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ETHOS · Capítulo 10: A Quebra e o Retorno
ETHOS

A Quebra e o Retorno

por Vitor Custodio1.944 palavras~9 min

Os dias foram passando.

Lentamente.

Um por vez.

À noite, Ethos passava horas encarando o teto.

O sono não vinha.

E quando vinha, era em breves pedaços.

Do outro lado da parede, vinha um som baixo. Abafado.

Ophélia chorando. De novo.

Ela era cuidadosa. Prendia os soluços, assoava o nariz baixinho, tentava não ser ouvida.

Ethos ouvia mesmo assim.

E doía.

Outro dia.

Ophélia preparava o café da manhã, como de costume.

— Ethi! Íris! Venham comer.

A pequena garota desceu as escadas com os cabelos em pé, coçando os olhos.

— Viu seu irmão? — perguntou Ophélia.

— Estou aqui! — A voz veio da rua.

Ethos abriu a porta de casa e tirou as botas antes de entrar.

Ophélia franziu a testa de leve.

— Onde você estava tão cedo?

Ethos se sentou à mesa com o olhar baixo.

— Fui cuidar das batatas. Depois fui treinar um pouco.

— Tão cedo?

— Perdi o sono.

Ophélia mexia o café devagar. A colher girava dentro da xícara, uma volta após a outra, mas ela não bebia.

Seus olhos inchados acompanhavam a fina fumaça que subia.

Até que ela desapareceu.

Ophélia continuou olhando para o mesmo lugar.

O café já estava frio.

E a colher ainda girava.

Ethos via.

Não falava nada.

Não sabia o que dizer.

Tinha vontade de abraçar a mãe. Dizer que ficaria tudo bem.

Mas como poderia?

Talvez não ficasse.

E se começasse a chorar?

Não podia.

Não agora.

Não aqui.

Não para ela.

Ophélia continuava diante da xícara fria.

Mesmo assim, havia levantado cedo.

Preparado o café.

Chamado os filhos.

Ele baixou os olhos para o prato.

Ela consegue.

Então ele também precisava conseguir.

Afinal…

Eu causei tudo isso.

Lembrou do pai sob a sombra da árvore, depois de um treino.

Um dia chegaria o momento em que precisaria ser forte.

O momento havia chegado.

Você vai se orgulhar de mim, pai.

Não podia ser fraco.

Tinha que suportar. Se adaptar. Superar. Ficar mais forte.

Do outro lado da mesa, Íris comia tranquilamente, balançando os pés sob a cadeira. Quase como se a realidade ainda não a tivesse alcançado.

Talvez a inocência das crianças torne as coisas mais leves.

Ethos terminou o café e voltou a treinar.

PAC! PAC! PAC!

Ele treinava.

Todos os dias.

Sem parar.

Chhh...

A chuva seguia.

Leve.

Ethos encarava o prato de comida, sem fome.

Ophélia mexia o chá devagar. Já estava frio.

Íris puxou a manga da camisa de Ethos.

— Ethii... Vamos brincar? Você prometeu que brincaria comigo quando voltasse.

Ethos respirou devagar.

Longo demais.

— Hoje não dá, Íris.

— Mas nunca dá... você só quer saber de treinar. Só um pouquinho! Por favorzinho...

— Íris, não!

— Depois que você voltou virou um chato. O papai sempre...

— ELE NÃO TÁ MAIS AQUI, ÍRIS!

Silêncio.

Chhhh...

A chuva era indiferente lá fora.

Ophélia se levantou e foi em direção a Íris.

Íris o encarava com os olhos arregalados, cheios d’água.

Ethos se viu neles.

E não se reconheceu.

O que ele disse, enfim, chegou aos seus próprios ouvidos.

Ele odiou a própria voz.

— Ethi... ela é só uma criança. — A voz de Ophélia falhou enquanto puxava Íris para junto do corpo.

— Íris... eu... — A voz não saía. — Eu...

O chão parecia ceder sob seus pés.

Seu coração saltava no peito.

Sentia um gosto amargo na boca.

Ethos deu as costas e correu para fora de casa.

Pegou as duas espadas de treino.

E golpeou a árvore.

PAC!

Mais forte.

PAC!

Mais rápido.

PAC-PAC-PAC!

A chuva caía.

A água escorria por seus dedos e se misturava ao sangue das mãos.

Ele não sentia a chuva.

Não sentia a dor.

PAC! PAC! PAC! PAC!

Continuou golpeando.

Chhhh...

Ophélia estava parada na porta.

