A Maldição de Diego Baskerville não tinha um nome. O motivo era simples: ele a ganhou fazia apenas alguns dias e lhe faltou tempo para pensar nisso.
O contrato que a família havia feito com Eduardo já durava quase um ano inteiro, mas foi apenas quando as tensões ficaram maiores — e quando os anciões se prostraram diante do vampiro — que alguns membros da família vieram a passar pelo processo de receber uma Maldição.
Uma vez que receber a habilidade era uma questão de sorte, dos quase cem Baskerville que passaram pelo processo, menos de dez ganharam uma Maldição. Os outros ou morreram ou ficaram com sequelas graves. Estes últimos, por sua vez, estavam todos despojados no chão da arena, seus corpos usados como degrau pelo príncipe.
"Eu normalmente não teria chance alguma nessa luta, mas se eu usar minha Maldição ao máximo…"
Após alguns passos curtos, Vast saltou em sua direção, um tigre que mirava por um golpe fatal direto em seu pescoço.
Para a plateia, a ação foi tão rápida que o príncipe havia desaparecido e ressurgido na frente do oponente, a vítima da vez. Seu punho atropelou o pouco espaço até o rosto, pronto para esmagar.
Vush! Raspou na lateral do rosto de Diego, o resultado inusitado emudecendo a plateia.
Empunhando a adaga curta na mão direita, sua lâmina deslizou como uma serpente e as presas rasparam no braço do príncipe antes que esse saltasse para trás num desvio atrasado.
— Ei, ele conseguiu mesmo! Ele feriu o monstro!
Os expectadores gritaram em surpresa, alguns se sentindo motivados a invadir a luta. Recuaram à mera ameaça da criatura em dá-los atenção.
Vast observou sua ferida por um mero segundo, logo deixando de lado para pensar em como faria sua próxima investida. Diego, por sua vez, limpou o suor frio a escorrer por sua testa.
Sua habilidade tinha uma função fácil de explicar: ele era capaz de prever o futuro!
Mas claro, estamos falando de uma Maldição, todas elas possuem um lado negativo.
No caso de Diego, o olho feito de eletricidade que pairava sob a arena o permitia enxergar alguns segundos no futuro, permitindo evitar golpes e planejar ataques antecipadamente. Porém, quanto mais vezes a habilidade fosse usada, mais inevitável o futuro que foi observado se tornaria, fosse ele bom ou ruim para si. Um caminho de vitória ou derrota garantida, era o momento onde ele desejava ser capaz de apostar toda a sorte que tinha acumulada.
"Eu não consigo desviar dos golpes sem usar a habilidade. Tenho que prosseguir com calma e garantir que o futuro não desvie para uma rota ruim!"
Havia observado as batalhas desde o primeiro dia. Privado de comida e água por tanto tempo, o príncipe era incapaz de esconder sua dificuldade em exercer a manipulação de sangue ou até atacar com a mesma força do começo. Dado o tempo necessário, seria possível fazê-lo sangrar até a morte.
Apenas imaginar as recompensas da vitória fez um sorriso torto surgir.
— Que situação lamentável, príncipe Vast, isso não é digno de um Rei.
"Por mais que as ações passadas dessa família me deixem em dúvida, eles não são tão idiotas assim."
Vast estava totalmente ciente deste plano, afinal que outras opções seus oponentes tinham?
Mesmo com o corpo coberto de sangue e feridas, com cada músculo à beira de ceder para a exaustão, ele se sentiu forte. Seria ainda mais preciso dizer que se sentiu imparável. Mesmo que toda a plateia restante se unisse para enfrentá-lo de uma só vez, Vast acreditava que ainda assim seria capaz de vencer.
Pensando isso, ele riu curtamente, imaginando se era esse o orgulho que viciava os vampiros.
— Então me diga, o que você considera ser um "Rei"?
Preparado para um outro ataque, Diego usou o olho do futuro para garantir não se tratar de uma distração. Ainda de guarda alta, respondeu:
— Não era você que deveria saber? Claro que é aquele com maior poder! O Rei está acima de todos! Governando com mão de ferro, é dever dele exercer poder sobre todos e destruir qualquer um que ameace sua autoridade!
Vast por muito pouco conteve um raro riso zombeteiro. Com uma ideia dessas, a união dos Baskerville com Eduardo fez muito mais sentido, ao ponto que um diria ser inevitável.
— É uma interpretação válida, de fato. — Endireitou o corpo, as mãos educadamente postas para trás. — Ainda assim, por mais contraditório que soe, você está errado.
Diego ergueu uma sobrancelha, sequer dado a chance de falar. No momento que sua boca abriu para um insulto vazio, o príncipe continuou:
— Eu serei o próximo a governar Von Legurn, isso eu garanto, porém não da mesma forma que meu pai. Por todos esses anos, sendo capaz apenas de observar meus súditos sem qualquer capacidade de ajudá-los, eu cheguei a uma conclusão.
