Com o jogo cada vez mais próximo da conclusão, ambos os lados apresentavam sintomas avançados de cansaço, apesar de darem seu melhor para escondê-lo.
A este ponto, ficou evidente que ambos estavam equiparados em nível de habilidade. Preocupante. Não ter certeza de quem sairia vencedor fez seus corações apertarem em antecipação.
“Tenho que admitir, a memória dele é assustadora”, pensou Alex enquanto analisava o príncipe.
Vast trazer seu passado à tona como se jogasse conversa fora foi algo que jamais poderia prever, servindo-lhe de aviso.
“E pensar que ele não apenas saberia da minha terra natal, ele me conhece pelo apelido daquela época. Príncipe Vast, você é realmente… Tsc!!”
Chacoalhou a cabeça antes que completasse a frase.
Vast notou o incômodo que dominava o vampiro misturado ao seu cansaço, decidido a tirar o máximo proveito mesmo dessa péssima situação.
— O que exatamente aconteceu em Seraton naquele dia? Foi o Verdadeiro Sol, ou seria outro Original?
Uma vez que o burgo ficava na fronteira com o Norte, sua destruição poderia ser resultado de disputa territorial entre vampiros. O fato dos quatro Vampiros Originais possuírem uma densa inimizade entre si era informação conhecida por toda a alta sociedade — especialmente a família real e os líderes de grandes instituições.
Nenhum atacaria o outro diretamente, mas também aproveitariam qualquer oportunidade para se matarem quando conveniente. Para entender esse tipo de relação, seria necessário desvincular a análise da lógica humana.
— Eu vou te poupar de explicações — disse Alex num tom zombeteiro. — Não faz sentido já que um de nós vai estar morto dentro de alguns minutos.
Vast suspirou. — Certo, então me permita trocar o tópico. Foi sua escolha se unir aos vampiros?
Atordoado pela insistência irritante, o vampiro franziu a testa para responder.
— Hufm! Por acaso quer me dar algum discurso melancólico de como eu sou uma vítima ou algo assim? Bem, sinto muito te decepcionar, mas sim! Eu escolhi me unir a eles! E então? Qual o problema com isso? Eu estou errado por me unir ao lado mais forte em ordem de sobreviver? Isso me faz um traidor? Eu não dou a mínima pra nada disso. Eu vim até você para ter uma partida de futebol, e é isso que eu vou ter, queira você ou não!
Após pacientemente aguardar que o vampiro finalizasse, Vast saiu da posição de guarda e assumiu a postura de um príncipe. Resoluto, ele fitou não o inimigo à sua frente, mas o súdito que uma vez existiu antes dele.
— De fato, você é um traidor.
Ouvindo essa resposta seca, Alex deu um sorriso irônico.
— Hahahaha! Eu ouvi bastante sobre a Família Real, mas você superou minhas expectativas. Honestamente, acho que morrer como um traidor é bem mais interessante do que ouvir papo de justiça.
Ao que Vast complementou: — Aplicar a verdadeira justiça é algo que apenas heróis fazem. Como príncipe, meu trabalho é meramente manter a ordem para que a maioria tenha o necessário para sobreviver.
— Pft! Que seja…
O jogo resumiu outra vez, no entanto um fenômeno estranho se instaurou nessa retomada.
Tum! A colisão dos pés dos jogadores contra a bola de estampa xadrez, um verdadeiro tiro de escopeta que ensurdecia até a plateia inexistente. Esse som ecoou repetidas vezes, dessa vez isento da voz subsequente do narrador a anunciar os gols ininterruptos.
Nenhum dos dois conseguia marcar.
Um chute atrás do outro, cada vez mais próximo de pontuar, mas cada nova jogada de ambos os lados sofria uma adaptação imediata pelo outro, travando a partida num ciclo cansativo.
Entre os chutes que já havia parado de contar, Alex tossiu um bocado de sangue e pressionou uma das mãos contra a cabeça. Seus olhos parcialmente tomados por espirais.
Sua mente não suportaria o fardo da própria habilidade por muito mais tempo, porém o aperto em seu peito era algo diferente de preocupação.
"Quem esse maldito pensa que é?"
Ninguém era capaz de permanecer indiferente quando a própria vida estava em jogo.
"Quem exatamente é você?"
E contrariando isso que deveria ser uma regra, estava Vast Los Filho.
Suava tanto que o corpo absorvia o próprio suor para evitar a desidratação, a pele começava a perder cor devido ao uso exacerbado de sangue com o Atirador Rubro, isso sem contar o cansaço e a pressão psicológica. Mesmo assim, sua expressão era indiferente.
