Ciente de que o cobertor que usava não o protegeria do monstro diante de seus olhos, a criatura o abandonou e rastejou poucos metros para trás, só então capaz de se colocar de pé.
Sua semelhança com uma pessoa era apenas em silhueta. Braços e pernas eram divididos em três segmentos peludos, sendo que mãos e pés possuíam apenas três dedos. O torso magro contrastava com o grande bolsão de sangue na metade inferior, a longa agulha áspera substituía o nariz e o par de antenas na cabeça tremulava em medo.
Para além de tudo isso, a atenção do príncipe caiu sobre uma informação mais importante, a qual pairava acima da cabeça da criatura na forma de uma aura nojenta.
Vampiro Descendente
Força 28/100
Agilidade 50/100
Inteligência 30/100
Atento à velocidade da criatura, Vast analisou os arredores.
Espaço aberto era o pior campo possível, uma vez que o vampiro poderia tentar escapar quando percebesse estar em desvantagem. Por sorte, a arena quase perfeita estava logo ao lado.
"Estava tão perto esse tempo todo."
O local em que o vampiro se escondia até então estava dentro do terreno de Vincent e a poucos metros da mansão, provavelmente oculto por outra construção ou até debaixo da terra.
Nesta breve distração do príncipe, o homem-mosquito bateu as asas e se lançou ao céu. Lento demais. Um curto estrondo semelhante a uma explosão deixou uma pequena cratera no terreno ao mesmo tempo que colocou Vast em seu caminho.
Com um chute certeiro no estômago, o vampiro foi arremessado para dentro da mansão, capotando pelo grande salão de festas até colidir contra um dos pilares.
Seguindo a criatura, o príncipe se pôs como barreira contra o vampiro, bloqueando a saída.
Em resposta, a criatura bateu as asas velozmente e buscou o ponto mais distante possível do príncipe, se agarrando no teto do salão.
Os Atributos de Força e Inteligência eram menores que o esperado, mesmo assim, deveria estar pronto para qualquer coisa.
"É o primeiro Descendente que encontro. Será que uso essa chance para fazer testes?"
Sobreviver a esta situação significaria chegar mais perto da fonte do problema, onde mais vampiros e provavelmente outros Amaldiçoados o aguardavam.
Não custava nada tentar. Poderia manter as coisas sobre mínimo controle enquanto o vampiro ficasse dentro do salão.
— Quem é o seu mestre? É o Verdadeiro Sol?
— Por que eu falaria do meu mestre pra você? E aliás, tire o título dele dessa sua boca suja!!
Caramba, Vast estava tão surpreso com falta de inteligência do vampiro que esta foi sua única reação.
Ao mesmo tempo que extrair informações era o ideal, deveria manter o vampiro à beira da morte para garantir domínio absoluto.
Mirando com o Atirador Rubro, realizou três disparos.
Dois acertaram o torso da criatura, o último acertou o rosto de raspão. Mesmo com buracos no corpo, ainda planou até o pilar próximo para se esconder. O sangue escorrendo pelo estrutura denunciando a posição.
"Só preciso mantê-lo ferido. Deve ser o bastante."
De imediato, algo atropelou o ar na direção de Vast. Um buraco que ia de um lado ao outro surgiu em seu braço.
A velocidade foi tanta que apenas ao bater o olho na ferida que o cérebro enviou o estímulo de dor. Sem demora, a luz de cura da [Mutter] surgiu onde o vampiro se escondia. Se esforçando para completar um mero pensamento, teve de rastejar para detrás de um dos pilares.
"O que foi que… Urgh! Ele nem tinha visão de mim, como que me atingiu!?"
Sua busca por respostas terminou no chão. Fincado na porcelana estava um mosquito de mesmo tamanho e aparência aos outros, com a diferença de que era feito inteiramente de vidro.
Devido ao impacto que teve contra o chão duro, estava reduzido a uma pilha de estilhaços.
"Então não é apenas criaturas vivas."
Usando o pilar como barreira, revelou apenas o suficiente do rosto para observar o salão. As taças e porcelanas nas mesas e cristaleiras se contorciam como larvas encasuladas, criando asas e alçando voo uma atrás da outra de modo que parecia não ter fim.
"Podendo transformar qualquer coisa num mosquito… Ele pretende me chupar até a morte?"
Com as expectativas para a luta completamente destruídas, Vast, pela primeira vez desde que saiu do castelo, encontrou-se encurralado.
"Vampiros Descendentes… São completamente diferentes dos outros!"
Controlando o sangramento na área do buraco em seu braço, o príncipe esqueceu o plano de usar o vampiro como fonte de informações. A sobrevivência era a prioridade.
Permaneceu atrás do pilar, atento a qualquer chance de um ataque definitivo.
Em estratégia semelhante, o vampiro se agarrava no teto com os pés grudentos, arranhando o pilar em dor severa enquanto os ferimentos de disparo regeneravam lentamente.
