Com os braços abertos e um sorriso agradável no rosto, Eduardo teve seu momento de concentração — banho de sol — interrompido por uma voz levemente preocupada.
— Mestre, vai mesmo deixar as coisas continuarem assim?
— Hã? Que tipo de pergunta é essa?
Virando com o rosto cansado, encontrou um humano com as mãos para trás e o semblante de um cachorro temeroso. Ele era um dos membros da família com quem havia feito uma parceria para destruir o sistema atual de Von Legurn.
Eduardo adoraria apenas invadir o castelo e simplesmente eliminar o rei e todos os relacionados à família real em uma chacina desenfreada, era o jeito mais fácil e eficiente para alcançar seu objetivo principal. Infelizmente, forças maiores o impediam de agir como bem entendia — mesmo que o Oeste fosse, no papel, a região sob seu comando.
Esquemas políticos eram uma perda de tempo em sua opinião, tanto é que sequer lembrava o nome da família com quem estava trabalhando. Suas vidas eram descartáveis como as dos vampiros de baixo escalão que lhe seguiam sem pensar.
Com a cara de pidão, o rapaz se corrigiu:
— Perdão, mestre, falo sobre a situação do príncipe Vast Los Filho. Não devíamos tomar uma medida para garantir que ele morra?
Paralisado por alguns segundos, o vampiro de repente quebrou numa longa risada.
— HAHAHAHAHAHAHAHAHAHA!!
O rapaz mirou de canto seus companheiros, outras duas pessoas mais atrás. Ambos fizeram que sim com a cabeça, uma forma de incentivar o outro a continuar. Era fácil uma vez que não estavam diretamente envolvidos na discussão.
Mesmo que Eduardo estivesse rindo ao ponto de rasgar a própria garganta, ainda era a risada de um Vampiro Original.
— Você não prestou atenção no discurso que eu dei para o príncipe naquele dia? Ah, espera, eu já sei! Seu ouvido deve estar cheio de cera e você deve estar surdo. Eu te ajudo com isso.
— O quê?! Nã-Não, mestre, não precisa…!
Os pedidos desesperados foram interrompidos pelos dois dedos indicadores do vampiro. Cada um afundou nos ouvidos do humano num ataque súbito e brutal, estourando barreiras que não deveriam sequer ser tocadas.
As duas pessoas que acompanhavam deram alguns passos para trás, enquanto o colega que recebia a carinhosa limpeza de ouvido conseguiu apenas enrijecer o corpo. Os olhos ameaçavam saltar das órbitas, empurradas de dentro pelas unhas afiadas de Eduardo, seus dedos rastejando pela superfície de seu crânio em busca de uma passagem até o cérebro.
— Eu deixei ele naquele poço exatamente para ver o que acontecia. Se ele morrer lá dentro, eu não ligo. Se ele sair de lá forte o bastante pra me matar, eu TAMBÉM não ligo! Deixar ele lá para ver o que acontece é exatamente o propósito dos meus testes! Qual a dificuldade em entender isso? Alguns humanos são inteligentes, mas às vezes alguns são tão burros quanto merda. Vampiros também são assim, mas olha, vocês me surpreendem… Oh!
Quando se deu conta da realidade, Eduardo viu que erguia o corpo mole do humano no ar. Os músculos relaxados e o olhar já isento de qualquer centelha de vida.
— Bem, que pena. Outro acidente de trabalho.
Ele tirou os dedos dos ouvidos do rapaz e seu corpo foi abandonado no chão numa pose torta. Nenhum dos dois que o acompanhavam tiveram a coragem de recolhê-lo. Viraria ração de vampiros que vagassem por ali mais tarde.
— Se não tiverem mais nada para avisar, eu gostaria de ficar sozinho.
— Si-Sim, mestre!
Os humanos restantes dispararam para longe, restando apenas uma nuvem de poeira.
Encarando o céu nublado e imaginando a paisagem escondida além dele, Eduardo sorriu ansioso.
— Já faz um bom tempo. Me pergunto se ele está perto do limite.
Enquanto isso, dentro das paredes do poço, um grupo que se formou logo no início desse massacre via sua maior preocupação tomar uma forma cada vez mais sólida.
Vast estava lutando incessantemente há 7 dias inteiros.
O que antes era uma arena havia se tornado num ponto de descarte de corpos. Uma vez que os cadáveres de vampiros se tornavam névoa segundos após a morte, os corpos que se amontoavam eram todos de humanos e Amaldiçoados. O chão de areia deixou de ser visível há um bom tempo.
