O susto de Alex foi tamanho que as espirais em seus olhos dissiparam, permitindo o pensamento racional por um breve momento.
"O que aconteceu? Como que o Punho Fantasma errou a bola?"
Se arrependeu de não ter prestado atenção, mas logo a ansiedade passou e as espirais tomaram conta outra vez.
"Tanto faz, eu ainda tenho a vantagem. Posso descobrir o que ele fez nas próximas rodadas."
Encarou o placar, a diferença gritante de dez gols o acalmando.
TUM! Chutou sem aviso, um golpe idêntico a todos os outros. A bola visível devido ao rastro que deixava através de uma onda de calor.
Vast permaneceu imóvel até meio segundo depois do chute, sua atenção fixa na esfera xadrez.
Sacou o nunchaku! A bola foi aparada pelas correntes sem perder nenhuma velocidade e conseguiu passar da linha de seu gol, contabilizando o ponto adversário. Só então Vast foi capaz de reagir. Com um giro, redirecionou a trajetória da bola e devolveu.
Alex permaneceu parado de braços cruzados, focado apenas em observar. O assobio cortou seu ouvido esquerdo, seguido do aviso do narrador.
GOOOOOOOOOOL!! Vast 2 x 12 Alex
— Haha! Agora eu entendo…
Basicamente, Vast usava o impulso do chute e o aproveitava para devolver com ainda mais potência. A velocidade das forças somadas — Vast + Alex — era tanta que era difícil até para o Punho Fantasma rebater.
"Ele consegue contra-atacar e fazer um gol, mas é incapaz de impedir o meu gol de acontecer. No geral, ele pode até fazer pontos, mas a situação em si continua a mesma!"
Confiança ressurgiu e os lábios curvaram para cima.
— Ignorar as ordens do mestre realmente valeu a pena! Me impressione mais, Príncipe Pobre!
Aproveitando a oportunidade — e que o vampiro ainda tinha o mínimo de sanidade para conversar — Vast colocou as dicas de Carmilla em prática e embarcou na conversa na intenção de adquirir informações.
— Se você sai quebrando as regras quando bem entende, qual o sentido de servi-lo para início de conversa?
— É simples. Quando você vai contra a vontade de alguém mais forte e que não está relacionado com você, ele provavelmente vai te matar, mas se você tiver o mínimo de relação com ele, a punição será menor ou até nula... provavelmente.
— Falando assim, esse Verdadeiro Sol parece bem menos incrível do que fazem parecer.
— Pense como quiser, não é problema meu o que acontecer com você quando encontrá-lo.
Vast franziu a testa, decepcionado com o resultado.
O fato de que Alex permaneceu calmo mesmo ouvindo uma afronta direta ao próprio mestre provava sua individualidade e a superioridade aos outros vampiros. Lidar com um vampiro cegado pela raiva era fácil, bastava alimentar o ódio até causar a autodestruição. Do contrário, era o mesmo que enfrentar um humano dotado de alta inteligência maquiavélica.
“Mas eu ainda não estou satisfeito.”
Mesmo com o risco de cair em algum esquema maligno, vampiros continuavam sendo vampiros independente de seu nível de inteligência. Especificamente falando, eles falavam demais. Ainda que Alex fosse inteligente, até a pessoa mais controlada possui seus próprios gatilhos, era apenas questão de acertá-los.
Vast buscou exatamente por isso.
— Acha que consegue vencê-lo numa luta?
Pensativo por um breve instante, Alex sorriu e iniciou a resposta com um confiante “Sim”.
— Apesar de que seria uma partida bem difícil e com um longo prolongamento, eu acho que seria capaz de vencer. Sem querer me gabar, mas eu nunca perdi nenhuma partida de futebol mesmo antes de ter essa habilidade.
— “Portão de Carne”.
A expressão alegre de Alex se desfez de súbito, as palavras o congelando como um balde de água fria que acertou em cheio numa área inesperada.
— Como você sabe desse título?
O príncipe cruzou os braços, triunfante, como se a resposta fosse óbvia como a soma de um mais um.
