Quanto tempo havia se passado desde o início da luta, nenhum dos dois envolvidos sabia. Concentrados demais em acertar e desviar dos golpes um do outro, a passagem de tempo era marcada pelo crescente cansaço evidenciado no rosto de ambos.
Se houvesse alguém na região para assistir ao embate, esse expectador veria dois feixes a se entrelaçar violentamente. O vermelho era ágil e extremamente volátil, sendo impossível prever o que faria no segundo seguinte. O amarelo era veloz, muito mais sólido quando comparado ao anterior, seguindo em linhas retas e sendo mais rápido que qualquer criatura seria capaz de reagir.
Essa luta cairia facilmente numa situação onde ambos os lados possuíam altas capacidades adaptativas, o que resultaria numa luta de atrito. Porém um dos lados estava claramente se apoiando mais no "poder bruto" que o outro.
— Que pena. Esse é o mais longe que vai chegar?
O expectador solitário sorriu friamente na direção do campo de batalha, curioso com o resultado iminente.
A batalha que até então parecia um show de luzes encontrou uma pausa súbita.
De um lado estava Vast Los Filho, ainda de pé e capaz de manter o sangue circulando pelo corpo ao fechar as feridas com mais sangue.
— Como que ainda tem sangue em você?
A palavra "sangue" já era repetida tantas vezes que começava a perder o sentido.
Eduardo estava fisicamente ileso graças à sua regeneração natural de vampiro, mas o cansaço era tão notável quanto no príncipe, sem contar a pressão psicológica que apenas aumentava para si.
"Esse cara não se cansa?" Sua curiosidade começava a ser substituída por preocupação. "Eu quero ver os limites dele, mas preciso sair dessa vivo pra poder pesquisar depois."
Se fosse derrotado e morto, pelo menos seria fazendo o que ele mais gostava, mas também não significa que morrer era parte de seu plano. Assim como Vast arriscava a própria vida, no fim era tudo pela vitória.
"Aquela barata que dispara sangue e o nunchaku, não tem como prever que tipo de maluquice ele vai fazer com eles quando chega muito perto. Já perdi as contas de quantas vezes ele quase esmagou minha cabeça."
O vampiro sabia que era apenas questão de tempo até um golpe acertar, um que nem sua resistência acima da média iria suportar. Felizmente, a luta até agora também rendeu informação preciosa que podia colocar em uso.
"Apesar da grande variedade de ataques, os de longa distância não apresentam risco à minha vida. É o melhor jeito de eu conseguir tempo para recuperar meu foco e esmagá-lo com força total!"
Ao surgir de um sorriso bestial em seu rosto, uma quantidade imensa de luz concentrou-se na palma de sua mão junto do som do que parecia uma bomba prestes a explodir.
Vast sentiu o perigo e disparou em retirada, capaz de escapar por pouco. Uma explosão de luz cobriu uma larga área, fazendo-o pensar que o vampiro havia tentado um ataque suicida.
Uma vez que a luz se dissipou, Eduardo revelou-se de pé e inteiro, colocando um semblante enigmático no príncipe.
Exceto por uma pequena área suficiente para o vampiro ficar de pé, todo o chão ao redor foi desintegrado, criando uma vala de dez metros de profundidade.
Confuso, a escolha do príncipe foi observar as próximas ações do vampiro para entender suas intenções.
Eduardo prosseguiu, abriu os braços e apontou a palma das mãos para baixo. O brilho que se dividia em igualdade por todo seu corpo concentrou nas extremidades, despejando luz em forma líquida como uma cachoeira.
Vast realizou seguidos disparos com o Atirador Rubro, porém mesmo aqueles que acertavam a cabeça do vampiro eram insuficientes para matar. Era preciso esmagar o cérebro de uma só vez, caso contrário a regeneração atuaria com força total.
Se vendo livre do perigo iminente, Eduardo suspirou.
"Com isso eu posso confirmar, vou ficar seguro enquanto mantê-lo longe."
O príncipe provavelmente já havia percebido que, além dos disparou, mesmo o sangue amaldiçoado que invadia o corpo do vampiro não era suficiente. Isso pois, ao contrário de seus inimigos anteriores, Eduardo usava a manipulação de luz para eliminar o sangue venenoso que invadia seu corpo antes que o efeito escapasse de seu controle.
"Tudo seria mais fácil se eu tivesse contato direto com os raios do sol, mas ainda é manejável. Só preciso ter cuidado e me concentrar em recuperar fôlego antes dele."
Devido ao céu constantemente nublado, sua absorção era diminuída pela metade de seu verdadeiro potencial. Obviamente ele ocultou essa informação de seu oponente.
