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ETHOS · Capítulo 5: O Teste
ETHOS
cap. 6

Capítulo 5: O Teste

por Vitor Custodio2.644 palavras~12 min

O vento batia frio naquela manhã.

Ethos caminhava junto de sua mãe pelo longo caminho na floresta. Roía as unhas, com a mente distante.

Pah!

Um tapa na mão.

— Tira o dedo da boca, Ethi! — reclamou Ophélia. — Você já tem quinze anos, não tem mais idade para fazer isso. Parece seu pai com esse dedo podre na boca.

— Foi… mal, mãe — respondeu, passando a mão atrás da cabeça. — Nem percebi.

Vendo sua reação, Ophélia suspirou e apoiou sua mão sobre o ombro do garoto.

— Sei que você está ansioso. — Ela abriu um sorriso doce. — Mas não precisa se preocupar. Sei que você vai se sair bem no exame. Sendo sincera, você sabe muito mais do que deveria para sua idade.

Mesmo ouvindo aquilo, ele seguia a caminhar olhando para o chão.

— Você é minha mãe. Claro que vai dizer essas coisas.

Ophélia inflou levemente as bochechas e bateu o pé no chão.

— Sou sua mãe, mas também sou sua professora, mocinho. Sei muito bem o quanto você estudou e praticou pra isso. E sei o quanto quer entrar na Academia depois de tudo que o senhor Léo contou. Confia em mim, você vai conseguir.

Ela estufou o peito e deu um sorriso largo.

— A mamãe nunca erra. Pode perguntar pro seu pai!

Hahahá! — Ethos deixou escapar uma risada. — Ele disse mesmo algo assim…

O garoto suspirou fundo e chutou uma pedrinha no caminho.

— Mas não é só pelo que Leo disse. Você e o pai se conheceram lá, não foi? Sempre me contaram histórias da época da academia... Quero conhecer aquele lugar com meus próprios olhos.

Ophélia abriu um pequeno sorriso.

O vento carregava algumas folhas enquanto eles seguiam caminhando. Pouco tempo depois, chegaram a uma parte mais aberta da floresta.

— Mãe, você pode me explicar de novo sobre os sete elementos? Quero ter certeza de acertar tudo o que puder.

— Claro!

Ela ergueu uma das mãos, e uma luz vermelha surgiu. Pequenos pedregulhos e terra subiram do solo e começaram a girar, flutuando sobre sua mão.

— O vermelho representa a terra. É o elemento da raiz, da estabilidade. O eu sou.

Em seguida, uma luz laranja envolveu sua mão. Pequenas gotas se aglomeraram no ar até formar uma esfera de água sobre sua palma.

— O laranja é a água. O elemento sacral, da criatividade. O eu sinto.

Ethos observava atento. Acompanhava cada movimento da mãe sem piscar. Era incrível a sutileza e precisão dela com a magia.

— Mais em cima, temos o...

— Plexo solar — interrompeu Ethos. — Amarelo do fogo.

Um brilho amarelo emanou da mão de Ophélia. Ela estalou os dedos e uma chama se formou.

— Muito bem! — continuou. — Fogo é o elemento da confiança, o eu faço.

— Igual o pai, excesso de autoconfiança. Hahahá!

— Seu pai está mais para um chato. — Ela riu junto. — A próxima... você sabe?

— Ah! Essa eu sei!

Ethos sorriu e um brilho verde surgiu de sua mão, fazendo uma corrente de ar girar sobre a palma.

Verde é o vento, o elemento do coração.

— Ele combina muito com você, filho. — Ophélia passou a mão pelos cabelos de Ethos. — É o elemento do amor, o eu amo.

As bochechas de Ethos ficaram levemente vermelhas.

— T-Tá bom, mãe, vamos seguir... Eu não me lembro do próximo.

Ophélia fez uma fina camada de terra se erguer e pairar sobre sua mão. Então, uma luz azul surgiu. Um som agudo, semelhante ao canto de um pássaro, ecoou enquanto os pequenos grãos começaram a vibrar.

— O azul é o som. Elemento da garganta, da comunicação. O eu falo.

