Sacrifício de Atributos. Essa era uma habilidade única de qualquer vampiro que estava listada em uma das enciclopédias de Vincent.
Sendo uma transformação irreversível e que drenava até a última gota de energia, era usada como último recurso de um vampiro numa luta já perdida. Na prática, tinha o mesmo efeito de usar uma granada para explodir a si mesmo e levar o oponente junto. Uma verdadeira demonstração do quão longe chegava o orgulho dessas criaturas.
O mais impressionante era que, nos limites de seu corpo e mente, Alex ainda era capaz de manter sanidade o bastante para conversar. A briga interna que sofria era evidente em seus olhos, com as espirais da loucura numa constante guerra para assumir o domínio absoluto.
"Essa força… será que eu ainda consigo defender?"
Vast sorriu, zombando da própria ingenuidade. A vitória tornou-se impossível a este ponto.
Se Alex quisesse, ele poderia ter colocado toda sua energia no atributo de Força, ultrapassando o teto de 100 pontos, mas optou por manter uma parcela em Inteligência e evitar que a habilidade que se desfizesse antes do tempo.
Mesmo tomado por raiva e impulsividade, ele ainda pensou até este ponto. Não havia mais como competir. Por isso que, em mero sinal de respeito ao esforço do vampiro, Vast reagiu.
Com o Atirador Rubro, atravessou várias faixas de sangue elástico de uma ponta a outra da entrada de seu gol, criando uma rede feita com várias camadas sobrepostas. Visto de longe, parecia um portal que levava para um mundo de carne. Para completar, segurou os dois bastões de seu nunchaku juntos e criou uma extensão, improvisando um taco.
Alex deu um largo sorriso em resposta. Os capangas que havia criado foram destruídos em seus últimos chutes, deixando o caminho para o gol da vitória livre de obstáculos.
— Continua lutando mesmo diante o fim? É difícil dizer se você é corajoso ou cego à verdade.
Tudo que foi perdido naquele dia, os vestígios que guardou em seu peito e que agora perfuravam seu coração imóvel, Alex poderia finalmente gritá-los contra um oponente sem chance de se defender.
Isso era o que pensava, pois como sempre Vast foi certeiro em suas palavras.
— Como príncipe, também é meu dever carregar as angústias de meus súditos, só assim eu posso dar meu melhor para resolvê-las. Eu não preciso que me conte nada.
Seus olhos de obsidiana cintilaram, prontos para receber qualquer ataque que viesse.
…Apenas me mostre.
Alex paralisou por um breve instante, para então abrir um sorriso largo que alcançava suas orelhas. Era isso!
Sem a necessidade de quaisquer palavras, a única coisa que precisava agir eram seus corpos. A forma mais primitiva de comunicação, ao mesmo tempo uma das mais verdadeiras.
Com a bola aos seus pés, a perna monstruosa do vampiro fez um arco de 180°, ficando acima de sua cabeça antes de descer com força total.
O que Vast presenciou nesse instante foi um impacto tão poderoso que sequer emitiu som, ao invés disso, o que tomou o campo foi um clarão de luz tão intenso que fez o príncipe pensar que o próprio sol havia despencado do céu.
Tendo se preparado de todas as formas para defender algo imparável em seu próprio conceito, o príncipe se viu incapaz até de tentar essa proeza, ocupado demais protegendo os olhos da luz a queimar sua pele.
Foi então que, no segundo seguinte que a luz surgiu, ela também se dissipou.
O que Vast pensou serem minutos de agonia onde sua pele era queimada se revelaram num momento tão curto quanto um piscar de olhos. E foi dentro desse intervalo minúsculo que algo aconteceu.
A bola de padrão xadrez estava no chão, ainda ao lado de Alex. Ele, entretanto, jazia ainda de pé, agora isento de uma cabeça.
A situação antes e depois do flash de luz era como o dia e a noite. Sua estatura retornou para a forma normal, os braços pendiam pendurados nos ombros e, apesar de uma pequena demora, as pernas eventualmente cederam e o corpo caiu de costas no chão.
Atrás dele havia uma estaca feita de pura luz fincada no chão, a causadora da tragédia, manchada pelos restos do crânio do vampiro.
INTERFERÊNCIA EXTERNA IDENTIFICADA!!