Íris, agarrada em sua saia, chorava baixinho.

Ela tentou...

Tentou ser forte.

Tentou resistir.

Tentou ser a mãe que seus filhos precisavam.

Mas seus ombros cederam.

Chhhh…

Ophélia deu alguns passos.

As pernas falharam.

Caiu de joelhos na lama.

Arni... O que eu faço? Você sempre sabia o que dizer nessas horas…

Ophélia levou as mãos ao rosto.

E chorou.

Íris se agarrou às costas da mãe e chorou junto.

Então ele ouviu.

O som do choro das duas atravessou a chuva.

Ethos parou.

As espadas, manchadas de sangue, caíram no chão.

Ele se virou devagar.

E, enfim, enxergou as duas.

Chhhhh…

— Mãe... — A voz de Ethos saiu quebrada. — Eu não...

Ophélia se levantou. Íris veio junto.

As duas o abraçaram.

Ethos finalmente chorou.

— Eu... — O ar falhou entre as palavras. — Eu tô com tanta raiva.

— Tá tudo bem, filhote!

Ophélia pegou as mãos machucadas de Ethos. Um brilho cinza suave surgiu.

— Mas o que eu faço... — Ethos puxou o ar entre os soluços. — O que eu faço com essa raiva?

— Eu também não sei. Mas que tal a gente tentar descobrir juntos?

Chhh...

A chuva seguia indiferente.

— Mãe... Íris... eu… — A voz falhou novamente. — Me desculpa...

Ophélia o abraçou ainda mais forte.

Ethos procurou Íris com os olhos.

A menina não disse nada.

Apenas agarrou um pouco mais forte a camisa dele.

— Lembra o que seu pai sempre dizia? — sussurrou Ophélia. — “Um passo de cada vez.”

Chhh...

A chuva caía.

Ethos chorava.

Ophélia chorava.

Íris chorava.

E continuavam abraçados.

Os dias passaram.

Em algumas manhãs, Ophélia ainda esquecia o chá sobre a mesa.

Em outras, bebia antes que esfriasse.

Íris voltou a correr pela casa.

Ethos voltou a sorrir de vez em quando.

E continuou treinando.

PAC!

Os dias viraram semanas.

PAC!

As semanas, meses.

PAC-PAC-PAC!

O mundo seguia igual.

O vento batia.

O sol brilhava.

Ethos treinava.

Ao fundo, baixinho, veio a voz de Ophélia.

— Sim... Ele disse que não vai para a academia...

Uma voz de homem respondeu.

— Como não? Esse pirralho cresceu dizendo que queria conhecer o mundo. Vou falar com ele.

Tharion caminhou até o quintal.

Ethos continuava golpeando o boneco de treino.

Punho firme, dentes cerrados.

Nem piscava.

PAC-PAC!

PAC-PAC!

— Ethos — chamou Tharion.

PAC-PAC!

Ethos não respondia.

— Ethos! — A voz veio mais firme agora.

PAC-PAC... PAC-PAC...

O suor pingava do queixo. Os dedos apertavam a espada de madeira até os nós embranquecerem.

Uma mão coberta de cicatrizes agarrou o braço de Ethos.

Tharion o puxou para trás.

Ethos se virou.

— Vovô? Eu... não vi o senhor aí.

— Eu percebi. — Tharion franziu a testa. — O que pensa que está fazendo?

— Treinando...?

— Você não está treinando, tá se matando!

Ethos abaixou o olhar.

— Não, vô. Tá tudo bem... Preciso terminar aqui.

— Não! Preciso falar com você. Sua mãe me falou que você não vai para a academia. Que história é essa?

— Ah, vô, eu não quero falar sobre isso.

Ele se virou e voltou a golpear.

PAC-PAC!

Tharion franziu ainda mais a testa.

Ele agarrou o braço do garoto outra vez — dessa vez, com força.

— Eu não terminei!

Ethos nem se virou.

— Tá bom, vô. O senhor precisa de mais alguma coisa?

Tharion bufou.

— Eu já te falei, você vai acabar se machucando treinando dessa forma. Vem cá, eu te ajudo a treinar e depois conversamos.

Ethos suspirou.

— Vovô... o senhor vai acabar se machucando. Eu tô bem!

— Me machucando? — Uma veia saltou de sua testa. — Com quem pensa que está falando?

— O senhor já não tem mais idade para isso, vô. Não quero te machucar.

Tharion ficou imóvel por um instante.

Virou-se, como se fosse embora.

Ethos levantou as espadas de madeira para voltar a treinar.

TSHHH...