"O que é esse moleque?!"
Quando o banheiro em que se escondia explodiu de súbito e Vast emergiu das chamas, o vampiro por um momento pôde sentir seu coração — parado há décadas — bater por um breve instante.
Obviamente, ele tinha noção da presença do príncipe em Ormstade desde que ele descobriu sobre o galpão de mosquitos. Foi uma pena tê-los destruídos, mas eram uma horda que poderia ser reerguida em pouco tempo, tendo apenas atrasado um pouco o grande plano.
Porém, mesmo com a situação atual ao seu favor, uma dúvida rastejava pela superfície de seu cérebro como uma larva parasita, aguardando o momento de distração para então tomar posse completa do corpo.
"Ele levou um ataque de um mosquitos mais cedo, foi praticamente queimado vivo, e agora mesmo um dos meus filhos atravessou o braço dele…"
Ele espiou o salão, encontrando o príncipe quando este foi denunciado pela própria sombra.
"Como que esse maldito ainda está vivo!? Nenhum humano é resistente assim!!"
Nesta altura, ele considerava fortemente que o rapaz de cabelos verdes sequer era humano.
A ordem que lhe foi dada era simples: eliminar o responsável por atrasar o plano. Agora, logo depois de quase ser eliminado, sua urgência em cumprir com a ordem apenas cresceu.
"Este homem é perigoso, precisa morrer aqui e agora!!"
Com as feridas completamente regeneradas, um único movimento de sua mão bastou para comandar a horda.
Eram frágeis — literais canhões de vidro —, mas bastaria um acertar um ponto vital que tudo estaria acabado, e considerando a quantidade que já chegava na primeira centena, as chances de errar eram praticamente nulas.
— Matem ele, minhas crianças!
Numa movimento inicial de pinça, dois grupos de mosquitos atacaram de ambos os lados o pilar onde estava a sombra do príncipe.
Tralsh! O som de vidro se chocando trouxe em seguida o cair de uma das armaduras decorativas do lugar, uma mera distração.
"O-Onde ele está…?!"
No mesmo instante, um tiro passou de raspão por seu nariz de agulha e afundou no pilar, o sangue concentrado escorrendo e refletindo um Vast enfurecido por errar o alvo.
"Ele é rápido, mas não tem onde se esconder aqui!" Deixando o sorriso torto surgir, o vampiro não mais se escondia. — Peguem ele!
Os mosquitos do tamanho de cachorros iniciaram uma perseguição com a violência e graciosidade das ondas do mar contra a praia.
Contra essa turbulência feroz, Vast usava os pilares do salão e toda e qualquer mobília ao alcance de suas mãos e pés. Com a força e velocidade anormais graças à [Mutter], foi capaz de evitar a maioria dos ataques.
Plunsh!
Mas assim que uma das criaturas finalmente lhe atingiu, o lado com a vantagem ficou ainda mais evidente.
Vast não agiu rápido o bastante, o que permitiu o mosquito que acertou-lhe na perna sugar uma grande bolha de sangue. Sendo transparente, foi possível ver o denso líquido vermelho percorrer a agulha e ser armazenado no corpo do mosquito.
A horda faminta que seguia deu Vast uma breve premonição de sua própria morte.
Ciente que era impossível esquivar, seus dedos afundaram na perna de uma mesa próxima e a balançaram à frente. O golpe pegou a maioria desavisada dos mosquitos, espatifando-os em milhares de cacos de vidro por todo o chão.
Mesmo assim alguns ainda conseguiram acertar Vast — três no total. Um atingiu a outra perna, um o peito e outro seu abdômen. Três grandes bolhas de sangue foram retiradas e, por pouco, os mosquitos escaparam antes que se juntassem aos irmãos estilhaçados.
Estes que carregavam o sangue do príncipe voaram direto para o vampiro. Denunciar sua posição foi de pouca preocupação.
— Vast Los Filho, você é sem dúvidas o humano mais resistente que já encontrei, mas isso acaba aqui!
Com ambas as pernas mobilizadas e o equivalente a quatro litros de sangue perdido até agora, o príncipe deveria estar seco. Seu corpo estar de pé até agora era uma surpresa e tanto; que certamente duraria pouco na perspectiva do vampiro.
O fim era apenas questão de tempo. A vitória estava a segundos de distância.
"Ele é um oponente perigoso, mas é evidente que enfrentou poucos vampiros. Acho que tive sorte nessa parte, se ele fosse um Amaldiçoado mais experiente…"
Engoliu em seco, despachando pensamentos desnecessários ao pegar um dos mosquitos com sangue e o acariciando como se fosse um animal de estimação.
— Eu ouvi que o sangue amaldiçoado é um veneno contra vampiros, uma pena. Com essa quantidade, eu ficaria muito mais poderoso!
Uma tentação imensa tomou-lhe por um segundo, sua longa agulha tremendo de vontade de dar um gole no denso líquido vermelho literalmente em suas mãos.