JOGADOR VAST LOS FILHO PENALIZADO: CARTÃO VERMELHO
Uma vez que o feixe de luz explodiu a cabeça de Alex, seu corpo começou a se desfazer em névoa mística assim como qualquer vampiro, destinado a desaparecer completamente dentro de poucos minutos.
Por mais que quisesse, o tempo para lamentar foi tirado de Vast pelo aviso de cartão vermelho. Devido ao colapso do campo criado pela habilidade vampírica, as ruínas da pequena cidade se fizeram visíveis outra vez, imediatamente cobertas por uma barreira.
Bolas de estampa xadrez surgiram no ar, uma atrás da outra e sem sinal de parar, como um enxame furioso de abelhas que finalmente encontrou aquele que destruiu sua colmeia.
Nesta situação, não havia nada que o príncipe pudesse fazer.
Bam!
E assim se fez. O primeiro impacto foi como o coice de um boi, seguido de outro, e outro, e mais outro, e mais outro! A sequência continuou por o que pareceram horas, a voz do narrador deixando de comemorar gols para se tornar o combustível a incentivar a obliteração daquele que optou pela trapaça.
Ondas de choque atravessaram cada centímetro de seu corpo, ecoando até os ouvidos mais distantes como as explosões que prenunciam o fim de uma estrela. O chão era marcado por pequenas crateras, gradualmente inundadas por sangue.
Mesmo assim, Vast permaneceu de pé o tempo inteiro. Não se podia saber ao certo como, mas ele continuou firme. Suportando a chuva de meteoros sem soltar um único resmungo de dor.
Fato era que essa cena era apenas aterrorizante, tanto que, independente de quem o vigiasse nesse momento, não ousou se aproximar até sua pessoa estivesse completamente nocauteada no chão.
Quando abriu os olhos, Vast se deparou com um ambiente inédito.
As pernas pesavam o dobro, amarradas por correntes cuja outra ponta se conectava à largos blocos de aço. O mesmo valia para os braços, com a diferença que estavam erguidos para cima e dormentes devido à falta de circulação do sangue.
Estava com as mesmas roupas, porém deu falta do Atirador Rubro no braço direito e também de seu nunchaku.
"Esse lugar não é familiar de forma alguma, nem sinal de pistas que indiquem onde eu estou."
De joelhos no centro de uma pequena sala, a única parede que diferia da rocha maciça tinha grades de metal impedindo sua fuga. Do outro lado dessas, uma pessoa que, ao notar que o prisioneiro acordou, saiu com urgência para anunciar o ocorrido e retornando acompanhada.
— Fico feliz que sobreviveu. Não tínhamos ninguém com uma habilidade de cura, então restou torcer para que seu corpo conseguisse se recuperar sozinho. Verdadeiramente esplêndido, Príncipe Vast!
Assim que seus olhos se acostumaram à escuridão, tiveram o desprazer de ver a familiar denúncia do inimigo natural dos Amaldiçoados.
Vampiro Original
Força 84/100
Agilidade 50/100
Inteligência 65/100
Engoliu em seco, a saliva rasgando a garganta.
— Você é o Verdadeiro Sol?
— Alguns me chamam assim, mas é só um apelido.
Esperando um mestre das trevas, encontrou alguém pronto para um dia de praia.
Fazendo questão de exibir o corpo torneado, Vast agradeceu internamente o pudor mínimo de usar uma bermuda. Para além dela, os únicos adereços de roupa que usava eram as sandálias de couro e um colar com dentes e formas dos mais diversos tamanhos.
Era como um surfista que se perdeu, muito, muito, mas muito longe do mar.
Apesar dessa apresentação que beirava o cômico, Vast manteve a compostura digna de um príncipe.
— E posso saber por que estou aqui?
Evitava falar em voz alta para evitar dar ideias à criatura. Seu destino menos cruel teria sido a morte nas mãos de Alex, e uma vez que essa realidade passou, devia ao menos se preparar mentalmente para uma possível tortura.
— Claro, não é nenhum segredo. Sendo honesto, minha primeira intenção quando te vi indo para Ormstade era te eliminar, mas descobri que você pode ser útil no meu objetivo.