…Um Rei não é diferente de um Gari.
Como se ofendido diretamente, o semblante do Baskerville faltou virar do avesso.
— Que tipo de lógica ridícula é essa!? Você ousa comparar o dever de um Rei com um trabalho sujo como esse? Perdeu a cabeça?
Inexpressivo como alguém que explicava o óbvio, Vast questionou:
— Por acaso você é cego?
Confuso mais pelo fato de que a pergunta soou genuína, Diego conteve o reflexo de responder para ouvir a explicação.
— Minha cabeça está muito bem presa ao meu corpo, mas não só ela, como todo meu corpo está temperado com mais experiências e aprendizados do que eu poderia contar.
Seu olhar passeou por cada centímetro observável de pele. Não havia mais espaço disponível para as cicatrizes se destacarem, ao ponto que umas se acumulavam acima das outras. Algumas eram decoradas por sangue seco, tornado em casca. Outras ainda o tinham quente, escorrendo pela carne exposta e se misturando ao do príncipe.
— Eu uma vez pensei que ser um Rei era ser um Mestre. Depois, eu pensei que era ser um Herói. Agora, eu digo que não é diferente de um Gari. Chega a ser estranho, afinal eu devia saber a resposta certa por ser um príncipe, não? Agora eu tenho dúvidas até sobre esses outros títulos.
Diego não podia estar menos interessado no assunto. A única coisa que o impedia de avançar e finalizar o príncipe durante o discurso era a incerteza.
Vast estava comprando tempo? Mas para quem? Para o quê? Era uma situação estranha demais para tirar uma conclusão fácil.
"O olho não me diz ao certo o que vai acontecer no futuro próximo. Será que eu devo enxergar um pouco mais além?"
Se o fizesse, os efeitos do inevitável se tornariam ainda mais fortes.
— Mas e então? Quer dizer que você nem sabe o que quer para Von Legurn? O Reino não precisa de alguém tão indeciso.
Vast sorriu em resposta. Um curvar de lábios que não carregava desprezo ou qualquer tipo de sentimento negativo, pelo contrário.
— Eu consegui, sim. Diferente de meu pai, que mesmo com tanto poder em mãos ganhou o título de "o imóvel", eu devo seguir os passos de alguém que contribuiu muito mais ao reino do que seu próprio governante.
Ele finalmente ergueu os braços novamente, os olhos negros cintilando, totalmente focados em Diego.
…Como o único herdeiro do trono de Von Legurn, como próximo líder deste reino. Minha única e maior obrigação, é apenas fazer o meu trabalho da melhor maneira possível.
O rosto de Diego — de todos os Baskerville — se contorceu em desprezo.
— E daí que você entendeu isso? Não muda a situação atual, realmente acha que consegue escapar daqui e ir até o Eduardo? Sua mente foi inundada de ilusões.
— Hã? Perdão, eu acho que não fui tão claro nesse quesito. Eu não estou tentando fugir daqui.
O par de obsidianas ganhou um brilho peculiar. Não era apenas determinação, algo a mais queimava ali. Algo que trazia à superfície o magma que formou aquela rocha negra, revelando o perigo que era contida ali.
Em alto e bom tom, Vast declarou:
— Que isso fique claro… Eu não deixarei ninguém sair daqui com vida.
Trilish!! O olho de eletricidade acima da arena brilhou com grande intensidade. Em contrapartida, os de Diego perderam a pouca vida que ainda tinham. A razão era simples. Ele viu que as palavras do príncipe eram verdadeiras.
"Mas que…!?"
Quanto mais longe e com mais frequência se observa o futuro, mais imutável ele se torna. Para aqueles capazes de prevê-lo, a melhor alternativa para causar a mudança é manipulando o mais forte catalisador daquele futuro.
Se uma criança vai desenvolver diabetes por comer doce demais, o mais eficiente é convencê-la a diminuir a quantidade de alguma forma.
Porém, mesmo que um leão vá morrer intoxicado por caçar uma presa doente, não é possível convencê-lo a comer outra coisa se aquela for a sua vontade. Ele irá caçar; colocar a vida em risco, pois foi isso que ele decidiu.
Diante de Diego Baskerville, havia um leão.
"Eu vi…"
Pelo olho do futuro, o poço havia se enchido de sangue. Apenas um restou de pé. Triunfante no alto da montanha de corpos, ele estendeu seu braço na direção da saída que jamais alcançaria. Mesmo assim, afundou no espelho carmesim com um sorriso satisfeito.
"Eu vi…Eu vi…EuviEuviEuviEuviEuviEuviEuviEuvi!!!"
Em apenas cinco minutos a partir de agora, essa arena deixaria de ser um simples campo de batalha para se tornar um grande túmulo. Aqui, um nome encontraria seu fim.
