Uma vez que a luta acabou e nenhum outro zumbido ecoou por Ormstade, as pessoas enfim foram capazes de relaxar outra vez.
Muitos estavam curiosos para saber a origem da explosão recente, seguindo a torre de fumaça no céu e eventualmente chegando às portas da mansão de Vincent. O caminho era bloqueado por seus guardas pessoais, que pediram compreensão do povo até que a situação se acalmasse de fato.
Entre as pessoas estava Russisch. Ciente dos pormenores de todo esse caos mas limitado ao status de súdito, a única ajuda que podia fornecer ao salvador do burgo era uma prece curta, porém sincera de todo o coração.
— Que o Rei Eterno esteja com você, meu príncipe.
Dentro da mansão.
Por vários minutos seguidos, Vast — apesar dos diversos ferimentos — permaneceu de pé diante do corpo morto do vampiro até que este se desfizesse em névoa por completo. Uma garantia.
Assim que até o sangue pútrido evaporou, sua primeira ação foi pegar um dos grandes panos em uma das mesas próximas para cobrir o corpo. Lutar nu era uma coisa, encarar seus súditos assim era completamente diferente.
Vestido com a túnica branca improvisada, foi quase imediato o abrir das portas do salão.
Vincent e os serviçais que o seguiam passaram olhares perplexos pelo caos que o lugar se tornou. Vestígios de uma luta tão voraz que ainda parecia estar acontecendo, o chão coberto por tanto sangue que se tornou num imenso espelho carmesim.
— Prí-Príncipe Vast!!
Todos correram ao seu socorro, a urgência cortada pelo estender calmo da mão do rapaz que tinha o corpo repleto de buracos.
— Alguém está ferido?
— Meu príncipe, não é hora para…
— Vincent — Os olhos negros sequer piscaram, fixos no homem. —, alguém está ferido?
— …!! Ha~ — Suspirou longamente para ser capaz de falar sem gaguejar. — Não, meu príncipe. Milagrosamente, nenhum dos súditos se feriu.
Vast enfim deu um curto; satisfeito sorriso. Ótimo. No instante seguinte, ele colapsou no chão.
Segundos, minutos, horas, dias, era impossível para Vast ter noção de quanto tempo havia se passado até agora, e, honestamente, nem se importava no momento.
“É tão… confortável.”
Imerso numa escuridão infinita impossível de dizer ser real ou não, um conforto inexplicável envolvia seu corpo e auxiliava na recuperação das várias feridas.
Os buracos causados pelos mosquitos gigantes fecharam, deixando apenas pequenas cicatrizes. O mesmo se fez para as queimaduras que até então estavam em carne viva.
Mãos gentis e invisíveis deslizavam por seu corpo para costurar essas feridas com a mesma delicadeza que uma abelha coleta o pólen de uma flor. No caso de Vast, coletava sua dor e cansaço para absorvê-los, insignificantes comparados ao porto seguro que o recebia.
Mais que meramente satisfatória, era inédita para si.
“Essa sensação… é realmente possível senti-la de verdade, ou é apenas fruto dos meus sonhos?”
“Não, será que isso é um sonho? Se fosse eu deveria ter acordado agora.”
“Mas, eu não quero acordar. Eu quero ficar aqui mais um pouco.”
“Eu quero sentir melhor esse conforto.”
“Eu quero entender esse conforto.”
“Eu quero…”
Vários rostos passaram diante de seus olhos. Variados semblantes, diferentes vidas, infinitas possibilidades. Todos colocavam sua esperança em uma única pessoa.
“Eu quero compartilhar este conforto… com os meus súditos.”
Sem que percebesse, o calor confortável se dissipou aos poucos. Na verdade, seria mais certo dizer que apenas retornou para o espaço que deveria, permitindo que o corpo de Vast recuperasse os sentidos do mundo ao seu redor. Eventualmente…
— Príncipe Vast, você acordou! Graças ao Rei Eterno!
O primeiro rosto que viu ao abrir os olhos foi o de Vincent, as olheiras maiores que quando se encontraram antes.
Devagar, sentou-se sobre a larga cama onde dormia até então. Os serviçais presentes o auxiliavam da melhor forma possível, imediatamente adicionando travesseiros às suas costas ao ponto que o príncipe se sentiu nas nuvens.
Finalmente, apesar de um pouco de hesitação, analisou o próprio corpo.
