Com os olhos sangrando e o corpo frio como gelo, um único pensamento passava pela mente do príncipe.
"Quem é essa pessoa?"
A voz lhe era desconhecida, mas o contrário não parecia se aplicar visto que ela o chamou pelo apelido de "Príncipe Pobre".
— Você é… o Verdadeiro Sol?
— Hehe, é normal que imagine isso, só que não, eu não sou ele. Mas até que o nome cairia bem, afinal são poucos que conseguem me observar sem explodir de imediato. Nem eu mesma imaginava que minha beleza era tanta.
Vast manteve os olhos fechados para se recuperar da dor e evitar encarar a figura novamente. Era como se sua mente tivesse ficado à beira de observar uma existência que era incapaz de suportar, ferindo o corpo para evitar a própria destruição.
Uma vez que os efeitos curativos da [Mutter] só faziam efeito em terceiros, sua única opção era descobrir quem era a mulher ao mesmo tempo que torcia para que nenhum combate fosse iniciado.
— O que você quer comigo?
A mulher riu curtamente, provavelmente cobrindo a boca com a mão num gesto elegante.
— Você está muito tenso. Pode relaxar, eu não responsável por essa área, então não há motivos para lutarmos.
"Em outras palavras, eu não sou problema dela." Engoliu em seco. — Novamente, o que quer comigo?
Ouviu o som das roupas raspando contra a pele, a inquietação de uma criança que fez algo que não devia. Permaneceu calado, em dúvida até se resmungava em confusão. Logo que tomou coragem para fazer outro questionamento, foi interrompido ao mero abrir de sua boca.
— Aconteceu de eu ficar sabendo da sua presença por aqui e pensei em fazer uma pequena visita. Você não consegue me olhar nos olhos agora, mas em breve esse efeito colateral vai passar e podemos nos encarar o quanto você quiser.
— Colateral? Quer dizer que aplicou alguma habilidade em mim?!
— Sim, você não conseguiu ver antes que seus olhos se enchessem de sangue, imagino. Eu sou uma vampira.
— …!!
O corpo do príncipe, que instantes atrás dava sinais que levantaria para confrontar o oponente, de súbito congelou sobre a cama enquanto de joelhos.
Na realidade, Vast esperava que a mulher negasse ser uma vampira, usando assim a oportunidade para escapar da sala e ainda ter uma justificativa para sua fuga caso a situação se provasse diferente mais tarde. Um plano simples, mas que garantia sua vantagem independente da ação que tomasse.
Porém, o admitir seco da verdade o obrigou a permanecer no lugar.
"Eu não tenho como escapar dela…"
Para simplesmente admitir a verdade dessa forma, ela tinha confiança de que o príncipe era incapaz de reagir. Poderia ser apenas arrogância, mas arriscar um golpe de sorte como uma fuga neste ponto era burrice. Ou seria pego de imediato ou as outras pessoas na mansão sofreriam por suas ações.
Ante seu silêncio, ela voltou a falar.
— Você saiu do castelo, o lugar onde ganhou sua Maldição. Estou apenas curiosa.
Vast fechou os olhos com mais força, capaz de sentir a aproximação.
Ajoelhado na beirada da cama e com as costas na parede, sentiu o colchão afundar um pouco e fios de cabelo roçarem seu rosto, seguido de um aroma perfumado misturado ao fraco porém inconfundível odor de carne fresca.
Arrepio! Os dedos finos e gelados deslizaram de leve por seu pescoço, limpando o suor que escorria numa fuga falha.
Enfim, ela sentou em seu colo e prendeu seu torso com as pernas, usando os ombros do príncipe como apoio para seus cotovelos. Seus sussurros a arranhar os ouvidos.
— Qual é a sensação do Julgamento de 20 Dias? O presságio da morte, saber que seu tempo de vida diminui junto dos segundos que se passam enquanto conversamos.
Com os olhos tão cerrados quanto o próprio cenho em angústia, respondeu devagar.
— Parece… Gulp! Eu sinto como se uma lâmina estivesse lentamente afundando no meu peito, cada vez mais próxima do meu coração.
— E isso é doloroso?
— Eu não diria dor. É mais um peso constante que fica cada vez mais incômodo com o tempo, acho que é uma forma do meu corpo avisar que o tempo está acabando.
Ela riu curtamente, seu sorriso visível mesmo por trás das pálpebras.
— Essa é uma resposta nova. Vocês Amaldiçoados parecem ter uma forte conexão com a "morte". Talvez o mundo os considere como criaturas que já estão mortas, e por isso vocês são indivíduos tão difíceis de matar.
Ela levantou da cama parecendo satisfeita, ao contrário do príncipe que logo perguntou:
— Você… Vampiros também estudam Amaldiçoados?
