Montado no urso-pardo, Vast seguiu para o próximo e possivelmente último destino: a Mansão Baskerville.
O animal era um pouco mais lento do que se fosse correndo, porém o momento pedia que conservasse sua energia. Confiando em Carmilla, os vampiros sabiam de seu avanço, o que tornava difícil sua intenção inicial de ser o mais discreto possível.
“Ainda não tenho certeza de quem era aquela voz, mas…”
“Talvez eu seja o Escolhido!”
A sequência de eventos recentes davam várias possibilidades, esta era apenas uma delas.
Era tudo igual aos contos de fadas que lia. O herói se aventurava por terras desconhecidas, enfrentava inimigos que pareciam impossíveis de derrotar, despertava poderes inéditos e partia para matar o grande dragão em seu cavalo branco.
Ursos contam como cavalaria, certo?
De qualquer forma, esse pensamento era água para Vast. Um sustento que o fazia avançar de cabeça erguida e, pela primeira vez, esbanjando a confiança de um clássico príncipe herdeiro.
“Se eu sou o Escolhido, não há nada que possa me parar! Eu salvarei todos meus súditos do perigo iminente!”
Em algumas horas de corrida, o urso-pardo enfim colapsou. Seu corpo deslizou por alguns metros e, quando prestes a parar, Vast desceu e prosseguiu caminhando após agradecer ao animal pela ajuda.
Poucos quilômetros ainda o separavam da mansão, e o local mais próximo no momento se tratava de um pequeno vilarejo que, querendo ou não, era parte do território Baskerville.
Visto que eles estão atualmente sob suspeita de conluio com vampiros, era mais que necessário conferir como estavam aqueles em sua jurisdição.
Vast caminhou até a beira de um penhasco onde poderia observar as casas de cima. Uma vez na beirada, sua atenção passeou pela área antes de uma pergunta inesperada vir à mente.
“Onde estão as casas?”
Sem residências nem pessoas, a área onde existia uma comunidade dava lugar a um acumulado estranho. Cinco grandes pilhas de materiais diversos ocupavam a área. Vistas de cima, destacavam uma larga área circular atualmente vazia.
Um cenário estranho e extremamente suspeito.
"Grandes chances de ser algum tipo de armadilha, é melhor me aproximar com cautela."
Bump!
Um baque em suas costas levou a uma queda inevitável. Vast encarou por cima do ombro, mas não havia ninguém ali.
Manteve a calma mesmo em queda livre. Mirou o Atirador Rubro nas rochas acima e disparou, uma corda rubra se estendeu e a ponta, uma vez presa nas rochas, criou uma corda elástica e resistente que diminuiu sua velocidade.
Uma vez com os pés no chão, a primeira ação foi preparar o nunchaku.
“Ele é invisível. Se nenhuma aura foi revelada, deve ser um Amaldiçoado.”
O chão seco cheio de poeira e a ausência de vento seriam um grande auxílio. Os passos revelados por pequenos detalhes. Longe de ser fácil na prática.
TUMPH!
Um golpe forte lhe atingiu no estômago.
Vast balançou o nunchaku à frente, a corrente de sangue se estendendo e desferindo um longo golpe horizontal. Nada foi atingido.
Recuperando a arma e deixando um dos bastões debaixo do braço, Vast começou a recuar sem perceber.
Seus passos curtos contrastados pelo olhos velozes, captando movimentos mínimos enquanto os ouvidos se concentravam no som da menor nuvem de poeira a se erguer.
Outros golpes alcançaram seu corpo entre intervalos aleatórios. Golpes nas pernas, no torso, braços e poucos no rosto.
Cada um era rebatido com o balançar violento do nunchaku. Em alguns momentos o impacto aconteceu, mas o oponente ainda foi capaz de manter o disfarce.
Sem nem perceber, Vast foi forçado ao centro do círculo marcado pelas pilhas de destroços. A sequência de ataques cessou neste breve momento, apenas para retornar acompanhada.
Um súbito tremor corrompeu a arena por um segundo, cada uma das cinco pilhas lançadas ao ar por curtas e potentes explosões, revelando círculos ritualísticos estranhos ao príncipe.
Mesmo ocupado demais esquivando dos destroços em queda livre, permaneceu atento à qualquer aproximação suspeita do inimigo invisível. Sua preocupação mostrou desnecessária em seguida.
Atingido na cabeça por um bloco de madeira, a figura de um rapaz desnorteado se revelou para em seguida ter o corpo atravessado por barras de metal. Golpes certeiros que o mataram na hora, e o ritual reagiu sem demora.
Cada círculo cuspiu largas correntes de aço negro, prendendo as pernas, braços e o pescoço de Vast. Uma armadilha feita especificamente para si.
