Vast caminhou alguns minutos pelas ruas de Ormstade e eventualmente chegou à fachada de uma garagem abandonada. O largo portão aberto revelava uma bagunça organizada, de onde Russisch emergiu assim que notou o príncipe.
— Majestade!
O inventor parou as tarefas e saiu para cumprimentar o príncipe.
— Me avisaram que estava vindo. É bom vê-lo inteiro!
— Também fico feliz em saber que está bem, mas eu estou com um pouco de pressa. Vim aqui pois gostaria de discutir algumas coisas.
Sendo então convidado pelo inventor e servido com uma sopa de ossos servida pela esposa, Vast começou a explicar mais detalhes sobre sua Maldição.
Se Russisch soubesse mais das capacidades da [Mutter], quem sabe poderia surgir com alguma teoria que explicasse o sangue fervendo.
Também havia a questão da resistência anormal apresentada durante a luta, mas como isso parecia ser algo à parte de sua Maldição, Vast optou por guardar esta questão para si.
A conversa se estendeu por pouco mais da metade do dia. Quando anoiteceu, Russisch ponderou em todas as informações que recebeu e, iluminado por ideias, deu um sorriso animado.
— Me parece que existe um aspecto da sua habilidade que era desconhecido até para você. — Alcançou uma pequena tigela próxima e estendeu para o príncipe. — Despeje um pouco de sangue aqui.
Sem questionar, Vast o fez através do Atirador Rubro.
— Certo, me escute com atenção. Você disse que o sangue ferveu em um momento de extrema raiva, certo? Isso sem dúvidas foi algo além de mera coincidência, e para provar isso eu quero que você se concentre e tente manipular esse sangue.
— Manipular? Eu nunca tentei fazer algo assim. O que exatamente quer que eu faça?
— Eu sei lá, você que é o Amaldiçoado aqui, eu sou apenas um inventor comum, haha!
Vast acompanhou num riso sem graça, encarando o próprio reflexo no espelho carmesim.
"Naquele momento durante a luta, o sangue ferveu quando meu coração se encheu de raiva."
Pensou na possibilidade dos efeitos estarem ligados às suas emoções, e descartou a teoria em poucos minutos. Se fosse assim, teria descoberto ou no mínimo notado essa capacidade há mais tempo. Eventualmente chegou à uma conclusão mais lógica.
Era mais provável que a manipulação respondesse como uma extensão de seu próprio corpo. Da mesma forma que são necessários comandos do cérebro para realizar qualquer movimento, o mesmo deveria se aplicar para o sangue seguindo essa lógica.
"Vale a pena tentar."
Falar era fácil, mas adquirir consciência do sangue como um "membro do corpo" seria trabalhoso. Ainda assim, Vast sorriu em antecipação. Uma habilidade como essa mudaria completamente sua perspectiva das lutas!
Sem nem saber exatamente o que estava fazendo, colocou a tigela de sangue num balcão próximo e estendeu as mãos sobre ela. Canalizando sua energia — ou pelo menos tentando fazê-lo —, ele iniciou seu treinamento.
Assim, várias horas se passaram.
O dia seguinte chegou sem demora.
A pouca luz solar que atravessava o céu sempre nublado iluminava as terras abaixo. Quando alcançava a garagem de Russisch, encontrava Vast ainda sentado em um banco, completamente imóvel.
Seus braços permaneciam estendidos à frente, o que ocasionou numa palidez extrema devido à falta de circulação. Apenas o fato de estarem firmes era mais que impressionante.
Da porta da cozinha, Russisch e sua esposa observavam de canto, sussurrando entre si.
— Ele está bem? Não deveria chamá-lo para comer?
— Deixe-o. Ele não ficaria assim por tanto tempo se não estivesse dando resultados. Vamos confiar e esperar mais.
Ambos se retiraram em silêncio, controlando até o rangido da madeira podre aos seus pés, e mesmo que explodissem uma granada dentro da sala, em nada afetaria o príncipe cuja consciência mergulhava em profundezas jamais antes vistas.
As primeiras horas de sua meditação foram, de fato, infrutíferas. Estava apenas forçando os olhos a permanecer fechados enquanto os braços lentamente ficavam dormentes.
O pensamento de desistir e descansar surgiu mais vezes do que era capaz de contar. Resistido. Algo até então silencioso chamava por Vast, e este algo finalmente começou a se manifestar na forma de um som audível.
:: Você conseguiu. Que orgulho tenho de você. ::
Era uma voz sobreposta, masculino e feminino unidos em um, tornando impossível supor de quem era ao certo. O príncipe tinha apenas uma certeza.
"Eu não conheço essa pessoa, ou talvez apenas não me lembre. Mas ela parece me conhecer."
Seu corpo era levemente envelopado por uma substância quente. Aconchegava seu corpo assim como a casca de um ovo protege o feto em desenvolvimento.
"É igual ao que senti quando desmaiei depois da luta. É reconfortante, me faz querer ficar aqui para sempre."
Uma sensação que, pessoalmente, nunca havia sentido em sua vida.