Madeira raspou contra a terra.

Ethos olhou para trás.

Tharion estava alguns metros adiante. Com a ponta da espada de madeira, havia traçado um círculo ao redor dos próprios pés.

Depois apoiou a arma no ombro.

Ethos congelou por um instante.

Por um segundo, viu o pai.

Tharion sorriu.

— Vem, garoto. Me mostre do que é capaz!

Ethos abaixou o olhar e apertou os cabos das espadas.

— Vovô, não quero te machucar!

O sorriso de Tharion desapareceu.

— Em que universo você acha que pode me machucar? Tá comendo merda? Deixa de ser arrogante, pirralho. Vendo você treinar, fica claro que seu pai não te ensinou nada!

— Não fala dele!

— É a verdade. Você tá aí todo arrogante... mas continua sendo fraco.

Ethos parou.

Sua mandíbula enrijeceu.

— Eu sei que sou fraco... — A voz saiu quebrada. — Você não entende!

— Nessa família, a gente se entende pelas espadas! Anda, me dê seu melhor golpe. Se me tirar daqui, deixo você em paz!

— Se você insiste…

Ethos baixou o corpo.

Os dedos apertaram os cabos das espadas.

Rangeu os dentes.

Correu.

Cada passada mais pesada que a anterior.

Seus músculos se contraíram.

Fechou os olhos.

E golpeou.

Raiva.

Culpa.

Fúria.

Dor.

Tharion?

Não se mexeu.

Ethos esperou até o último instante.

Ele ia defender. Tinha certeza.

Afinal, o avô já tinha servido no exército.

Mas não.

Tharion recebeu o golpe de frente.

PLEC!

Os olhos de Ethos se arregalaram.

Fragmentos de espada voavam diante de seus olhos.

Tharion?

Uma montanha.

Imóvel!

Ethos?

Só um garoto apavorado!

Ele largou o que restou das espadas no chão.

Caiu de joelhos.

Sem voz.

Sem ar.

— Eu sou tão... fraco.

Tharion respirou fundo.

— Eu entendo, garoto.

Ethos ergueu os olhos.

Tharion ficou em silêncio por um instante.

— Ele era meu filho também.

Vushhh…

Uma brisa passou.

Ethos arregalou os olhos.

Tharion se abaixou diante dele.

— Me conta. O que está acontecendo com você?

Ethos apertou o punho contra o chão.

— Eu... preciso ficar mais forte, vô. Ele me pediu pra cuidar delas. Mas sem ele... eu não sei o que fazer.

Ele baixou a cabeça.

— Eu tô perdido.

Tharion pousou a mão sobre sua cabeça.

— Garoto… você não está sozinho.

Os olhos de Ethos se encheram d’água.

— Vovô, eu... — A voz falhou. — Eu não quero perder mais ninguém.

Tharion ficou imóvel.

Então puxou o neto contra o peito.

— É… — murmurou.

Ethos sentiu os braços do velho apertarem um pouco mais.

— Eu também não.

Com o queixo apoiado sobre a cabeça de Ethos, Tharion fechou os olhos.

Duas lágrimas escorreram por seu rosto.

Ficaram assim por alguns segundos.

— O que eu faço, vô? — murmurou Ethos.

— Sei lá.

Ethos ergueu o rosto.

Tharion soltou um pequeno sorriso.

— Tá olhando o quê? Eu só aprendi a lutar.

Ethos soltou uma risada curta pelo nariz.

— Mas sei de uma coisa. — Tharion bagunçou o cabelo dele. — Sua mãe não é de vidro. E eu muito menos.

Ethos baixou o olhar novamente.

— Eu tô com medo, vô. Medo de não ser o suficiente de novo.

O sorriso de Tharion diminuiu.

— Sabe… não importa o quanto você treine. Esse medo não some.

Ethos permaneceu em silêncio.

— Mas você não precisa carregar tudo isso sozinho.

Ethos olhou para o avô novamente.

Tharion abriu um sorriso.

— Vá, garoto. Conheça o mundo como sempre quis. Fique mais forte no caminho, se esse é o seu desejo. Mas sem essa merda de tentar resolver a vida inteira hoje. Um passo de cada vez.

“Um passo de cada vez.”

Ethos lembrou do pai.

Tharion apoiou a mão sobre seu ombro.

— Aproveite sua juventude, garoto. Hahahá! Você ainda tem muito o que viver.

O vento batia.

O sol brilhava.

Os dois se abraçavam.

As cores, aos poucos, voltavam.

E a chuva...

Hoje não caía.

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