Se conteve com um tapa no próprio rosto. Longe de para voltar à realidade, e sim para ter certeza de que ainda estava nela.
Forçando a visão para enxergar através do vidro levemente embaçado do corpo mosquito, um evento inédito se desenrolava.
— O sangue está… fervendo?
Trink! A rachadura foi seguida do colapso.
O sangue fervendo ao ponto de evaporar no ar cobriu o rosto do vampiro como as presas de um grande predador. Um golpe certeiro e fatal.
— GWAAARGH!!
A criatura colapsou no chão, rolando como se tentasse apagar fogo que se alastrava por cada centímetro de sua pele áspera de mosquito.
Sua regeneração natural que era suficiente para curar mesmo um corte profundo em questão de poucos minutos, dessa vez encontrou danos que surgiam mais rápido do que conseguia reverter.
Os grossos pelos que agiam como sensores por todo seu corpo derreteram um atrás do outro, muitos invadindo a pele e contaminando sua própria carne, ferida pelos cacos de vidro que voavam a cada mosquito que explodia ao mero contato com o sangue.
Incapaz de reagir, o ácido vermelho atravessou suas pálpebras e queimou seus olhos, deixando-o temporariamente cego.
A poucos metros de distância, Vast observava em choque a reação desesperada do vampiro.
"O que acabou de acontecer?!"
A sequência de eventos não poderia ser mais estranha e confusa.
Sendo perseguido pelos mosquitos de vidro, pensou ser o seu fim no último ataque. Estava indefeso contra um ataque em massa e morreria ali. Em reação à própria incompetência, a raiva tomou conta de seu coração.
Os batimentos chegaram ao ponto de ensurdecer seus ouvidos e a pele ficou levemente avermelhada, como se um demônio tivesse o possuído sem aviso.
No instante seguinte, o sangue visível dentro do Atirador Rubro começou a borbulhar como a água de uma chaleira, e pelo visto aquele roubado pelos mosquitos sofreu do mesmo efeito.
"Eu realmente pensei que seria ótimo ser capaz de controlar meu sangue à distância, mas não pensei que acabaria funcionando de verdade!" Sacudiu a cabeça e esquivou de mais mosquitos. "Eu penso nisso depois, essa é a minha chance!"
Pegando um grande pedaço afiado de vidro no chão, forçou as pernas num salto na direção do vampiro. Os olhos de obsidiana deixando um leve rastro de morte por onde passava.
Mesmo que cego, o vampiro foi capaz de sentir a presença com intenções malignas avançando ferozmente em sua direção.
— Sa-Saia de perto de mim!!
Com um simples balançar de seu braço, o que restava da horda de mosquitos de vidro avançou. Visto que o mestre estava sem visão clara do alvo, tornaram-se numa massa de velocidade que atacava o ar de forma aleatória, ainda assim previsível o bastante para ser evitada mesmo por alguém com as pernas parcialmente dormentes.
Os passos de Vast, molhados pelo próprio sangue, ecoaram retumbantes pelo salão, cada vez mais perto do vampiro cujo desespero só aumentava.
— Morra de uma vez! Quanto sangue você tem??
O avanço apenas acelerou, mais urgente.
Longe de Príncipe Pobre, este homem era um Príncipe Louco!
Tumph! Finalmente, o vampiro foi impedido de continuar se arrastando pelo chão quando um peso esmagou uma de suas pernas. Para sua infelicidade, foi nesse momento que os olhos enfim se regeneraram.
Diante dele estava uma imagem capaz de traumatizar até um sugador de sangue como ele.
Uma criatura que apenas por silhueta podia ser dito como humana. Banhada no próprio sangue, com o corpo coberto de buracos e parcialmente queimado, exibia tanta vivacidade quanto uma criança em seu ápice de energia, a diferença era que seus olhos cravavam não esperança ou animosidade, mas o simples e puro desejo de exterminar o que estava à sua frente.
Isso não era um humano, um vampiro ou Amaldiçoado. Era uma força da natureza manifestada em carne frágil, e exatamente por isso se tornava algo tão aterrorizante.
Com o alvo ao seu alcance, o príncipe ergueu o pedaço de vidro acima de sua cabeça. No reflexo, o vampiro viu seu próprio cenho contorcido numa careta que denunciava seu destino.
— E-Espera…!!
Vast afundou a lâmina transparente no pescoço da criatura. Uma, duas, três, quatro! Repetidos golpes precisos e construindo força arrancaram pedaços cada vez mais largos de carne, até que eventualmente a cabeça fosse desconectada. Em seguida, esmagou-a com um pisão.
Com isso, o corpo do vampiro finalmente começou a se desfazer em névoa. Seus olhos arregalados ainda fixos no príncipe, atormentados pelo resultado da batalha e, no fundo, aliviados de que nunca mais precisariam confrontar este indivíduo.