No início, ondas infinitas saltaram na arena para enfrentar a presa encurralada, cada um com seu próprio objetivo. Todos encontraram o mesmo destino até agora.
O que era para ser a chance de se livrar do maior empecilho no caminho tornou-se num massacre unilateral. Agora, aqueles que mais se sentiam prejudicados se reuniam para discutir a solução do problema.
— Isso já está saindo do controle, precisamos de uma medida que coloque um fim nisso antes que seja tarde demais.
— Aquele vampiro é louco. Ele não sabe medir consequências direito!
— Nos unir a ele talvez tenha sido uma má ideia, mas é tarde demais para ficar lamentando agora.
Todos viam o mesmo problema. A razão da dor de cabeça que os atormentava estava bem diante de seus olhos, sendo alimentada e crescendo mais e mais a cada segundo que se passava. Comparado à punição que receberiam por desobediência, deixar essa ameaça se desenvolver mais era algo muito pior.
— Não podemos mais ficar parados pensando em estratégias, a situação já passou do ponto onde planejamento vai resolver. Vamos atacar todos juntos e com força total!
As palavras de um homem mais velho irritaram um membro mais jovem da família.
— Nó-Nós? Mandamos alguns dos melhores lutadores da família e eles foram feitos de pano de chão! Eu tenho uma Maldição mas sou só um tesoureiro, o que acha que vai acontecer comigo?! Se quer tanto assim resolver o problema, faça com as próprias mãos!
Incomodado com a atitude do rapaz, o mais velho o agarrou pelo pescoço e o arrastou na direção da fissura na parede.
— Foi ideia da sua geração mais nova a união com aquele vampiro, agora lide com as consequências!
Sem piedade, ele arremessou o júnior na arena. Apesar de ter a queda amortecida pela pilha de corpos, o pavor presente em sua existência atraiu de imediato a atenção do leão solitário que aguardava com extrema paciência. O ataque isento de qualquer misericórdia aos fracos.
O sangue espirrou antes que o grito ecoasse, sua cabeça rolando pela pilha de carne e se perdendo em meio a várias outras. Foi uma oportunidade que os expectadores tiveram de analisar com quem estavam lidando.
As roupas nobres foram desgastadas ao limite, ao ponto que se tornaram trapos ao invés de roupas. A criatura que as usava para cobrir apenas as partes íntimas exibia com orgulho, certa zombaria, as cicatrizes que construiu através das sessões infernais de guerra. Seu corpo há muito deixou de ser humano, era a única explicação para ainda estar de pé mesmo com tantos ferimentos. A maior parte de seu esforço foi dedicada ao objetivo de não perder nenhum membro, o qual foi mantido com sucesso até o presente momento.
Seus olhos eram o mais assustador. O preto obsidiana característico tornou-se profundo a um ponto em que ser alvo deles poderia mergulhar uma pessoa em desespero. Uma vez que eles caíssem sobre o alvo, este sabia que não havia mais como escapar com vida. Era um profundo abismo que atacava ao invés de apenas encarar de volta.
— Uugh!!
Todos saltaram para trás quando a criatura os encarou.
— O-O que fazemos? Não temos mais a força de poucos dias atrás, e se ele sair de lá… — A mente do mais velho oscilou. — Se ele sair de lá…!!
— Aff! Fazer o que, né. Eu vou lá, já que todos vocês são inúteis assim.
A jovem voz zombeteira atraiu a atenção de vários pares de olhos, alguns deles ameaçando ceder para as espirais da loucura.
— Diego…?! Tem certeza do que está falando? Por acaso está vendo a mesma arena que nós?
— E por acaso algum de vocês quer ir no meu lugar?
Todos os anciões da família se calaram, obrigados a engolir a risada curta que veio do rapaz.
— É verdade que foi a minha geração quem decidiu se unir àquele vampiro, mas e daí? Os esquemas da família estavam prestes a ser expostos, a parceria com Eduardo era o último recurso que tínhamos para pelo menos atrasar um pouco o destino inevitável. Se eu lutar agora e for derrotado, seria a mesma coisa que apenas ficar parado, então vou pelo menos fazer alguma coisa ao invés de ficar reclamando.
Os velhos rangeram os dentes com as provocações do mais novo, cujo levou sua atenção para um canto escuro da sala. De canto de olho, observou uma figura enigmática encostada contra a parede e analisando a situação com cuidado.