A única comparação que era capaz de fazer se tratava de passagens dos contos heroicos que lia no castelo. Essa segurança era semelhante àquela que os heróis sentiam quando nos braços de seus pais quando retornavam da jornada, ou às vezes nos braços da pessoa amada após resgatá-la do temível dragão.
A diferença era que Vast não tinha família para retornar. Seu pai, o Rei, era tão inanimado quanto uma estátua de pedra. Também não havia pessoa amada para resgatar, somente possíveis traições para revelar.
"Concentração…"
Suspirou longamente, recuperando os sentidos. Tronco, braços, pernas, dedos. Tudo estava ali, tão sensível quanto nunca. Por baixo da pele, músculos. Debaixo dos músculos, seu sistema nervoso. Debaixo dele, seus ossos.
Assim como a logística de um reino, o corpo também era separado por camadas, cada uma com sua função. Sustentação, distribuição, movimentação, proteção.
"E tudo isso está sobre o meu controle."
Com movimentos leves e fluídos, Vast iniciou uma dança inconsciente. A substância gelatinosa que lhe envolvia era dobrada com o máximo de cuidado.
O processo se fazia difícil. Como um dançarino sem roteiro, seus movimentos eram um improviso que, de alguma forma, davam certo. Porém os olhos mais atentos previam a falha eminente.
Tal como nenhum artista consegue criar uma obra do absoluto improviso, a dança de Vast estava destinada a falhar uma vez que a substância se recusasse a seguir seus passos cegos.
Vendo esse esforço, a voz misteriosa se manifestou outra vez.
:: Para chegar a este nível de controle, você verdadeiramente se tornou um homem admirável. ::
Superando as expectativas do príncipe, ela o elogiou ao invés de julgar.
O príncipe era incapaz de imaginar uma figura que, mesmo diante da falha, elogiasse. Era estranho, ao mesmo tempo inspirador.
:: Tu serás o exemplo, a luz; o Rei! ::
:: Tu não conhecerás o medo. ::
Usando as palavras da voz como seu roteiro, o corpo de Vast mudou a abordagem. Ao invés de dominar, começou a absorver a substância. Lenta mas certamente, ela obedeceu.
:: Por isso, não temas. Este corpo é apenas seu. O baluarte da sua vontade. ::
:: Mesmo que seja invadido, jamais cairá de fato, pois nenhum mal pode verdadeiramente corrompê-lo. ::
Ela escorregou por cada um dos poros de sua pele, deslizou por entre os músculos, acariciou seu sistema nervoso e lustrou seus ossos. Ao fim, fazia parte de cada um deles.
Por fim, num tom choroso, a voz tornou-se distante.
:: Você é o meu orgulho. ::
:: Adeus, meu filho. ::
— GAAHR!!?
Vast abriu seus olhos num susto que o fez cair de costas no chão.
Seus braços estavam pálidos como a neve e sem resposta. Só conseguiu levantar quando Russisch apareceu para ajudar.
— Eu estou bem, sinto muito pelo susto.
— Tem certeza? Posso trazer mais sopa de ossos se quiser.
— Está tudo bem, acredite.
De pé, levou alguns minutos até que recuperasse o movimento e a cor da pele. Assim que feito, sua atenção voltou à tigela com sangue ainda sobre a mesa.
"Eu não sei de quem era aquela voz, mas…"
Outra vez estendeu o braço, a palma da mão sobre o espelho carmesim.
Sem comandos em voz alta, o líquido denso reagiu, agindo como as ondas do mar. Em seguida, pequenas colunas se erguera até alcançar a mão do príncipe. Eventualmente, todo o sangue na tigela serpenteava por seu braço como se tivesse vida própria, terminando seu caminho ao entrar pela agulha do Atirador Rubro.
Vast bufou pesadamente, limpando o suor do rosto.
"Exige concentração, mas deve ficar mais fácil quando eu me acostumar. Quem quer que seja aquela voz, pelo visto não possui nenhuma malícia contra mim."
Mesmo que o contrário se revelasse no futuro, confiava que era capaz de superar a adversidade, ainda mais agora com essa nova descoberta.
— Controlar o próprio sangue. Isso… — Os olhos de Russisch brilharam. — Isso me deu uma ideia!!
Tomado por um súbito pique de energia, ele mergulhou na pilha de ferragens e saiu com diversas peças diferentes.
— Por favor, Vast, aguarde até eu finalizar esta criação. Prometo que não irá se arrepender!
Inicialmente assustado com o ânimo do inventor, acabou concordando com a proposta, o que lhe rendeu algum tempo para se acostumar à nova habilidade.
Uma vez que o período da tarde havia começado, Russisch saiu da oficina às pressas para encontrar Vast escondido entre as montanhas de tralhas — nem os ratos se aventuravam por ali.
Com poucas horas de treino ele controlava grandes quantidades de seu sangue como se fossem os braços e pernas. Bolhas carmesins dançavam por seu corpo enquanto assumiam as mais diversas formas. Por um momento ele formou uma coroa simples sobre sua cabeça e deu um pequeno sorriso, desfazendo ambos num susto logo que notou a presença do inventor.
— Pe-Perdão! Como vai o invento?