— Nós também ficamos curiosos sobre muitas coisas — respondeu em tom óbvio. — A diferença é que, ao contrário dos outros, eu posso investigar o quanto eu quiser sem que ninguém me repreenda. É bem libertador, devo dizer.
…Por sinal, eu observei os efeitos do seu sangue em alguns vampiros e realmente parece agir como um tipo de ácido para nós. Não espere que essa tática continue funcionando, em breve todos os vampiros dessa região estarão cientes desse perigo.
— Eu ainda não entendi seu objetivo com tudo isso.
O quarto ficou em silêncio, ao ponto de que a presença da mulher desvaneceu. Por pouco Vast não abriu os olhos para confirmar estar sozinho.
— Pessoalmente não tenho razões para te contar, na verdade é bem possível que soasse decepcionante se você soubesse — disse em falso tom de vergonha. — Mas já que eu falei para outros vampiros sobre o perigo do sangue Amaldiçoado, acho que é justo lhe dar uma pequena dica sobre nós.
O som deu a entender que ela se sentou na cadeira outra vez, aliviando um pouco da tensão em Vast — ainda atento.
— Eu mesma não entendo muito bem o motivo, mas a maior parte dos vampiros são bem ruins em guardar qualquer tipo de segredo. Acho que a única exceção são os Originais, apesar de que recentemente fiquei em dúvidas até sobre eles. — O tom preocupado ao lembrar de um certo alguém. — Mas enfim, extrair informações é bem fácil, na verdade, basta insistir um pouco nas perguntas e eles logo abrem o bico. Talvez consiga mais informações assim.
Com o ar de conversa finalizada, o príncipe teve um curto sobressalto.
— Espera! Mas e o Verdadeiro Sol, então? Ele é um dos Originais? Qual é o objetivo dele na minha região?
— Perdão, meu príncipe, eu não vou responder essas perguntas. — Numa súbita ideia, ela mudou de direção. — Ou talvez eu possa, hehe! Creio que seus olhos já devem ter se acostumado. Tente abri-los. Eu vou lhe contar tudo que quiser se conseguir me encarar nos olhos.
Vast hesitou, ao mesmo tempo que quase o fez. O conflito entre os instintos do corpo e a cautela da mente.
"Eu deveria tentar?"
Ela não o queria morto, pelo menos enquanto fosse obediente. Considerando que ela surgiu no quarto como uma verdadeira aparição, era uma tarefa simples eliminar Vast se este fosse seu desejo. Assumindo que ela era realmente uma vampira e não um Amaldiçoado, era até possível que ela justificasse a morte de Vast como punição por ele ter visto seu rosto.
Sentido ou lógica era a última coisa a ser considerada no pensamento dessas criaturas.
"Quem eu estou tentando enganar, eu não tenho escolha aqui."
Proposta verdadeira ou falsa, no fim das contas era ela com a vantagem e a vida do príncipe na palma de sua mão.
— Certo, eu aceito a oferta.
— He! Dê uma boa olhada, meu príncipe.
Os dedos de Vast afundaram no tecido de sua calça, músculos tensionados prontos para um impacto tremendo de dor.
De uma só vez, ele abriu os olhos e encarou à frente.
O quarto estava vazio.
— Ha~…
O longo suspiro tinha uma confusa mistura de alívio e decepção.
"Será que eu estou ficando louco?"
De início pareciam apenas ilusões projetadas devido aos traumas mais recentes, em especial a figura de Emilia acenando em sua direção quando partir do castelo. Quer dizer que agora havia esta voz desconhecida para o atormentar?
"Mas ela me chamou de 'Príncipe Pobre'. Só os súditos da capital usam esse apelido."
A ideia de ser uma alucinação fazia cada vez mais sentido, quebrada somente pela sensação ainda vívida do toque gélido da mulher em seu corpo.
"Acho que posso deixar essa questão para depois. Pelo menos consegui informações, mesmo que pouca."
Seus olhos pararam de sangrar e a visão estaria normal até a manhã do dia seguinte. Agora, uma nova preocupação.
"Os outros vampiros já estão sabendo sobre meu sangue ser letal, mas isso não vai me afetar tanto. O que preciso descobrir é se toda essa situação está ligada à facção rival ou se são apenas vampiros sendo… bem, vampiros."
Finalmente confortável, ele deitou a cabeça sobre o travesseiro e encarou o teto. Nisso, uma forte premonição que o impediria de dormir direito trouxe uma certeza.
"Quem é você?"
Talhada de forma impecável nas tábuas sobre sua cabeça, um convite para o príncipe.
"Aproveite o festival, majestade!
— com amor, Carmilla."