— Eu sou o herdeiro do Reino, é claro que eu decorei os costumes e pontos mais importantes até das menores comunidades em meu território. — Analisou Alex dos pés à cabeça, certo de sua suposição. — Portão de Carne. Esse era seu apelido no Burgo Seraton.
O campo inteiro caiu num silêncio atordoante. O retumbar dos gritos do narrador cessaram, tal qual o ovacionar de uma plateia inexistente.
Com essa permissão indireta, Vast prosseguiu:
— Peço perdão pela demora em reconhecer. Futebol era um esporte típico de Seraton, um burgo de médio porte que ficava na fronteira com a região Norte de La Serva. Em um campo em específico, cada metade ficava de um lado da fronteira, ocasionando em alta competitividade. E no time do Oeste, havia um indivíduo que nunca deixou uma bola sequer entrar no gol, independente de quem chutasse ou como o fizesse, chegando ao ponto em que, certa vez, dominou uma bola de canhão no peito e ainda saiu vivo. Foi nessa ocasião que ganhou o apelido de “Portão de Carne”.
Devido a precisão de cada informação e os detalhes adicionados, Alex acabava por confirmá-las com seu silêncio. Em sua primeira tentativa de quebrá-lo, a carta que usaria para virar a conversa contra o príncipe foi usada pelo próprio no momento seguinte.
— Porém, Seraton encontrou aniquilação nas mãos de um grupo de vampiros alguns anos atrás, onde todos os súditos foram mortos. Eu ainda era uma criança, então não pude fazer nada além de lamentar quando recebi a notícia. — Fitou Alex diretamente, julgador. — Me parece agora que alguém sobreviveu, apesar de usar métodos questionáveis.
Achando ser oportuno, repetiu uma pergunta anterior, mas de outra forma.
— Você disse que venceria, mas isso não se aplica ao seu “eu” do passado, certo?
Diante da pergunta, silêncio perdurou por mais alguns segundos. Alex, parado como uma estátua, ergueu a cabeça para encarar o céu enegrecido — efeito do campo criado com sua habilidade —, suspirando pesadamente antes de encarar o príncipe inexpressivo.
— E o que você esperava que acontecesse agora? Que eu surtasse em raiva ou que encerrasse a luta? Passado é passado, eu não tenho razões para ficar olhando as decisões que fiz e que não posso mais mudar. E quer saber de uma coisa? Mesmo que eu pudesse, eu ainda faria a mesma escolha!
Com movimentos tão precisos que pareciam programados, ele fez diversas manobras com a bola antes de torná-la numa meia esfera tamanha foi a força com que afundou o pé.
…Com um poder desses, nem mesmo o passado pode me atormentar!!
O pé direito atingiu a bola num tiro de meta, realizando uma curva no ar capaz de desorientar Vast. Todas as bolas até agora foram retas ou levemente curvadas, como ele lidaria com algo totalmente diferente?
Vast reagiu igual ao chute anterior. A bola raspou contra as correntes e criou faíscas, ameaçando incendiar o campo de grama seca. Outra vez a bola acabou passando da linha do gol antes que fosse capaz de devolver.
Alex sequer tentou parar a bola, agora ciente dos limites do Punho Fantasma.
Enquanto o narrador gritava em êxtase e o placar se alterava outra vez, o vampiro ponderou sobre sua missão.
"Eu entendo agora, não é surpresa que o mestre tenha se interessado neste humano. Sua capacidade adaptativa é muito superior a de qualquer outro que eu já vi. Mesmo assim…"
A mesma sequência de eventos se repetiu. De novo e de novo, o narrador gritava a cada gol e o placar se atualizava em ritmo frenético, tanto que os dois competidores perderam a conta de pontos em certo momento.
Cada chute ecoava como o nascimento de uma nova estrela, essa que buscava conquistar seu lugar na galáxia a se formar em extrema rapidez.
Mesmo gradualmente perdido para as espirais, Alex passou o olhar pelo placar num instinto intrínseco em seu ser. Frívolo, sem nem chegar a reconhecer as fotos. Isto é, até o instante em que compreendeu os números.