"Você acha que é como ele? Besteira! Alguém como você…"
A cada chute, a perna de Alex tremia mais.
"Alguém como você…"
A cada chute, os arrepios subiam mais.
"Alguém…"
A cada chute, ele se lembrava mais.
Claro como o dia, esta foi a forma que Alex definiu aquele indivíduo quando o encontrou pela primeira vez.
Seraton, que até poucos minutos atrás tinha outra de suas partidas contra o time da região Norte, teve seu confronto rotineiro interrompido pela substituição mais inusitada de sua história.
O time do Norte foi varrido para sete palmos debaixo da terra, reduzidos à pilhas de cinzas humanas junto de toda Seraton. Num piscar de olhos, a comunidade com mais de 500 pessoas foi reduzida ao pó.
Restavam apenas onze pessoas, todos jovens. Com as pernas trêmulas, forçavam-se de pé sobre a grama seca do campo de futebol, hesitantes em dar um passo sequer na direção do único jogador adversário.
— Estranho, eu ouvi dizer que vocês eram fortes, então vim conferir. Será que estou no lugar certo?
Ninguém o encarava diretamente, seus olhos derreteriam se o fizessem. Aquele homem era como a encarnação de uma estrela em forma humana que, se não causasse cegueira, levaria à loucura qualquer um que encarasse demais.
— Quero dizer, vocês até que são fortes considerando que são humanos normais. Ainda assim, eu esperava mais.
Suas palavras eram isentas de qualquer sentido, Alex sabia isso mais que qualquer um de seus colegas de campo. Mesmo sem a habilidade de um Amaldiçoado para enxergar a aura do oponente, era fácil dizer que se tratava de um vampiro, quem sabe um dos mais poderosos a existir atualmente.
Comparar a si mesmo um monte de humanos, era o equivalente a uma montanha dizer que uma formiga poderia derrotá-la. Era o argumento mais absurdo que se poderia ouvir, mesmo assim…
“Como eu posso ganhar?”
Alex tinha maiores preocupações que a própria vida.
Por tanto tempo foi um campeão invicto, ao ponto que sua presença em campo era considerada presságio da vitória. Obviamente, ele era quem mais sabia que essa sequência eventualmente chegaria ao fim. Nada durava para sempre, a vida era assim, e estava tudo bem.
“Eu não vou perder, não assim!!”
Não agora; contra ele. Seria isso alguma piada de extremo mau gosto?
A situação foi um massacre desde o início. Os jogadores do lado de Alex caíam um atrás do outro, impedidos de continuar quando suas pernas eram explodidas por ataques invisíveis aos olhos. Eventualmente, apenas ele restava defendendo o gol.
“Eu quero uma batalha justa! Isso… Isso é pedir demais?!”
Esperava que a partida de sua primeira derrota fosse diferente de qualquer outra, mas a humilhação que sentia agora ultrapassava todos os limites toleráveis. Cada chute seu que era defendido, cada gol que levava de volta e dedos que voavam ao tentar defender. Esses fragmentos de seu corpo arrancavam junto sua honra fragilmente construída num jogo, agora, tão idiota.
Antes que percebesse, seu corpo colidiu contra o chão num thump seco. Suas pernas foram reduzidas a pó, o sangue tingindo o solo de vermelho. As mãos se tornaram massas disformes de carne ao tentar defender os chutes do oponente e suas costelas afundaram, algumas perfurando seus órgãos.
Com o rosto afogado na lama rubra, forçou-se a observar a aproximação do oponente. Seus olhos queimaram de imediato, reduzidos a um líquido gelatinoso que escorreu e deixou um vazio ocular ligado diretamente à sua alma, expondo-a ao perigo.
— Ainda vivo? Impressionante. — Num breve murmúrio, decidiu. — A partir de agora você irá me acompanhar.
Um curto som de corte se fez. Cortando seu dedo indicador, o vampiro abriu um buraco no pescoço do rapaz para evitar o processo de forçá-lo a engolir.
Quando acabou, as feridas que segundos atrás o arrastavam para mais perto da morte foram completamente curadas. E mais que apenas isso, uma insurgência de poder causava intenso formigamento.
— O que está esperando? Levante-se! Tenho muita coisa para fazer, pegue o essencial e me siga.
Dizendo isso, ele voltou a andar como se terminasse de incentivar um amigo a se levantar. Compelido a obedecer, Alex se forçou de pé e seguiu aquele homem de perto, nunca o encarando de forma direta. Não queria.
