
— Ei, ei, calma aí! Estamos conversando de boa até agora, mas não vai dar pra falar se você decidir partir pra agressão de novo.
Teve de se conter, incapaz de enxergar mentiras na fala mansa do vampiro. Aproveitando o impulso perdido, Eduardo guiou:
— Você sabe muito bem de onde vem essa frase. Vamos, repita comigo…
Mesmo sentindo repulsa do fundo de seu ser, a confirmação de sua suspeita mudaria tudo. Dessa forma, com seu coração apertado e os lábios ardendo, Vast seguiu a voz do vampiro com perfeita sincronia.
Primeiro Juramento: Um Rei deve proteger seus súditos com a própria vida.
Segundo Juramento: Um Rei deve ser justo e não ceder às soluções mais fáceis.
Terceiro Juramento…
— Mesmo desarmado, um Rei deve saber se proteger com os próprios punhos.
Esses eram os três pilares que um governante de Von Legurn carregava, algo passado apenas para os membros diretos da família real e serviçais estritamente selecionados.
Para completar o quebra-cabeça, a última peça ressurgiu na superfície da mente de Vast. Uma memória recente, as palavras proferidas com as últimas forças do homem que uma vez o príncipe chamou de amigo.
[Aquilo] não é confiável! Pela glória do Rei Eterno, afasta-se daquela coisa!
O Transformado que atacou o castelo naquele dia. Seu aviso encaixou-se com uma perfeição surreal.
"Jordan, então era isso que queria dizer?!" Encarou Eduardo diretamente, os olhos queimando com a própria raiva. — Então era você! É você o verme que anda se infiltrando nas políticas do reino!!
O vampiro deu um riso zombeteiro e deu de ombros.
— Isso é algo que não posso confirmar. Vai saber, né~!
As razões para esperar haviam se esgotado. Vast saltou com tudo contra Eduardo, que dessa vez retribuiu com seu próprio avanço ao invés de ficar parado como de início.
Pego de surpresa pelo contra-ataque, o príncipe usou os braços para defender os golpes inevitáveis.
— Eu venho observando a organização desse reino há um bom tempo, e tem uma coisa que eu consegui perceber. Algo que apenas alguém olhando de fora seria capaz de notar.
O vampiro sequer utilizava seus dois braços para atacar, golpeando Vast por todos os ângulos possíveis usando membros de luz que se projetavam para fora das mais variadas partes de seu corpo. Uma chuva de raios de sol inevitáveis.
— Este seu reino, ele caiu em estagnação há muito tempo!
Faltavam oportunidades para Vast contra-atacar, fosse com seus punhos ou palavras. Eduardo havia adquirido a vantagem total.
— Eu me pergunto o que o Rei estava fazendo até hoje, nem se ele ignorasse seus deveres completamente a situação teria ficado tão ruim. Ele deve ter se esforçado mu~ito, hahahaha!!
Finalmente, a plateia se fez presente outra vez, acompanhando as risadas do vampiro enquanto ele continuava seu discurso.
— Sabe, na região Norte tem um cara que fica falando sobre como os vampiros são uma raça superior e coisa assim, chato pra caramba. Honestamente, eu acho que é o total oposto! Humanos é que são a raça superior!
Mesmo bombardeado pela rajada de punhos, Vast estampou confusão em seu rosto. A própria ideia de ouvir um vampiro, a raça mais orgulhosa do mundo, proferir essas palavras era inconcebível.
Eduardo continuou:
— Humanos podem sair a qualquer hora e lugar, mas vampiros enfraquecem se ficarem muito tempo expostos durante o dia, mesmo com o céu sempre nublado. Como que uma raça com uma fraqueza dessas pode ser chamada de superior? É ridículo! E é por isso que eu, com a minha habilidade, devo estudar essas criaturas!!
De repente, a chuva de ataques contra Vast parou. Com um sorriso e um estalar de dedos, Eduardo ordenou:
— Fechem o teto.
Imediatamente, uma tampa cobriu a única entrada de luz natural do poço, mergulhando-o em escuridão ao mesmo tempo que destacava o vampiro cujo corpo ainda emitia luz como uma estrela encarnada.
— Meu plano é bastante simples.
Usando sua habilidade, ele manipulou feixes de luz para criar um verdadeiro teatro na arena. Uma apresentação para Vast e reafirmação para toda a plateia que, mesmo oculta dentro das fissuras das paredes, tinha alegria e exaltação palpável.
— Primeiro de tudo, eu vou eliminar a família real e destruir o castelo da capital. Com o sistema atual destruído, um novo vai se instaurar em pouco tempo. As pessoas vão começar a lutar umas com as outras em busca dos recursos escassos, cada um priorizando a própria sobrevivência. Essa será apenas a primeira reação.
…Quebrando a hierarquia falha e deixando todos decidirem seus lugares através da batalha, dessa forma apenas os fortes irão ocupar os melhores lugares, apenas isso seria o bastante para o reino atingir um patamar inédito! Mas claro, esse não é o meu objetivo principal. Honestamente eu não dou a mínima se Von Legurn deixar de existir nesse exato instante.
Elevando o próprio corpo no ar, o vampiro usava figuras de luz que lembravam pessoas para subir cada vez mais alto.
…Com apenas os mais fortes existindo, eu terei as cobaias perfeitas para estudar a raça humana e me elevar ainda mais alto! Uma forma de vida inferior utiliza outras acima dela para voar ainda mais alto!
De pé sobre a montanha de corpos, ele elevou sua mão em direção aos céus. Distante, mas inegavelmente mais próximo.
— Existe fazenda de animais melhor que essa? Nem em um milhão de anos!!
Em transe por vários motivos diferentes, Vast chacoalhou a cabeça e retrucou em tom óbvio:
— Você só quer isso porque assim pode ficar no topo.
O vampiro sorriu. — É apenas uma consequência, não é minha culpa ser mais forte que todos aqui. Se surgir alguém mais poderoso para tomar o meu lugar, então que assim seja. Até que esse dia chegue, eu farei as coisas do meu jeito.
Com outro estalo de seus dedos, o teto se abriu e revelou o céu nublado outra vez.
— Eu tenho outras coisas para resolver agora, então tenho que ir. Aguardo ansioso para ver se você ainda consegue evoluir, meus servos estarão me passando as novidades depois.
De repente, um alvoroço começou entre as figuras que se escondiam dentro das fissuras nas paredes. As auras vampíricas se tornaram mais intensas e os olhares humanos mais sedentos.
— Mostre-me o que o mais forte do sistema atual é capaz de fazer, Vast Los filho.
Eduardo se transformou numa forma de pura luz e alçou voo de uma só vez, assim desaparecendo do poço.
A reação foi imediata, com a legião de vampiros e Amaldiçoados se espremendo nas rachaduras e até criando novas na força bruta. De uma só vez, uma tempestade furiosa caiu com força total sobre o príncipe.