Vast 13 x 16 Alex
— O quê?!
Antes coçando, desta vez Alex arrancou os próprios olhos e regenerou um novo par para ter absoluta certeza de que estava vendo certo.
— Quando foi que isso aconteceu? Como está roubando, maldito!?
Ele bravejou contra Vast, cujo limpou o suor no rosto antes de responder em tom confuso.
— Do que está falando? Eu já teria perdido se tivesse trapaceado.
— Então como que o placar ficou assim? Você está quase alcançando meus pontos!
— Entenderei isso como um elogio, obrigado.
O vampiro cerrou os dentes antes de dominar a bola uma outra vez, carregando a potência de seu próximo chute a cada embaixadinha.
“Isso é ruim! Eu me distraí e não notei o que aconteceu. Por acaso ele conseguiu rebater a bola antes de levar o gol?”
Em prol de comprovar a teoria absurda, ele chutou. Uma bicuda que fez a bola pegar fogo no meio do caminho e imitar um meteoro.
Vast aplicou mais sangue no nunchaku e engrossou as correntes, avançando contra a bola. Envolveu-a no metal vermelho com extrema precisão, girando como um peão para acumular ainda mais velocidade antes de devolver com o dobro da potência.
Tudo que Alex viu foi o rastro de fogo deixado em pleno ar. A voz do narrador ecoou sem demora.
GOOOOOOOOOOOL!! Vast 14 x Alex 16
“Inacreditável! Essa velocidade de adaptação é maior que a maioria dos vampiros, até mesmo que a do…!”
Segurou as últimas palavras, uma difamação que jamais se permitiria fazer. Ao invés disso, declarou suas intenções em voz alta.
— Você não passará! Essa jornada idiota termina aqui!!
Vendo a intenção assassina de seu oponente crescer sem controle, Vast aplicou mais sangue no nunchaku por garantia e deixou o Atirador Rubro preparado para uma emergência.
Ainda se preparando através de dramáticas embaixadinhas, o vampiro fez um novo movimento enquanto exibia suas habilidades no controle de bola.
O Punho Fantasma se manifestou para em seguida se dividir em três pontos luminosos. Ao comando de Alex, os três se organizaram em fila à frente com alguns metros de distância entre cada um, obviamente sem invadir o campo de Vast.
Foi então que começaram a tomar nova forma. Primeiro um corpo, depois braços e pernas, todos robustos como os pilares de sustentação de um prédio. Exibiam com orgulho o uniforme idêntico ao do vampiro.
Havia agora uma linha de três jogadores no caminho do gol, posicionados como goleiros profissionais que barrariam mesmo o mais veloz dos meteoros.
— Isso é sua última carta na manga? — perguntou Vast. — Você não parece muito bem, não acha que é melhor admitir derrota?
Os olhos de Alex foram quase completamente dominados por espirais, a pouca sanidade que lhe restava sendo o que permitia lutar com o mínimo de estratégia ao invés de abusar da força como um animal maluco.
No lugar de palavras, ele respondeu com ações.
TUMPH! O disparo foi idêntico aos outros, Vast com a certeza de que seria capaz de acorrentá-lo e enviar de volta.
“Mas que…!?”
O jogador mais à frente no campo se moveu tão rápido que foi difícil perceber. Com uma precisão invejável, ele atingiu a bola em pleno ar com um segundo impacto, adicionado um nível de força e velocidade comparável a de Alex sozinho.
Para além de um mero rastro, a próprio bola entrou em combustão de dentro para fora, avançando como um sol raivoso na direção do príncipe!
Mesmo os pensamentos eram lentos demais, restando ao instinto de Vast agir contra o ataque fatal. Com as correntes à frente do rosto, preparou-se para o impacto.
Tush…
A esfera de fogo se desfez a centímetro de seu rosto, inundando o campo num silêncio imediatamente quebrado pelas bufadas do vampiro.
O narrador ecoou com um anúncio. Por ter destruído a bola, Alex foi punido com cartão amarelo.