Tecnicamente isso era um empate, certo? Ser absorvido no time inimigo não contava como derrota.
“Eu não perdi! Eu ainda sou invicto!”
Exclamou em seu coração — não pulsava. Sorriu em desdém, sem saber ao certo a quem.
Teve dúvidas se sua mente realmente voltou à realidade. Assim como naquele dia, o placar deixava de ser favorável para Alex.
O Verdadeiro Sol era uma montanha que, brilhante demais para encarar diretamente, parecia pequena à primeira vista, assim surpreendendo os aventureiros com sua verdadeira forma.
Vast era o mesmo, só que ao invés de um brilho, seu pico era oculto por uma densa névoa negra que engolia até o mais destemido dos pássaros que se aproximava.
Alex estava prestes a escorregar na sua segunda escalada.
"Pelo menos você… eu tenho que vencer!!"
Resoluto em seu novo objetivo, faria a voz do narrador ecoar pela primeira vez em algum tempo. Ao invés de chutar a bola imediatamente, a dominou no peito e a deixou no chão, próxima aos seus pés.
Com o ritmo do jogo quebrado, Vast aproveitou a chance de recuperar fôlego ao mesmo tempo que se preparava para qualquer plano que o vampiro bolasse.
"Ainda tem dois jogadores à frente, o que ele provavelmente vai tentar usar de alguma forma, quem sabe para mudar a trajetória na bola no meio do caminho."
Muito simples.
"Ele pode usá-los para dar mais força para os chutes. Os chutes deles já estão quase impossíveis de bloquear, se adicionar mais força, admitir a derrota seria mais seguro."
Muito óbvio.
"Será que ele pode fazer outra coisa além de apenas invocar eles? Não acho que o Punho Fantasma vai fazer outra aparição, ele parece ter desistido de bloquear os meus chutes. Mas usar outra tática quando estamos ambos a quatro pontos de vencer"
Muito tarde.
Fosse uma dessas três possibilidades ou qualquer outra, Vast tinha apenas uma certeza.
"Eu ainda tenho chance de…"
GOOOOOOOOOOOL!!
O grito retumbante do narrador congelou seus ouvidos.
"Mas o quê…?!"
GOOOOOOOOOOOL!!
Outra vez.
"… Kh!! Concentração! O que ele está fazendo??"
Em prol de desvendar a mágica, Vast concentrou tanto sangue em seus olhos que esses ficaram vermelhos como um tomate. Foi obrigado a mover a cabeça, uma vez que o mero tremer de suas pupilas ameaçava explodir sua cabeça inteira.
Pelo menos funcionou como desejava, em certa medida.
Quando a voz do narrador ecoou pela terceira vez seguida, Vast conseguiu enxergar o motivo de seu desespero.
A bola de padrão xadrez passou tão rápido que tornou-se completamente invisível ao olhar comum, sua existência indicada apenas por uma tardia rajada quente de vento que queimava a pele.
Devido essa velocidade, ela atravessava a rede e, em sequência, a rotação que exercia causava uma intensa curva para cima, eventualmente fazendo a bola realizar uma curva no ar para aterrissar de volta nos pés de Alex. Assim, ela o fez pela quarta vez.
O príncipe fitou o painel. O placar a mudar possivelmente pela penúltima vez.
Vast 16 x Alex 19
Após alguns segundos encarando o presságio de sua derrota, Vast voltou a atenção para Alex — ou o que antes era ele.
O vampiro passou por uma transformação sem aviso prévio. Antes semelhante a um humano comum, exceto pela palidez e presas protuberantes, sofreu uma mutação que só poderia defini-lo como uma aberração.
A parte superior de seu corpo estava magra, um verdadeiro esqueleto isento de qualquer vestígio de carne e que apenas vestia um disfarce de pele seca. Em contraste, suas pernas cresceram ao ponto de que cada uma tinha a grossura do tronco de uma grande árvore.
Com as espirais subitamente controladas, ele encarava o príncipe com um olhar resoluto, ciente das consequências de suas ações, essas reveladas através da aura vampírica visível para seu oponente.
Vampiro Descendente
Força 99/100
Agilidade 1/100
Inteligência 20/100
Como dizia o ditado: o mal do louco era achar que não havia ninguém mais louco que ele.
Vast experimentava isso no pior momento possível.
Vendo a monstruosidade que nasceu diante de seus olhos, um único pensamento passou pela mente do príncipe.
“Eu estou condenado.”