Se lembrou do olho observando das nuvens. Um arrepio subiu-lhe à espinha. Era sua primeira dica, anotada mentalmente.
…Eu quero te testar, só isso!
Atordoado pela resposta simplória, o príncipe vestiu um semblante confuso. O vampiro suspirou em resposta.
— Vai ser mais fácil fazer do que falar. Snap!
No estalar de seus dedos, dois humanos de maior porte físico entraram na cela e soltaram Vast de suas algemas, que obviamente não perdeu tempo.
Independente do quão fortes fossem, os guardas ainda eram humanos comuns, portanto foram nocauteados por Vast num único movimento. Era impensável que eles suportassem a força duplicada da [Mutter].
— Não precisava ser tão rude, eles só te soltaram. Enfim, me siga.
O príncipe estalou a língua diante da soberba do vampiro, saltando para um ataque contra suas costas desprotegidas.
Sem o Atirador Rubro ou o nunchaku, o combate seria corpo-a-corpo. Longe de ser um problema. Construindo o máximo de impulso possível, o braço direito de Vast pareceu ser disparado de uma catapulta, seu punho era a rocha que destruiria o castelo que arrogantemente bloqueava seu caminho.
Trish! Mas ao invés de uma onda de choque, ouviu o que parecia uma vidraça se partindo.
Diversos fragmentos de luz pairavam pelo ar, uma barreira que só se tornou visível após sua destruição. O punho do príncipe, por sua vez, foi parado a poucos centímetros de atingir o alvo.
Das costas do vampiro estendeu-se um braço, agarrando firmemente o punho que ameaçava o mestre. Outros então brotaram, dos ombros e cintura, mãos que brilhavam como um pedaço do sol alcançaram o braço de Vast e o agarraram com força.
— AARGH!!
Pela primeira vez, o príncipe gritou de dor. A mera aproximação dos membros de luz vaporizou sua roupa em contato, o toque direto com a pele revelou a carne viva parcialmente queimada. Passou do ponto.
O toque durou menos de um segundo, e o que restou após ele foi um braço direito marcado por diversas manchas carbonizadas no formato de mãos.
— Deixa isso para quando chegarmos na arena, eu quero observar com cuidado.
O vampiro sequer lhe encarou para falar isso, prosseguindo sem pausa escada acima, para fora da prisão.
Raspando os dentes para conter os resmungos de dor, Vast analisou seus arredores. Não havia nenhuma saída além daquela usada pelo vampiro, a rocha sólida impedindo qualquer possibilidade de cavar até a superfície.
Sem mais alternativas, seguiu com cautela. Cada degrau que subia era uma maneira de escapar que sua mente considerava, acumulando, adaptando e aprendendo. Mesmo que a situação fosse a pior possível, as chances só chegavam a zero quando seu corpo estivesse morto no chão.
Quando pisou no último degrau, sua determinação atingiu o ápice. Havia um Vampiro Original diante de seus olhos, mas e daí? Para aqueles que ameaçavam a ordem de Von Legurn e a segurança das boas pessoas de La Serva, existia apenas um destino.
— Extermínio! Extermínio! Extermínio! Extermínio!
Assim que saiu do porão onde estava preso, aquela única palavra invadiu seus ouvidos.
"Que mer…! Que droga de lugar é esse?!"
Largo como o campo de futebol criado por Alex, o ambiente se tratava do interior de uma estrutura cilíndrica. Sem janelas, era impossível dizer se construída acima ou abaixo da terra, a iluminação vinha somente da luz natural que entrava por um buraco tão alto que parecia um grão de areia.
Por um breve momento, Vast pensou estar no interior da Torre, descartando a possibilidade unicamente pelas presenças existentes ali. Se recusava a acreditar que o local sagrado para muitos era o lar de vermes.
As frestas nas paredes metálicas davam espaço para a plateia que gritava "Extermínio" em sincronia. Humanos e vampiros se misturavam em paz, se é que podia ser chamada dessa forma. Se uniam para comemorar a violência que estava prestes a se desenrolar.
No centro da arena, o vampiro se colocava de pé, chamando Vast com um sinal sugestivo de mão. Seu corpo emitia um fraco brilho, mas que intensificava gradualmente.
— Vamos ver do que é capaz. Dê o seu melhor, Príncipe Pobre!