Diego caiu. As pernas tremeram ao ponto que os ossos quase se partiram sozinhos, incapazes sequer de rastejar.
Essa criatura diante de seus olhos era imparável. Fazê-la traçar um caminho para um futuro que resultasse na vitória dos Baskerville era tão impensável quanto um peixe sobreviver fora d'água.
Foi pego numa rota sem saída. Num futuro inevitável.
Após tamanha perturbação visual, a reação só podia ser uma.
— FIQUE LONGE MIM, SEU MANÍACO!!!
Tinha que sair! O futuro era de daqui três minutos, então uma ação imediata talvez ainda fosse capaz de alterar as coisas.
— ALI! ESTÃO TODOS ALI! A FAMÍLIA BASKERVILLE INTEIRA ESTÁ ALI! PEGUE ELES E ME POUPE, POR FAVOR!!
Sem pressa ou dificuldade, Vast alcançou o corpo mole de Diego, pisando sobre seu peito apenas para garantir que o tinha preso.
Já incapaz de conter uma cachoeira de lágrimas, o garoto que encarava a morte pela primeira vez murmurou entre fortes soluços.
— Isso é o que chama de justiça?
O príncipe fechou o punho, seus dedos descascados, e ergueu acima da cabeça.
— Se existe justiça nesse mundo, definitivamente não sou eu. Eu estou apenas fazendo o meu trabalho.
A última coisa que Diego viu foi a guilhotina descendo contra seu rosto.
…
Dentro das fissuras na parede, os anciões saltaram para trás quando quando Diego parou de se mover.
— Moleque maldito, ele realmente tentou nos vender pra se salvar…! Mestre, temos que sair daqui ago…!? Me-Mestre!!
Quando se viraram para acompanhar o líder da família, encontraram a confirmação de suas quedas. Mais rápido que qualquer um pudesse reagir, o líder usou de uma faca para encerra a própria vida. Seu corpo jazia pálido no chão.
A urgência de repente inundou todo o poço, algumas pessoas afogadas ao ponto que demoraram demais para reagir.
Trunk!
Pela mesma rachadura que os anciões observavam, uma figura entrou. Eles estavam há vários metros do chão, mesmo assim ela havia os alcançado sem fazer um barulho sequer. Ninguém ousou se mover, nem mesmo engolir em seco.
Vendo uma pequena mesa posta com um banquete, Vast caminhou por entre seus inimigos e alcançou os quitutes. Pão, carne, grãos, vinho e várias jarras de água. Tudo foi devorado com uma calma e delicadeza admirável para alguém que foi privado de qualquer nutriente por dias afinco.
Uma vez que a mesa ficou vazia, o príncipe se virou para os homens presentes no cômodo.
— Seria pedir demais para vocês fazerem uma fila?
Na superfície, a poucos metros da entrada do poço, Eduardo usava um pequeno refletor solar improvisado na tentativa de acelerar seu processo de acumular energia.
"Se eu fosse exposto diretamente ao sol, minha evolução seria muito mais rápida."
Reclamar de nada adiantava. Enquanto as nuvens continuassem a cobrir o céu de La Serva, sua única alternativa era manter a concentração e evoluir na medida do possível, acostumando seu corpo a quantidades cada vez maiores da energia do sol. Seus inimigos, independente de quem fossem, não o esperariam chegar ao auge para atacar.
Esse fato se provou quase que de imediato.
Trum! Um curto e concentrado tremor de terra o tirou do estado de meditação, o chão aos seus pés colapsou e, sem equilíbrio, foi impossível defender o golpe.
Um punho vermelho atingiu-lhe no queixo, um gancho tão poderoso que o som de sua mandíbula partindo em mil pedaços ecoou antes da explosão causada pelo impacto.
— GUAH! URKH!!
Capotou várias vezes como um civil surpreendido por uma carroça desgovernada. Demorou alguns segundos devido ao choque, mas logo se pôs de pé. A mandíbula destroçada terminando de se regenerar por completo e permitindo o sorriso surpreso se formar.
— Ora, ora, agora isso sim é uma surpresa.
Do buraco que surgiu no chão se estendia um braço, seguido de seu par que ajudou a trazer o resto da criatura. Ela emergiu, bela como uma vida que, após infinitas provações, havia alcançado seu estado de perfeição.
Eduardo alargou o sorriso, mas sua testa franzida e o suor que começava a escorrer denunciavam seus verdadeiros sentimentos. Aquilo diante de seus olhos não era Vast Los filho.
Seu corpo coberto em sangue e feridas insistia em continuar. Seus olhos, negros como o abismo, cravavam na alma do oponente um destino imutável.
O que emergiu daquele poço não foi uma pessoa, mas o mais poderoso veneno que o mundo já foi capaz de produzir.