Ele era seu avô e o atual líder da Família Baskerville.
Os anciões, seus tios e primos, todos enxergavam apenas o momento atual. Tolos. Como pessoas com tamanha incapacidade em pensar no futuro se tornaram cabeças da família? Provavelmente era uma das razões do esquema que armaram ter sido identificado tão rápido ante de realizarem o contrato com Eduardo.
Claro, "contrato" era apenas modo de falar. Sendo um Vampiro Original, ele poderia facilmente exterminar a família inteira caso assim desejasse. Se fosse colocar em termos mais corretos, o que os Baskerville fizeram foi o mesmo que vender a si mesmos como escravos. Era isso ou ceder às investigações e serem executados pelo reino.
"À primeira vista realmente parece suicídio enfrentar aquela coisa, mas esperar demais também vai resultar em morte. Se eu conseguir dar um fim nessa ameaça, no entanto, meus lucros serão imensos!"
Se provasse seu valor agora, ainda mais depois da vergonha que os mais velhos estavam passando, tinha certeza de que o avô lhe recompensaria grandemente não só pela coragem, mas também por encontrar a saída numa beco que estava selado por todos os lados.
Tal confiança tinha, obviamente, uma base para se apoiar além de mero orgulho.
"A força do inimigo é aterrorizante, mas o que mais ele possui além disso? O ganhador de uma luta é decidido por muito mais que mera força!"
Pensando na interação entre sua Maldição e a de seu inimigo, Diego colocou um sorriso confiante antes de ir até a fissura na parede.
— É bom torcerem por mim se quiserem viver mais um dia. Essa jaula não é mais capaz de segurar esse experimento maluco por mais tempo.
Ouvindo os anciões engolirem em seco, ele pulou para a arena.
Alguns vampiros haviam pulado antes de si, o último deles tendo a cabeça pisoteada assim que Diego pôs os pés no chão.
Aproveitando essa pequena distração, ele setou a arena ao seu privilégio. Arremessou quatro bastões de cobre, cada um se prendendo numa extremidade alta das paredes do poço. O efeito seguinte se fez na forma de fortes correntes elétricas partindo dos bastões, elas convergiram no centro e formaram a imagem de um olho que teve sua atenção imediatamente atraída pela fera banhada em sangue.
"Com isso as minhas chances deixam de ser zero." Diego comemorou internamente, sacando uma adaga curta da cintura.
Uma vez que a atenção da criatura finalmente caiu sobre si, a preparação contra um avanço feroz se mostrou totalmente inútil. Ecoando pela primeira vez em dias, a voz de seu oponente foi certeira.
— Diego Baskerville. Já nos vimos antes, não é? Na terceira reunião sobre o aumento no número de vampiros, se não me engano.
Atordoado pela fala súbita, o rapaz se viu perder o equilíbrio por um momento. Quase escorregou de cara nos corpos de seus companheiros.
— Essa é uma memória impressionante, meu príncipe. Uma pena que não fez bom uso dela enquanto tinha a chance.
Numa luta, raiva era uma faca de dois gumes. Ao mesmo tempo que poderia tornar o oponente numa besta previsível, também carregava o risco de fazer essa mesma besta desferir ataques com força tão avassaladora que levaria toda intenção inicial para o lixo. Era uma tática a ser exercida com extremo cuidado.
"A maldição do príncipe é focada em força bruta, a minha sorte é que ele aparenta não conseguir usar a manipulação de sangue com força total sem o auxílio daqueles equipamentos. Se eu conseguir mexer nas emoções dele, minhas chances podem aumentar bastante!"
Suas esperanças foram, no entanto, outra vez destruídas pelo seguir de uma voz calma como a de um professor.
— De fato, eu falhei em usar minhas próprias habilidades no passado. Hoje eu estou pagando o preço por essa insolência. — Vast se virou, todo seu foco agora no rapaz. — E você, está preparado para pagar o preço dos seus atos?
Sentindo o peso do ambiente inteiro triplicar, Diego extinguiu qualquer vestígio de arrogância de seu rosto e se preparou para o combate.
— Sinta-se livre. Isso é, se conseguir me tocar.
A atenção da pouca plateia que restava na arena caiu nos atuais combatentes, um queimava de determinação, o outro estava banhado numa pilha de outras que foram incapazes de parar seu avanço.