A diferença sua para um animal foi que ele observou com olhar calmo a situação em que foi posto. Eventualmente, uma voz a misturar confusão e arrogância alcançou seus ouvidos.
— Por que não tenta escapar? Por acaso pretendia se entregar desde o início?
Era um rapaz mais ou menos da sua idade. O rosto não lhe era familiar, ao contrário do brasão em sua roupa.
— Baskerville — murmurou Vast. — Na verdade eu estava esperando que aparecesse. Espero que tenha uma boa explicação para tudo isso, ou sua família estará em grandes problemas.
— Hmph! Me parece que você ainda não entendeu. Permita-me lhe mostrar!
Num estalar de seus dedos, a terra seca dentro da área do círculo maior assumiu um tom avermelhado e começou a se mover como um redemoinho, convergindo num funil aos pés de Vast. Aos poucos, o som característico de rosnados caninos ecoaram pela área, cada vez mais altos e próximos.
— Como deve imaginar, esta é a minha Maldição. O que achou?
Vast analisou as correntes sobre seu corpo, seu olhar também passeando pelos arredores antes de finalmente focar no rapaz adiante.
— Passa bem a sensação do que sua família fez para Von Legurn. O que lhe ofereceram para chegar ao ponto de tentar afundar o reino inteiro?
— Eu até gostaria de contar, quem sabe aprendesse um pouco sobre a logística de um reino, mas não vou falar.
— Entendo, não lhe deram permissão para falar, imagino.
— Tsc! Veja como fala! Esqueceu que é você quem está…
— Silêncio!
— …?!
O rosto do rapaz se contorceu em raiva. Quis avançar e afundar o punho no rosto de seu prisioneiro, mas permaneceu parado.
Apesar do príncipe estar acorrentado, seus pés estavam presos ao chão por forças invisíveis.
Vast notou esse detalhe quase imperceptível. A fúria no semblante do rapaz comparada ao tremor das pernas ansiosas para avançar porém travadas no lugar. O curto sorriso foi inevitável.
— Serei direto sobre uma coisa: essas correntes não podem me segurar. Posso me soltar quando eu quiser.
— Hoho! Muito bem, vá em frente e…
— Silêncio, eu estou falando.
— Huh…!?
— Eu não vou perguntar seu nome; não quero saber o seu nome. Farei apenas uma pergunta e espero uma resposta sincera…
A corrente em seu pescoço ameaçou partir quando ergueu a cabeça, suas pupilas escuras fixas no rapaz como os olhos do abismo a encarar de volta o observador curioso.
— A Família Baskerville está atuando em conjunto com Vampiros? Sendo mais específico, com o Verdadeiro Sol?
A perna sofreu um curto espasmo na tentativa de dar um passo para trás, outra vez impedida. Os gritos de instinto suprimindo os sussurros da consciência.
Após pouco ponderar e recuperando a postura no processo, o sorriso zombeteiro acompanhou suas últimas palavras.
— Unidos ou não, o resultado vai ser o mesmo. A dinastia do Rei Vast Los acaba aqui para a Era dos Baskerville começar! Você pode olhar do outro mundo e aprender um pouco, quem sabe finalmente descobre como comandar um reino do jeito certo!
Vast fechou os olhos, suspirando devagar.
A área tomada por um pesado silêncio.
— Tem mais alguma coisa que queira dizer?
O rapaz tombou a cabeça em confusão, seus lábios curvando num arco torto.
— Sua cabeça parece bem fora de lugar pra um príncipe. Eu vou te matar agora, não consegue entender nem isso?
O curto som de sangue borbulhando ecoou.
— Muito bem. Eu nunca ouvi esse tipo de últimas palavras antes, mas quem sou eu para julgar.
Sangue espirrou do Atirador Rubro e cobriu seus pulsos, expandindo de forma que as correntes quebraram como se fossem de vidro.
Tump!
Ao invés de correr, gritar ou questionar, a única reação que o rapaz teve foi cair de joelhos.
— Mi-Minha Maldição…
Vendo o príncipe partir as correntes restantes com as mãos nuas, a mentira que acariciou seus ouvidos alguns dias atrás ficou óbvia.
— Aquele maldito! E-Ele me disse que a Maldição era forte!
No instante seguinte, as dezenas de metros foram cobertas por Vast num piscar de olhos. Tal como a morte, era extremamente pontual. Em mãos, a única ferramenta necessária para seu trabalho.
O Atirador Rubro foi mirado contra a testa do homem.
— E-Espera!!
Zish!
Um súbito raspar feriu o ar, tão rápido e discreto que o cérebro do homem demorou a processar sua nova condição. Atravessado de um lado ao outro pelo disparo de sangue, desligou, levando o corpo isento de vida consigo para o chão.