Ethos observou atentamente a terra vibrando.

— Eu ainda acho estranho pensar que o som é a vibração das coisas. O que a gente escuta é o ar vibrando... isso ainda não faz muito sentido pra mim.

Ophélia riu de leve.

— É bem estranho mesmo. O próximo é o terceiro olho, o eu vejo... mas a mamãe não consegue te mostrar esse.

Ah! — interrompeu Ethos. — A cor de anil, certo? O elemento da mente. Esse é o que menos entendo.

— Isso. Ele é muito raro e ninguém sabe ao certo como funciona. O segredo de como obtê-lo é guardado por poucas pessoas.

Ethos levou as mãos à cintura.

— Pelo menos não vão perguntar sobre na prova, né!?

Hahahá! — Ela riu alto.

Ela tomou um pouco de ar antes de continuar.

— Por último… vejamos… Temos o violeta. É tão raro quanto o anil. Representa o eu sei. É o elemento espiritual.

Ethos levantou as sobrancelhas.

— Desse eu tenho medo. Vovô me contou que as pessoas com esse elemento geralmente são doidas.

— Não é bem assim — respondeu Ophélia. — São pessoas diferentes, eu diria. Eu conheci uma maga espiritual que gostava de falar com as árvores. — Ela deixou escapar uma risada sutil. — Mas era uma ótima pessoa.

— Eu hein… falar com árvores?

Os dois voltaram a caminhar. Por alguns instantes, apenas o som dos passos e das folhas ao vento acompanhou o caminho.

De repente, Ethos se virou para a mãe.

— Depois do teste podemos ver os dragões? Por favor…

Ophélia levou a mão ao peito.

— Que susto, Ethi. Eu tava distraída… — Ela soltou o ar. — Se der tempo, podemos ir sim. Mas vai depender da hora que você for chamado.

— Tá bom!

E continuaram a viagem até chegar ao vilarejo.

Era um lugar pequeno e tranquilo. As casas se espalhavam sem muita ordem, separadas por ruas estreitas que se cruzavam de maneira irregular. Pessoas iam e vinham entre elas, algumas carregando cestos e outras parando para conversar pelo caminho.

Ethos só estivera ali algumas vezes. O vilarejo ficava a algumas horas de caminhada de sua casa, e a única pessoa que conhecia por lá era Math, seu amigo de infância, que ainda o visitava de tempos em tempos. A mãe dele era amiga de Ophélia.

— Chegamos, Ethi.

Ophélia parou diante de um edifício bem maior que as construções ao redor, com várias janelas e uma grande porta de madeira.

— Essa é a escola. É aqui que vai ser o teste.

As mãos de Ethos começaram a suar. Seu coração disparou e sua boca ficou seca.

— Pode entrar… — Ophélia deu um leve empurrão nas costas do garoto. — Eu não posso te acompanhar, então, vou ficar fazendo compras. Me encontra por lá quando acabar, tá bom?

Ethos segurou o próprio braço e deu alguns passos em direção à escola.

— T-ta bom, mãe.

— Filho.

Ele parou.

Ophélia se aproximou e o abraçou por trás.

— Vai ficar tudo bem. Faça o seu melhor e você vai conseguir.

Ethos respirou fundo e soltou o ar lentamente.

— S-Sim! Eu consigo!

Forçou um sorriso e seguiu em frente.

Assim que atravessou a porta, Ethos entrou em um longo corredor. Algumas placas indicavam as salas onde os testes seriam realizados.

Ele seguiu as orientações até encontrar a sua.

Ao entrar, encontrou cerca de vinte jovens já sentados diante de pequenas carteiras. Alguns conversavam baixo, outros revisavam anotações às pressas. Ethos não reconhecia nenhum deles.

Escolheu uma carteira vazia mais ao fundo e se sentou.

Suas pernas não paravam quietas.

Calma. Eu estudei pra isso, pensou.

Pouco depois, um homem entrou carregando uma pilha de folhas. Era idoso, com poucos cabelos brancos restando na cabeça. Um par de óculos redondos repousava sobre o nariz, marcado por algumas pequenas verrugas. Sua expressão era de puro tédio.

