18 dias restantes até a morte súbita.
Na manhã seguinte à conversa com Carmilla, Vast passeou por Ormstade enquanto garantia a segurança de seus súditos, esses que terminavam as preparações para o Festival de Carne.
Atualmente fazia uma pausa na caminhada em uma das ruas principais, observando o pouco movimento.
Como esperado, a "carne" em questão foi destruída após um incêndio de origens misteriosas destruir o galpão onde ela estava armazenada.
A maior decepção de Vast neste processo foi descobrir que eram as pessoas do burgo quem organizavam o evento, dessa forma era impossível descobrir quantos vampiros estavam envolvidos em toda a situação.
"Será que eles estão tentando me evitar?"
Ainda tinha algumas dúvidas se acreditava ou não nas palavras de Carmilla, certo de que pelo menos a parte sobre informar outros vampiros sobre sua presença era verdade.
Desde então, nenhum vampiro ou anomalia semelhante ao olho entre as nuvens foi avistado. Restou para o príncipe ficar alerta a qualquer ação suspeita nos arredores.
Com uma investigação rápida feita com ajuda de Russisch, confirmaram que o círculo de entranhas criado ao redor do burgo criou raízes. Literalmente. A carne enterrada se espalhou como as raízes de uma grande árvore, cobrindo uma boa parte do solo abaixo de Ormstade — senão cada centímetro dele.
Juntando isso com os mosquitos que estavam no galpão, Vast e Vincent chegaram à conclusão de que o objetivo do Verdadeiro Sol era um ritual de propósitos até agora desconhecidos.
O mosquitos seriam usados para atacar as pessoas, então o sangue derramado seria absorvido pelas raízes de carne e…
"Não consigo imaginar o que viria depois disso."
Sendo vampiros, podiam estar planejando um plano mirabolante para destruir o mundo ou simplesmente estarem entediados. Em outras palavras, era impossível ter certeza senão pela boca do idealizador do plano.
Agora no meio deste círculo de dúvidas, Vast desmantelou a complexidade da situação num objetivo simples. Era preciso proteger seus súditos a qualquer custo, independente da ameaça.
O Atirador Rubro no braço direito parecia mais uma chaleira conforme o sangue nele armazenado borbulhava em raiva.
Como se atraídos exatamente pelo som da fervura, um som inesperado alcançou os ouvidos do príncipe.
BZZZZ!! PLUSH!!
Pensando ter sido atingido por um carro, Vast mirou o braço esquerdo para encontrar um dos mosquitos gigantes. Em um denso e longo engolir, uma alta quantidade de seu sangue foi puxada e armazenada na bolsa do mosquito.
Vast o arrancou à força e finalizou com um pisão na cabeça. Quase imediatamente, o corpo do mosquito se encheu de pequenos buracos que expeliram um gás grudento cujo cheiro poderia ser sentido a quilômetros.
Agindo rápido, usou o Atirador Rubro para disparar um denso jato de sangue para o alto, que foi visto por Vincent de sua mansão como o aviso para que seguisse o plano.
Com um único comando seu, os serviçais no porão da casa ativaram uma série de alarmes de perigo por toda a Ormstade. Os súditos então seguiram o procedimento padrão, entrando em suas casas e trancando portas e janelas.
Estavam protegidos apenas por enquanto; o bastante para evitar pânico geral num primeiro momento.
Sozinho nas ruas, Vast buscou cobertura num dos becos próximos.
"Por quê? Por que tem mosquitos?"
O zumbido crescente no ambiente levou sua atenção aos céus, onde uma nuvem das criaturas dançava numa sincronia perturbadora.
"Tinha mais que aqueles no galpão? Mas eu investiguei e não encontrei nada!"
Por garantia, tinha pedido que Russisch reunisse outras pessoas para fazer uma terceira conferência nas áreas suspeitas, o que confirmou a ausência de outra concentração de mosquitos.
"Significa que… eles nasceram recentemente! E em outro lugar!"
Ao mesmo tempo, a nuvem de recém-nascidos mudou de direção subitamente, descendo como um furacão prestes a entrar em contato com o chão.