— Está pronto! Por favor, eu adoraria que testasse.
O que Russisch entregou eram dois bastões da grossura de um cassetete e metade do tamanho de um. Em uma das pontas de cada um havia buracos cujos propósitos foram explicados em seguida.
— Primeiro insira a agulha do Baratão de Sangue nessa entrada e despeje um pouco de sangue, o resto vai acontecer sozinho.
Vast assim o fez, os olhos brilhando em antecipação.
Uma vez que o sangue foi adicionado, este estendeu-se para fora do bastão e se conectou ao outro. O sangue assumiu um aspecto firme como aço e moldou-se na forma de uma corrente, assim criando um nunchaku!
— Essa forma é apenas a padrão — disse Russisch em tom orgulhoso. — É feita para te dar suporte no combate corpo-a-corpo, mas nada te impede de ser criativo. Use como bem desejar.
— Eu não podia pedir coisa melhor. Novamente, eu lhe agradeço do fundo do meu coração.
Após agradecer apropriadamente pelo presente, Vast colocou os pensamentos em ordem.
— Agora eu realmente não possuo mais razões para permanecer em Ormstade. Eu já dormi por dois dias inteiros, preciso seguir minha missão imediatamente antes que meu tempo fique curto demais.
— Oh, eu entendo — Falhou em esconder completamente a tristeza. — Eu ia pedir para ficar mais um tempo, mas parece ser algo importante. Será que eu ainda poderei vê-lo novamente?
— Mas é claro! Farei questão de condecorá-lo com uma medalha oficial do Reino quando retornar para a capital.
Entre risos e avisos, ambos caminharam até os limites do burgo. No fundo, sabiam que esta poderia ser a última vez que iriam conversar, e nenhum dos dois ousou colocar esse pensamento específico em palavras.
Às costas de Russisch, um lugar agora vívido com a certeza de que os vampiros estavam mortos. À frente de Vast, um horizonte seco cujo único destaque era a Torre, imponente, erguendo-se além das nuvens como um pedaço da realidade apagado da existência.
Após se despedir de todos que zelaram por sua segurança, Vast desapareceu da cidade como uma sombra atingida pelo sol. Seu tempo diminuía a cada segundo.
Uma boa distância o separava do próximo objetivo — definido pelo brasão dos Baskerville —, e uma maior ainda se colocava entre sua ignorância e a verdade das coisas.
"Carmilla... Por quê?"
Um vampiro ou Amaldiçoada. Independente da resposta, o que mais atormentava o príncipe eram as intenções daquela mulher.
Para aparecer, quase explodir seus olhos e em seguida entregar informações sobre vampiros como se não fosse nada, ela era insana ou tão poderosa que nem a alta casta do mundo poderia controlá-la. Em ambos casos, uma existência temível que era melhor quanto mais longe estivesse.
"Por quê...?" As batidas do coração vacilaram num instante, obrigando-o a parar a corrida bruscamente.
A freada digna de um carro derrapando levantou uma massa de terra, o suficiente para que parasse de vez e posasse dramaticamente na direção de Ormstade.
A mansão, onde viu aquela figura pela última vez, se destacava mesmo que distante. Uma cena familiar. Desta vez não havia uma empregada na varanda acenando em sua direção.
Porém, a base que sustentava o coração de Vast estava tão sólida quanto nunca.
"Vamos conversar depois, Carmilla."
Poderia nem sequer ouvir falar da mulher novamente, quem sabe até ela fosse outra alucinação. Ainda assim, algo lhe fazia acreditar que o momento chegaria.
Tump! E certamente não era agora.
Tump! Os passos pesados e meio abafados logo atrás indicavam presença do inimigo.
Roawr! Um bem incomum, pelo rugido.
Vast se virou sem pressa. Diante de si, uma massa de gordura que se colocou sobre duas patas para atingir intimidantes três metros de altura.
— Um urso pardo? Eis algo que não se vê todo dia. Chegou na melhor hora possível, eu não quero gastar energia quando posso ser atacado por vampiros a qualquer momento.
Ele mirou com o Atirador Rubro. Dois disparos, um arrancou a orelha esquerda do animal, enquanto o outro tornou-se numa corda que Vast tomou em mãos.
O animal se preparou para fugir na mesma hora, mas já era tarde. O príncipe segurou-o por uma das patas e o encarou nos olhos.
— Muito bem... — Esticou a corda. Um som de chibata. — Fique de quatro.
Ur!? Por mais que quisesse recusar, ele não teve direito de escolha.
Vast montou nas costas do urso. Com certeza estava longe de ser algo como um cavalo branco, mas em muito lhe faltava qualquer intenção de surpreender alguma dama além de Emilia.
"Certo, melhor me apressar antes que mais complicações apareçam."
Vast puxou as rédeas e, num poderoso rugido, o urso disparou em direção ao próximo destino como a grande almôndega que era.
Seguindo em linha reta e a apenas um dia de viagem ininterrupta, chegaria na Mansão Baskerville.
Quanto mais rápido fosse, maiores seriam as chances de evitar inimigos e mais facilmente recuperaria o tempo perdido.
Faltam 15 dias até a morte súbita.