Vestia uma camisa tão longa que mais parecia um vestido, por baixo dessa, encontrou seu corpo coberto por várias camadas de bandagens. Se saísse na rua as pessoas pensariam se tratar de um vampiro múmia ou um fugitivo do hospício.
Apesar do susto inicial, a dor era inexistente, apenas a tensão muscular fazia presença — passaria após uma curta sessão de alongamentos.
As poucas manchas de sangue estavam secas, indicando que os ferimentos fecharam. Se sentia mais vívido comparado a antes, como se retornado à uma época em que era mais jovem mas com a força que adquiriu no futuro conservada.
Sem nem perguntar, removeu as bandagens do corpo.
“Pelo visto aquilo era bem mais que um sonho.”
Estava totalmente recuperado. Para além disso, seu corpo tornou-se mais tonificado.
Vast praticava exercícios com frequência, porém era cedo demais para que alcançasse os resultados agora observados. Era como se o processo de recuperação e crescimento tivesse sido acelerado para trazer os resultados, semelhante ao processo de adaptação de um animal a um novo ambiente, com a diferença de ser extremamente rápido.
“Esse é um efeito da minha Maldição?”
Até onde sabia, a [Mutter] providenciava força física extra e um fator de cura que agia sobre os seres vivos mais próximos.
Agora que a luta contra o Vampiro Descendente foi finalizada, havia finalmente tempo para refletir sobre todas as bizarrices que aconteceram durante e após ela.
Vendo que o príncipe se perdia nos próprios pensamentos, Vincent começou a ordenar diferentes tarefas os serviçais no cômodo, fazendo-os se retirar um atrás do outro.
“Primeiro o sangue fervendo.”
Isso era parcialmente inédito. Quando ainda estava no castelo, costumava se ferir com certa constância em seus treinos físicos e também durante testes para descobrir as capacidades da [Mutter]. Ocorreu de algumas vezes sentir seu corpo mais quente que o normal e até de sua pele assumir um leve tom vermelho.
A primeira coisa que pensou foi que estava doente ou à beira do colapso por exaustão. Foi graças à Emilia que descobriu ser apenas um efeito inofensivo de sua Maldição, apesar de ter se tornado um mistério a razão exata de acontecer.
“Isso pode ser útil no combate contra vampiros. Tenho que investigar e fazer mais testes para descobrir o que mais consigo fazer com meu sangue.”
Para sua sorte, o Atirador Rubro ainda em seu braço era a ferramenta perfeita para a tarefa. Era hora de levar sua função para além de meros tiros de sangue superconcentrado.
— Príncipe Vast.
Puxado para a realidade, fitou Vincent que se sentava numa cadeira ao lado. Apenas os dois ainda residiam no quarto.
…Como está se sentindo?
— Bem. Agradeço por ter cuidado de mim. Por quanto eu fiquei desacordado?
— Dois dias, meu príncipe.
— DOIS DIAS?!
O súbito sobressalto assustou Vincent ao ponto de suas olheiras sumirem. Vast imediatamente recuperou a compostura e se desculpou com o homem.
— Eu realmente dormi por tanto tempo assim?
— Si-Sim, Príncipe Vast. Não é nenhuma surpresa, afinal o senhor estava gravemente ferido quando viemos ao seu socorro. Eu torci por sua melhora constantemente, é claro, mas não posso negar que pensei que morreria.
“Pelo visto aquele sonho apenas pareceu rápido”, ponderou consigo antes de perguntar. — Alguma coisa aconteceu com meu corpo nesse tempo?
— Não. Você ficou imóvel o tempo inteiro. Meus serviçais o acompanharam 24 horas, sendo os únicos que lhe tocaram durante o processo.
Foi então que uma pergunta surgiu na mente do príncipe.
“Será que ele sabe sobre Carmilla?”
Havia a possibilidade de ela estar disfarçada entre as serviçais, e Vast foi por pouco capaz de evitar a pergunta de escapar por entre seus lábios.
“Ela disse ser uma vampira, mas mesmo que seja mentira, ela ainda é muito poderosa e pelo visto com más intenções. Meus olhos quase explodiram só de ver o corpo dela, seria arriscado demais envolver outra pessoa nessa questão, melhor investigar sozinho.”
Para completar, Vincent merecia um descanso depois de tanto tempo vivendo sobre a ameaça de vampiros. Seria crueldade arrastá-lo para outro problema tão depressa.