Vendo o perigo se aproximando, Vast trocou de posição. Contornando pelos becos, deu a volta pelo quarteirão e parou na esquina para observar o movimento da massa voadora.
Como os verdadeiros sugadores de sangue que eram, eles rodearam freneticamente o mosquito morto, lutando entre eles pelo pouco sangue que o cadáver tinha em sua bolsa. Por fim, eles desapareceram juntos para dentro do beco como se seguissem um rastro.
"Devem estar seguindo o cheiro."
O gás que o mosquito morto expeliu era semelhante ao de um cadáver, com a diferença que tinha uma angustiante mistura de um gosto adocicado junto do odor de chorume.
Trocando de lugar com velocidade e cautela, Vast organizou suas próximas ações.
Se mais mosquitos surgiram, havia um lugar onde estavam nascendo ou alguém os criando diretamente. Encontrar a origem e destruir a horda era a prioridade.
Mas, antes mesmo disso, precisava despistar os perseguidores. O que não parecia ser muito difícil.
Apesar de seguirem o rastro com extrema precisão, continuavam sendo animais agindo por instinto. Criaturas deste nível seriam incapazes de detectar mesmo a mais simples das armadilhas.
Desta forma, Vast seguiu até uma casa próxima que tinha certeza estar vazia. Passeou por cada um dos cômodos em prol de manter a horda vagando investigando pelo máximo de tempo possível e, parando em um quarto do segundo andar, aguardou sentado sobre uma das janelas abertas.
Em menos de dez minutos, o intenso zumbir ficou mais forte, e tão rápido quanto apareceu o primeiro dos mosquitos no quarto. Este deu um grunhido riscado, machucando os ouvidos do príncipe.
A horda seguiu o som, sedenta, ignorando os rastros pelo resto da casa.
Vast saiu pela janela e a trancou, passando pelo telhado da casa e então fechando a porta da frente, assim capturando os mosquitos.
Logo a horda entenderia que a Vast estava do lado de fora, o que daria mais alguns poucos minutos até a estrutura da casa ceder aos impactos e os libertar.
Esse odor, no entanto, poderia ser usado pelos dois lados.
O cheiro pungente se agarrava aos objetos como cola, sendo fácil mesmo para uma pessoa rastreá-lo. Vast, em adição a isso, seguiu na direção da qual a horda surgiu, e em poucos minutos chegou aos escombros do que era o galpão onde encontrou e queimou a primeira legião de mosquitos.
"Eles vieram daqui?"
Inicialmente confuso, começou a revirar os escombros com pressa, em busca de qualquer pista que desse a entender a origem da nova horda. No ar, o cheiro dos mosquitos foi levemente escondido pelo de carne queimada e metal derretido, o que dificultou um pouco a busca, mas longe de torná-la um fracasso.
Debaixo dos escombros encontrou uma escotilha parcialmente aberta, a súbita presença do cheiro de cadáver confirmando a continuação da trilha.
Sem um único segundo de hesitação, Vast desceu as escadas enferrujadas e acabou nos largos túneis de esgoto de Ormstade. Por ser uma instalação recente, estavam consideravelmente limpos.
"Talvez eu encontre o líder da horda de mosquitos no fim da trilha."
O esperado era um vampiro, quem sabe até o Verdadeiro Sol. Vast respirou fundo — um arrependimento —, a garganta coçando e sua tosse seca ecoando por quilômetros túnel adentro. A concentração do gás dos mosquitos era tanta que este se tornava visível a olho nu.
A horda poderia lhe alcançar a qualquer momento, então correu para chegar ao fim da trilha o mais rápido possível.
Além de seus passos no chão barroso, as paredes do túnel traziam ecos distantes aos seus ouvidos. Lamentos impossíveis de se dizer serem humanos ou não. Vast fez o possível para evitar encontrar seja-lá-o-que espreitava por ali.
Curva atrás de curva, o objetivo deveria estar cada vez mais próximo, porém a realidade era diferente.
"O que isso significa?"
Pela terceira vez seguida, acabou num beco sem saída.
O gás pútrido era visível, sendo impossível se confundir com um caminho que levava ao nada, ou pelo menos era isso que esperava.