Em questão de poucos minutos, a imensa vala foi completamente preenchida por luz. Um lago brilhante que cegava só de estar no campo de visão nasceu, e Eduardo não parou por aí. Antes eram apenas mãos, agora figuras humanas completas se esticavam para fora de seu corpo uma atrás da outra, capazes de usar a luz como chão sólido e se erguer como barreira ao redor do vampiro.
Avançavam a passos extremamente lentos, mais focadas em cobrir espaço do que avançar contra Vast.
De uma distância segura, o príncipe analisou a situação e finalmente tomou sua suposição como certeza.
Ao que foi capaz de entender da habilidade do vampiro até agora, consistia em manipular a luz do sol que atingia diretamente sua pele, sendo uma das razões para o traje de surfista que deixava bastante pele à mostra.
Se fosse considerar apenas isso, poderia ter admitido a derrota há muito tempo. O fato de Eduardo ser capaz de manipular a luz do sol significava que ele era imune àquilo que devia ser uma das fraquezas naturais dos vampiros. O sangue amaldiçoado também se mostrou ineficaz desde o início, apesar da razão ser incerta para si. Por fim, o próprio vampiro parece ter percebido que seus ataques à distância eram fracos demais para causar um dano fatal, resultando nessa muralha de luz.
Em seu lugar, qualquer outro Amaldiçoado pensaria estar num beco sem saída. Porém Vast observou um detalhe crucial.
"Ele não consegue manter a luz no corpo." Esse era o cenário mais otimista.
Desde a primeira demonstração dentro do poço, Eduardo evitou manter a luz em seu corpo muito tempo, sempre dissipando-a das mais variadas formas, fosse disfarçando seu gasto na forma de um pequeno teatro de luzes ou diretamente através de ataques incessantes e outros obviamente desnecessários.
Agora a situação diante de seus olhos apenas confirmava sua teoria. Mesmo cercado por um terreno que Vast era incapaz de pisar, a criação de "golens de luz", para melhor referência, era incessante. Aproveitar o isolamento para acumular energia em um golpe poderoso e fatal seria muito mais inteligente, e burro o príncipe tinha certeza que esse vampiro não era.
"Mas o desespero não mede força."
Era hora de usar tudo ao seu favor!
"Primeiro, um teste…"
Com o Atirador Rubro, disparou um jato de sangue na forma de um arpão, atingindo um dos golens mais à frente e puxando seu peixe premiado.
VushVushVush! Girando como um peão, Vast simulou um arremesso de disco com a criatura de luz, a trajetória perfeita na direção de Eduardo no centro do círculo.
— Urgh?!
O susto do vampiro ecoou por toda a paisagem ao passo que ele se contorceu todo para evitar o contato direto com a própria criação.
Pela primeira vez desde o início do conflito, Vast abriu um grande sorriso vermelho e disparou de imediato.
Tap! Tap! Tap! Tap!
Com a visão bloqueada pelos golens, Eduardo foi capaz de apenas ouvir os passos velozes do príncipe. Ele corria ao redor do lago ao mesmo tempo que audíveis disparos do Atirador Rubro alcançavam seus ouvidos entre pequenos intervalos.
"Ele está tentando encontrar uma brecha na sorte?"
Parecia um plano estúpido demais, digno de alguém em desespero, o que o levou a desconsiderar a ideia.
"Ele é astuto demais para perder o controle logo agora. Tem que ter alguma razão por trás disso."
Enquanto queimava neurônios pensando, a velocidade da corrida e a quantidade de disparos aumentava de forma alarmante. Lento mas com certeza, via seus golens sendo manchados por um sangue gelatinoso que se recusava a evaporar mesmo em contato direto com a luz.
"O que diabos esse cara tá aprontando? Eu não tenho visão!"
No fim das contas, a barreira atuou mais contra do que ao seu próprio favor.
Para contornar isso, uma pequena parcela da luz usada para criar infinitos golens foi transferida para sua cabeça. As faíscas brilhantes eventualmente se moldaram na forma de um olho numa posição mais alta, este que pôde ser usado como bode expiatório.
"Ele parou? Por quê?"
Vast estava há uma curta distância da beirada do lago de luz, atento à qualquer ação suspeita dos golens enquanto amarrava uma corda de sangue ao redor do braço.
Sentindo um mal pressentimento, Eduardo estendeu sua visão. O olho de luz disparou para o alto e mirou a arena, capaz agora de vê-la por completo.
A realização foi imediata.
O vampiro desfez os olhos de luz e voou num ímpeto que poderia levá-lo para além das nuvens. Foi um salto reto para cima, visando desviar do ataque iminente.