— Muito bem, prestem atenção. — Ele ajeitou os óculos. — Me chamo Hélion e sou o responsável pela avaliação dessa vez. A primeira etapa será uma prova escrita. Vocês terão duas horas para responder às questões. Quando terminarem, deixem a prova sobre a mesa e aguardem até serem chamados.

As folhas começaram a passar de mão em mão até uma delas chegar a Ethos.

Ele a virou.

Respirou fundo.

E começou.

As primeiras questões eram simples. História, princípios básicos da magia, identificação dos elementos... boa parte daquilo Ophélia já havia feito Ethos repetir dezenas de vezes.

Aos poucos, sua perna parou de balançar.

Isso não é tão difícil.

Pouco tempo depois, já havia terminado a prova.

Ethos encarou a última resposta por alguns segundos e deixou a pena sobre a mesa.

A mãe tinha razão, foi mais fácil do que pensei.

Ethos se levantou com a prova nas mãos e caminhou até a mesa.

O velho ergueu os olhos por cima dos óculos.

— Já terminou?

— Sim, senhor.

Hélion olhou para o relógio na parede, ajeitou os óculos e depois olhou para o garoto.

— Hm... deixe aí e volte para o seu lugar.

— Tá bom.

Ethos retornou à carteira.

Algum tempo depois, todos haviam terminado e aguardavam os resultados.

Hélion entrou na sala com a pilha de provas corrigidas nas mãos.

— Quem eu chamar pode vir buscar o teste.

E, um a um, os nomes foram chamados.

Alguns saíam com um sorriso de satisfação no rosto. Outros deixavam a sala cabisbaixos, claramente decepcionados com o resultado.

Apesar de confiante, Ethos começou a roer as unhas.

E se eu entendi errado? E se eu marquei errado? Eu deveria ter revisado a prova mais uma vez…

Os candidatos foram deixando a sala.

Um após o outro.

Até restarem apenas Ethos e Hélion.

O velho olhou para a última prova em suas mãos. Ajeitou os óculos.

— Ethos Emetiel!

— Aqui!

Ele se levantou e caminhou até o professor.

Hélion guardou a prova junto às demais.

— Venha comigo.

Ethos engoliu seco.

— O-ok…

Merda… será que não passei?

Eles caminharam até outra sala. Havia uma mesa de escritório, duas cadeiras e alguns armários ao fundo.

Hélion apontou para uma das cadeiras.

— Sente-se.

Ethos obedeceu. O professor foi até um dos armários e começou a procurar alguma coisa.

— Você quer se candidatar para a Academia Imperial, certo?

O corpo de Ethos enrijeceu.

— S-sim…

— Imaginei.

Hélion ajeitou os óculos.

— Sou professor da Academia e um dos responsáveis pelo recrutamento de novos alunos. Já avaliei mais candidatos do que consigo lembrar. — Ele retirou um grande livro do armário. — E, acredite, são poucos os que realmente chamam minha atenção.

Ethos começou a bater o pé no chão.

Hélion colocou o livro sobre a mesa com um baque e se sentou diante do garoto.

— Você foi um deles.

Ethos piscou.

— Eu? Eu fui bem na prova?

Hélion ajeitou os óculos.

— Qualquer um acertaria um teste fácil desses. — Ele se inclinou e olhou no fundo dos olhos de Ethos. — Posso usar óculos, garoto, mas ainda sei reconhecer potencial quando vejo um.

Hélion abriu o livro. As páginas estavam em branco, exceto por estranhos símbolos desenhados ao redor das bordas.

— Por isso… vou avaliar seu núcleo.

Ethos olhou para o livro e depois para Hélion.

— Meu núcleo?

— É. Potencial não serve de muita coisa com um núcleo ruim.

Ethos engoliu seco e assentiu.

— Agora… — Hélion apontou para o livro. — Coloque sua mão dominante aqui.

Ethos apoiou a mão direita sobre a página. No mesmo instante, sentiu algo estranho, como se uma pequena quantidade de energia fosse puxada de dentro de seu corpo.