— Eu agradeço toda a ajuda. Se eu ainda estou vivo, quer dizer que o Verdadeiro Sol se foi?
— Precisamente. Eu não pude ver com meus próprios olhos, mas tanto os súditos quanto alguns de meus servos pessoais relataram tê-lo visto indo embora depois que seu combate se encerrou. Se estiver correto, ele partiu na direção da Torre.
— Entendo. — Vast suspirou. — É um alívio e também uma pena, eu queria ter descoberto quem ele é e quais suas intenções com Von Legurn.
— Sobre isso, meu príncipe, tenho algo que pode ser de grande ajuda. Isso foi derrubado pelo vampiro durante a luta.
Vincent tirou do bolso um pano dobrado que, desfeito, revelou um objeto imediatamente reconhecido.
Até então sereno, o semblante de Vast contorceu-se em fúria.
"Esses bastardos!!"
Era um brasão, e esculpido nele estava o símbolo de uma das maiores famílias nobres de Von Legurn, sendo também uma das mais importantes da facção rival — que apoia a negociação de paz entre humanos e vampiros.
— A Casa Baskerville!
A palavra "traidores" foi travada quando na ponta de sua língua. Era cedo. Haviam diversos meios que aquele brasão poderia ter acabado nas mãos de um vampiro.
Por mais suspeita que a situação fosse, Vast jurou presumir a inocência até que se provasse o contrário.
— Irei exigir respostas deles imediatamente.
Se levantou pronto para sair. Antes, pegou emprestado um conjunto de roupas novas do guarda-roupa de seu súdito.
Vincent abriu a boca para contestar a pressa, recuando ao pensar melhor. O príncipe deixou suas intenções claras desde o primeiro momento que pisou dentro da mansão, então tentar impedi-lo de continuar era mais um insulto à sua determinação que estar preocupado com sua segurança.
Dessa forma, o líder de Ormstade sorriu e fez uma reverência.
— Eu entendo. Por favor, tome cuidado, príncipe Vast. Que o Rei Eterno esteja com o senhor.
— Agradeço, mas ainda não sairei de Ormstade. Tenho alguns últimos assuntos para resolver antes de ir embora. — Seu olhar caiu brevemente sobre o Atirador Rubro. — Tem alguma loja de consertos por aqui?
Não muito distante de Ormstade.
Na beira de um precipício, algumas figuras observavam um pequeno vilarejo abaixo. Haviam poucas casas, no máximo quarenta pessoas moravam aqui.
Estavam separados em dois grupos, um de três humanos e outro de dois vampiros. Entre eles, de pé à beira do penhasco, uma figura que parecia o filho de uma estrela.
Como um fragmento do próprio sol, assumia a silhueta de um homem jovem. Sua pele era sobreposta por uma fina camada de luz sólida, descascando e fechando num ciclo constante como a troca de peles de um lagarto.
Após certo tempo encarando o vilarejo fixamente, ele suspirou e concentrou toda a luz que cobria seu corpo na palma da mão. Ali foi criado um pequeno olho dotado de um par de asas, lançado ao céu como relâmpago e desaparecendo entre as nuvens.
Segundos depois, com a visão do alvo, ele resmungou.
— Vast Los Filho… Então este é o herdeiro de Von Legurn. Hunf! É bem diferente do que eu imaginava.
Um dos humanos deu um passo à frente.
— Mestre, ele é apenas um nobre que não sabe o que é melhor para o próprio povo. Por favor, permita que nós coloquemos um fim neste bastardo que insiste interferir em nossos planos.
— Ahã, faça como quiser.
O homem sequer olhou para eles, usando do mero abanar da mão como gesto mais que suficiente. E de fato, o grupo de humanos sussurrou alegremente entre si, partindo de imediato para o vilarejo abaixo já com um plano em mente.
Uma vez que estavam distantes, o vampiro que ficou para trás questionou:
— Mestre, me perdoe, mas acha mesmo uma boa ideia deixar esta tarefa para esses imbecis?
— Eu não espero que eles sejam capazes de derrotar aquele príncipe, mas é uma boa oportunidade para testar as verdadeiras capacidades daquele rapaz, além do mais, esses humanos já não são mais necessários, então pouco importa o que acontecer com eles.
O olho com asas retornou, absorvido pelo corpo novamente.
…Vigie-os de longe. Caso eles sejam derrotados, deixo o príncipe com você. Ah! Mas capture-o vivo, tem alguns experimentos que quero fazer com ele.