Vast permaneceu inexpressivo o processo inteiro, e da mesma forma encarou uma certa direção.
— Hiirk?!
Um terceiro indivíduo escondido à distância cambaleou para trás ao ser alvo dos olhos negros. Sem o auxílio das próprias pernas, foi alcançado com um simples caminhada.
— Po-Por favor, me poupe! Eu sou apenas um mensageiro!
Vast buscou por provas, facilmente encontrando a denúncia de sua maior mentira bordada nas roupas que usava. O brasão da Família Baskerville.
— Seus serviços não são mais necessários.
Disparou sem dar chance para mais palavras. O corpo deste terceiro homem deitou também sem vida, enfim entregando o verdadeiro silêncio para o lugar.
Sozinho, o príncipe até então imóvel e imparável como uma estátua viva, se permitiu suspirar. O corpo relaxou junto do olhar, este que passeou brevemente sobre os dois cadáveres em campo.
“O que eles ganhariam com tudo isso?”
Mesmo que seu coração sentisse raiva dos Baskerville e sua mente já tivesse tomado a decisão sobre o destino final dessa família, uma pequena parte de sua alma ainda queria cavar mais fundo até a origem do problema.
A este ponto era óbvio que eles estavam envolvidos com vampiros, sendo apenas incerto se era aquele intitulado de Verdadeiro Sol.
Eles faziam parte da facção rival, apoiando a ideia de que a humanidade deveria tentar fazer as pazes com os vampiros e viver em harmonia com eles.
“Eles falam como se nunca tivéssemos tentado isso antes…”
Registros das várias tentativas de conciliação passaram pela mente do príncipe num único flash, todas com o mesmo desenvolvimento.
Primeiro, o reino era dividido em duas facções. Uma apoiava o acordo de paz e outra não.
Segundo, as facções entravam em conflito direto, resultando em baixas imprescindíveis para o reinado.
Terceiro, o Rei e a Rainha eram destronados, muitas vezes mortos, e novos eram coroados.
Por fim, o ciclo se repetia.
Esta era a história de todos os outros reinos que vieram antes Von Legurn, governado atualmente por Vast Los.
Todas essas informações só vieram ao conhecimento de Vast graças aos livros que leu na mansão de Vincent.
“Sempre achei coincidência demais para ser verdade.”
As peças lentamente se encaixavam no quebra-cabeça. Porém, peças chaves ainda faltavam para completá-lo.
A mesma pessoa estava por trás das conspirações todas as vezes? Se sim, por que repetir o processo sem uma recompensa a ganhar? E por que especificamente no Oeste de La Serva?
Eram perguntas demais, tanto que até Vast, sendo ele mesmo, decidiu esquecer essas dores de cabeça no momento para descansar a mente dos últimos eventos.
“Que idiota eu sou.”
O Herói Escolhido.
Esse título, antes um ponto seguro para suas incertezas, tornou-se num emaranhado de espinhos a apertar seu cérebro. Apenas lembrar que repetia isso como se fosse para si causava a vontade de usar o Atirador Rubro na própria cabeça. Seria uma saída fácil, mas sua alma jamais descansaria em paz se o fizesse.
Ao seu redor estava a marca física de sua falha.
Cerca de quarenta pessoas moravam neste vilarejo. Eram poucas se comparado ao total do reino, mas ainda eram súditos de Von Legurn.
Súditos que Vast falhou em proteger.
Para alguém cujo único dever era exatamente proteger os outros, falhar na tarefa era o mesmo que falhar em seu propósito de vida. Que razões ele tinha para continuar vivendo se nem o mínimo era capaz de fazer? Como poderia sequer se chamar de príncipe?
Fechou os olhos esperando palavras de conforto, mas Emilia não estava aqui.
Pelo menos o silêncio, apesar de afiado, o permitia colocar os pensamentos em ordem.
— Dormindo em pé. Isso é alguma técnica da realeza, por acaso?
Não dando ao príncipe mais gosto de uma solidão merecida, outra figura surgiu sem explicação.
Vestida como um jogador de futebol e fazendo embaixadinhas com uma bola de estampa xadrez, ele sorriu animado na direção do príncipe. Sua identidade revelada pelas letras a pairar acima de sua cabeça.
Vampiro Descendente
Força 34/100
Agilidade 12/100
Inteligência 47/100
Em La Serva, um vilarejo pode estar inteiro em uma noite para, na manhã seguinte, desaparecer em uma pilha de cinzas e sangue. Essa era uma lei não dita, mas certamente conhecida por todos, e da mesma forma que uma comunidade inteira, ambições e crenças também podem sofrer com uma destruição súbita.