Foi então que o som de correntes lhe congelou. Com uma extensão quilométrica, Vast usou o nunchaku de chicote e capturou o vampiro em fuga antes de puxá-lo para baixo. Um movimento simples mas brutal que o fez colidir contra o chão na velocidade de um bala de canhão.
Tomado pela onda de urgência, Eduardo se livrou das correntes na força bruta e preparou-se para uma nova tentativa de fuga. Tarde demais.
Todo o sangue que Vast despejou nos golens estava conectado no que, visto de cima, lembrava uma teia de aranha. Com um simples puxão da ponta da corda, as criaturas de luz foram forçadas umas contra as outras e, inevitavelmente, contra o próprio mestre.
Sem chance ou tempo de reagir, Eduardo foi esmagado na onda de humanos brilhante e um denso splosh marcou o momento de sua queda no lago.
Segundos que pareceram horas se passaram, o pesado silêncio quase forçando Vast de joelhos, até que o emergir violento de um ser vivo lhe trouxe uma nova onda de adrenalina.
— URGAAH!
A figura completamente desfigurada do vampiro surgiu das profundezas do lago de luz, atormentada num ciclo de queimar e regenerar. Sua aparência de galã agora reduzida à um cadáver em decomposição avançada, recusando-se a aceitar que estava morto.
"Terra, eu preciso voltar pra terra!!"
Havia considerado apenas uma possibilidade ruim, esquecendo-se de considerar a pior. Agora se arrependia amargamente.
"Ele realmente entendeu minha habilidade tão profundamente, ou será que foi coincidência? Não importa, eu preciso chegar no chão sólido primeiro!"
Vast — ao que tudo indicava — havia entendido sua incapacidade de armazenar luz no corpo. De fato, a [Sonne] permitia que manipulasse a luz do sol que atingia sua pele, porém tentar armazená-la era equivalente a beber veneno, exigindo então que toda a luz absorvida fosse imediatamente dissipada.
Batendo os braços pela luz líquida, Eduardo fez o caminho lento de um nadador profissional indo contra a correnteza do rio da morte.
Mergulhado no lago de luz, toda a energia excessiva penetrava seu corpo e o queimava de dentro para fora. Sua concentração era dedicada em regenerar o corpo e principalmente a cabeça, a qual mantinha fora da luz o máximo possível. Tentar dissipar energia agora resultaria nos danos excedendo sua capacidade de recuperação, levando à derrota.
Em meio às fortes braçadas e os respingos brilhantes que voavam para todos os lados, os murmúrios cadavéricos ecoaram.
Ha… Haha… HAHAHAHA!!
Da garganta que nem existia nesse instante, a risada em absoluto êxtase infestou a área.
"Que capacidade incrível! Ele percebeu perfeitamente como minha habilidade funcionava sem eu sequer falar uma palavra sobre!"
Seu lado de pesquisador tomou conta. Mesmo na pior situação possível, o calor de um novo limite descoberto fez todo seu corpo ser envolvido no agradável calor que sentiu no deserto há décadas atrás.
"Eu preciso ver mais! Eu quero ver mais! Até onde você pode ir… e até onde o seu sacrifício pode me levar!"
Num último impulso, sua mão alcançou a borda da pequena área de terra no centro do lago de luz. Tumph. Um pé protegido por um sapato parcialmente destruído a pisoteou.
Vast o encarava de cima, tendo chegado na pequena plataforma sem que o vampiro se desse conta. Sua única saída já estava ocupada.
O olhar de ambos se encontrou. O par de obsidianas determinadas a devolver o âmbar ancestral para debaixo da terra, onde deveria permanecer.
Eduardo já não sentia mais sua metade inferior, completamente desintegrada, efeito que avançava feroz pelo resto de seu corpo. Seu último esforço foi uma regeneração concentrada nas cordas vocais, e com a voz recuperada, disse num sorriso:
— É um limite inédito. Impressionante!
Vast permaneceu inexpressivo, ergueu o punho e afundou um soco no rosto da criatura. Respingos de luz caíram por todo seu corpo, ignorados como se nem existissem.
A superfície do lago ondulou por alguns segundos, com algumas pequenas bolhas estourando na superfície. Cessaram dentro de alguns segundos.
Em seguida, todo o lago brilhou forte num último suspiro, dissipando-se de uma só vez em pequenos fragmentos de luz que se desfizeram em grãos cada vez menores, eventualmente desaparecendo.
A vala estava vazia e sem um único sinal de Eduardo. Vast, no entanto, cobriu esse espaço no instante seguinte.
Completamente exausto, sua consciência apagou no momento que confirmou a derrota do oponente.