— Não irei decepcionar, meu Mestre!
Enfim, o vampiro se retirou da cena tão rápido quantos os humanos o fizeram.
Satisfeito, o homem voltou a se concentrar em manter a camada de luz sobre sua pele, o que falhou miseravelmente.
Uma mão gelada tocou suas costas nuas e, num empurrão leve mas impossível de resistir, ele caiu no precipício.
Silêncio. Por breves segundos, apenas a brisa da paisagem seca ecoou.
Foi então que uma mão alcançou a beira do penhasco. Escalou de volta sem dificuldade, os cruzados e a sobrancelha arqueada direcionados à pessoa que surgiu de repente.
— Você tentou me matar, Carmilla?
— Se você realmente morresse eu iria te reviver só pra rir da sua cara.
Ele deu um passo à frente para confrontá-la, desistindo quando a diferença de altura ficou mais evidente.
Carmilla, exibindo pouco mais de dois metros de altura, deu um sorriso de olhos arregalados, tombando a cabeça como se perguntasse o que havia de errado.
Desviando o olhar e o assunto numa tosse terrivelmente atuada, o homem deu as costas para mulher puramente para evitar contato visual.
— A-Aquele príncipe, Vast Los Filho... Ele é o mesmo moleque que você comentou anos atrás?
— Sim, é o próprio. Por que a pergunta?
— Bem, sendo alguém que você conhece, eu estava me perguntando o que você vai fazer sobre ele. Já me deu um pouco de trabalho, sabe?
Ela riu como se só agora entendesse as perguntas.
— Ora, não vou fazer nada. Ele está no seu território, não no meu! — Ela sorriu triunfante, as mãos na cintura como uma criança arrogante. — Além disso, não faço nada de graça.
Ha~… Ele suspirou como um galã, virando numa velocidade suficiente para que a franja balançasse dramaticamente como num dia chuvoso.
— Parece que não tem jeito mesmo. Bem, de qualquer maneira já enviei algumas pessoas atrás dele. — Fitou a mulher novamente. — Não se importa com o que vai acontecer?
Ela encarou de volta por alguns segundos, inexpressiva. Por fim, pôs os braços nas costas e sorriu de leve, um sentimento impossível de identificar.
— O que acontece entre mim e um Amaldiçoado não deve ser do seu interesse.
— He! Se você diz… Só espero que não se importe de receber um cadáver de presente qualquer dia desses.
— Se for o de uma mulher gostosa, posso até pensar em te agradecer.
— Tsc! Você nunca muda. De qualquer forma, conseguiu alguma resposta daquele engomadinho?
Com movimentos lentos, Carmilla levou uma das mãos entre seus seios, de onde tirou uma flor — uma rosa vermelha em perfeitas condições — e a estendeu para o outro.
— Manda para dentro!
Ele hesitou, forçado a obedece o comando disfarçado de pedido.
— Qual o significado disso? Aquele idiota tá desconfiado de mim, por acaso?
— É apenas uma garantia, segundo ele. E você também não pode reclamar já que falhou em cumprir com o combinado em Ormstade, lembra?
Novamente, ele quis revidar. O ritual só havia sido um fracasso por causa da idiotice dos vampiros que deixou por lá, que foram derrotados pelo príncipe que Carmilla conhecia. E, outra vez, teve de guardar tudo isso para si.
Apesar da aparência normal, um simples toque revelou que não se tratava de uma flor comum.
— Usando truques como este… eu ainda vou mostrar pra ele quem é melhor e vou pegar a região Norte só pra mim!
Ele podia reclamar, mas não recusar. Sua boca abriu ao ponto que a mandíbula deslocou, tornando a boca tão grande quanto a de um lagarto. A flor foi engolida numa bocada só, e o rosto regenerado ao estado normal no instante seguinte.
Carmilla apenas observou, seus sentimentos sempre escondidos por trás do sorriso meigo de uma dama.
O homem esfregou os olhos, cansado.
— Sério, o que exatamente você…
Ela desapareceu, como poeira carregada pelo vento. Uma veia saltou à testa do rapaz.
— Tanto faz.
Seu olhar caiu sobre o vilarejo abaixo uma última vez. As pessoas a passear totalmente ignorantes àquilo que lhes observava do alto como um segundo sol.
Ele encontrou um jeito de extravasar o ódio acumulado.
— Vamos ver o quanto esse príncipe é capaz de aguentar.