Ao contrário de sua teoria, cada centímetro dos esgotos aparentava estar coberto do gás que a este ponto começava a dificultar sua respiração.
"A concentração é igual em todos os lugares… Droga, eu fui descuidado!"
Era impossível que os mosquitos, selvagens como eram, fossem capazes de pensar racionalmente ao ponto de montar uma armadilha. Todos caíram em uma para início de conversa. Desta forma, queria dizer que o indivíduo por trás de tudo esperava que Vast seguisse o rastro.
"O gás está igual em todos os cantos, eu teria que dar sorte para encontrar a rota correta."
Diferente de si, que se guiava somente pelo odor dos mosquitos, estes também rastreavam o sangue do príncipe.
Os zumbidos ecoavam pelos túneis, intensos e cada vez mais próximos. A horda enfurecida ansiando pelo sangue de quem estava no fim da trilha.
"Não tem como eu fugir deles sem saber a rota certa para sair adqui. Seria encurralado fácil."
Ao invés de correr, Vast se pôs a pensar nas alternativas que tinha para escapar da situação. O importante era apenas superar o presente e sair vivo.
Na verdade, já havia uma opção.
O zumbir dos milhares de pares de asas se intensificava, incapazes de tirar a concentração do príncipe.
"Essa situação… É parecida com aquela vez."
Na capital de Von Legurn, quando Vast ainda era uma criança, ele começou a ganhar o apoio dos súditos depois de resolver um problema de ratos que assolava todas as casas. Atualmente o problema fica sobre controle graças aos garis, mas naquele tempo em que eles ainda não existiam, os roedores se espalharam ao ponto que nem a união de todos os súditos foi capaz de diminuir sua quantidade.
Isso é, até o dia em que Vast — sem nenhuma palavra prévia — realizou um esquema onde o ninho principal e mais de 90% da população dos roedores foi exterminada de uma só vez, assim começando a ganhar admiração dos súditos que continua até os dias de hoje.
"O plano daquele dia pode funcionar muito bem aqui, pode até tornar mais fácil chegar na origem dos mosquitos. Mas… será que eu morreria no processo?"
Ponderou por alguns segundos e chegou à conclusão óbvia.
"Nah, eu aguento."
Um sorriso confiante surgiu em seu rosto, ao mesmo tempo, a legião de mosquitos o encontrou. As criaturas se espremiam pelo corredor, cada um tentando ser mais rápido que o outro para ser o primeiro a beber do sangue fresco.
Vast apenas levou uma mão ao bolso e tirou um isqueiro, o mesmo que usou para iniciar o incêndio no galpão.
A horda em nada desacelerou, o bater ensurdecedor de suas asas perdendo para os assobios esfomeados que vinham de suas longas agulhas.
Por fim, o príncipe sorriu na direção das criaturas, se despedindo.
Flick!
O isqueiro aceso foi arremessado na direção da horda. Quando a chama entrou em contato com a massa de gás trazida pelos mosquitos, a última coisa que viram foi um intenso clarão de luz.
Dentro de um pequeno banheiro em algum lugar de Ormstade, uma criatura humanoide a esconder o corpo com um grande cobertor teve um súbito sobressalto.
— O contato foi perdido? Mi-Minhas crianças foram…!!
Logo que se levantou em desespero, o vaso no qual se sentava brilhou num laranja intenso antes de explodir e ascender aos céus.
A criatura foi arremessada por alguns metros. Atordoado, demorou a se levantar, encontrando uma cena inesperada quando o fez.
Do buraco que conectava o sanitário aos esgotos, um homem nu escalou. Vast Los Filho. O príncipe de Von Legurn teve as roupas carbonizadas, capaz ainda — por pura determinação ou insanidade — de escapar com menos da metade do corpo com queimaduras graves. Felizmente, seu rosto estava ileso, tal qual o cabelo ainda firmemente preso num rabo de cavalo.
— O-O quê?! O que diabos é você!?
A criatura se arrastou para trás, aterrorizada com o homem à sua frente.
Surgindo das chamas da mesma forma que veio ao mundo, Vast estendeu a mão à frente e a fechou num punho, o oponente ao seu alcance.
— Enfim lhe encontrei, vampiro maldito!