Uma nova surgiu aos pés de Vast enquanto uma cascata de suor frio escorria por sua testa.
“Era impossível bloquear aquele ataque! Foi pura sorte ter desintegrado no último segundo.”
Uma vez que Vast se preparou para defender ao invés de desviar, era bem provável que o jogo não contasse como uma tentativa de Alex de eliminar o adversário. Vast então sairia gravemente ferido e incapaz de realizar bons chutes, destinado a perder contra a besta descontrolada que o vampiro se tornou.
“Não acho que vai ser possível bloquear nenhum dos próximos chutes dele. Tenho que pelo menos ficar com a posse da bola!”
Com um plano já em mente, ele chutou.
A velocidade extrema fez a esfera virar uma elipse em pleno ar, longe de intimidar os três jogadores à frente do gol.
O primeiro estufou o peito para receber o golpe e, a centímetros de seu corpo, a bola parou em pleno ar.
Alex paralisou no lugar, preso numa confusão que aumentou no instante seguinte.
Plam! A bola quicou no chão e acertou o queixo do jogador num poderoso movimento de uppercut, derrubando-o no ato. Prosseguiu com o ataque, desviando dos jabs do segundo atacante e imobilizando as pernas com duas pancadas atrás dos joelhos. Para o terceiro, acertou a lateral da cabeça e estourou os ouvidos, enfim seguindo num zigue-zague tão veloz que tornou impossível para Alex defender.
GOOOOOOOOOOOL!! Vast 15 x Alex 16
O vampiro cuspiu, esticando a mão para pegar a bola mas agarrando apenas o ar.
— O quê? Onde está!?
Procurou em súbito desespero, congelando ao encontrar a esfera xadrez no campo do príncipe.
Grudada na bola estava um rastro de sangue elástico como borracha, conectando-se ao Atirador Rubro. Vast a controlou como um verdadeiro marionetista no primeiro movimento, agora segurando no cabo de sangue e girando a bola como se empunhasse uma estrela da manhã.
Alex entreolhou o príncipe e o placar, esperando do narrador um anúncio que nunca veio.
— Como que isso não é trapaça? Você roubou a bola do meu campo!
— A corda de sangue estava presa nela antes mesmo de eu chutar, o que significa que eu não atirei para recuperá-la, mas que foi apenas um efeito decorrente do fato de ela estar presa.
— É sério isso?
— Seríssimo. A habilidade é sua, e se não foi considerado trapaça, então a tática foi válida.
Veias que sequer existiam saltaram pelo rosto do vampiro. O fato dele ainda ser capaz de manter a habilidade ativa sendo admirável e ao mesmo tempo assustador.
Vast sorriu em disfarce.
“Isso não vai funcionar por muito tempo, tenho que aproveitar e causar o máximo de dano possível.”
Arremessou a bola para cima e, num cálculo preciso de força, chutou quando na altura perfeita. Os três jogadores adiante observaram a bola passar por cima de suas cabeças, longe do alcance, mas Vast tinha mais a fazer.
Controlando a corda de sangue, começou a girar em velocidade máxima, capaz de criar um redemoinho pouco antes da bola invadir o campo do oponente.
Os dois mais à frente afundaram as mãos no solo para não serem arrastados, proeza que o último da fila falhou em realizar. Seus pés foram tirados do chão sem chance para reagir, e seu corpo foi desfeito em mil pedaços de luz ao menor contato com o redemoinho.
BANG!
A bola disparou num ataque finalizador, abraçando a rede do gol sem qualquer possibilidade de defesa. Os gritos do narrador, mais poderosos, ecoaram no crânio de Alex e martelaram seu cérebro enquanto o placar atualizava para uma situação imprescindível.
Vast 16 x Alex 16
Ao fim do ataque, a corda grudada na bola foi partida antes que o príncipe pudesse recuperá-la. Deu de ombros, satisfeito em ter alcançado o empate.
Por outro lado, Alex salivava como um animal afligido pelo mais alto nível de raiva.
"Eu ainda posso vencer!"
Visualizando um bom final, era hora usar todas as cartas que ainda tinha na manga.