— Pronto.

Hélion retirou a mão do garoto e apoiou a sua sobre o livro.

— Vejamos…

Símbolos começaram a surgir pela página enquanto diferentes cores brilhavam entre eles.

Hélion acompanhou os resultados por cima dos óculos.

— Ar... sessenta por cento. Terra, vinte. Água, treze. Fogo, quatro... e os outros três por cento.

Ethos esperou alguma reação.

Nada.

— Isso é bom?

— Você tem um elemento predominante, mas não é nada extraordinário. — Hélion virou a página e ajeitou os óculos. — Vai depender do próximo teste.

Ethos voltou a roer as unhas.

— Como assim?

— Quanto maior a concentração de um único elemento, maior tende a ser sua afinidade com ele. O ideal é uma especialização alta.

Ethos abaixou o olhar.

Ah…

Hélion virou algumas páginas do livro.

— Agora aqui.

Ethos apoiou novamente a mão sobre o livro. A mesma sensação percorreu seu braço enquanto parte de sua energia era absorvida.

Hélion colocou a mão sobre a página.

Os símbolos brilharam.

Ele ficou imóvel.

— …

Ethos esperou.

— E então?

Hélion aproximou o rosto do livro. Os óculos escorregaram pela ponta do nariz.

Hahahá!

Ethos deu um pequeno pulo da cadeira.

— O que?!

Hélion ajeitou os óculos.

— Definitivamente você é filho de sua mãe.

Ethos arqueou as sobrancelhas.

— Você conhece minha mãe?

— É claro. Emetiel não é exatamente um sobrenome comum. — Hélion voltou os olhos para o livro. — E, com uma densidade dessas... só podia ser filho de Ophélia e Árnion.

Ethos ficou encarando o senhor enquanto ele analisava a página do livro.

— Bem… — disse Hélion, ajeitando os óculos. — Acredito que não preciso me preocupar com sua esgrima, certo?

— Meu pai me ensina desde criança.

— Claro… a esgrima dos Emetiel. Seu avô fez muitos inimigos com ela. Hahahá!

Hélion fechou o livro. Ajeitou os óculos.

— Nesse caso, não tenho mais nada para avaliar. Vou recomendar sua entrada na Academia.

Ethos ficou imóvel.

— Isso quer dizer que... eu passei?

— Calma! Eu vou te recomendar. Ainda vai ter que fazer o teste de entrada ano que vem.

Um enorme sorriso surgiu no rosto de Ethos.

— Tá bom!

Hélion soltou um suspiro e ajeitou os óculos mais uma vez.

— Uma carta com as instruções vai chegar em breve. Te vejo na capital.

Ethos agradeceu e se despediu.

...

O céu começava a se tingir de laranja enquanto o sol se punha.

Ophélia estava na frente da escola, batendo o pé no chão.

Que demora, todas as outras crianças já saíram.

Até que a porta se abriu.

Ethos surgiu do outro lado e, assim que viu a mãe, correu em sua direção.

— Mãe!

Ele se jogou nos braços dela.

— Eu consegui!

— Eu sabia! — Ophélia apertou o filho contra o peito. — Parabéns, Ethi!

Ethos abriu um enorme sorriso.

— Eu vou pra Academia!

— Eu falei que você ia conseguir. A mamãe nunca erra!

Hahahá!

Ophélia soltou o garoto.

— Mas por que demorou tanto? Fiquei preocupada.

— Foi por causa do professor. Ele me levou pra outra sala e fez mais alguns testes. Disse que conhece você e o pai.

Ophélia arqueou as sobrancelhas.

— Quem era?

— Professor Hélion.

Ela olhou para o garoto.

— Hélion?! Ele ainda dá aulas? Foi professor meu e do seu pai.

— Ah... então é por isso que ele conhecia vocês.

— E o que ele disse?

Ethos deu de ombros.

— Um monte de coisas. Falou da minha magia, do meu núcleo... e que o vovô fez um monte de inimigos com a esgrima dos Emetiel.

Ophélia soltou uma risadinha.

— É... essa parte é verdade.

Os dois começaram a caminhar de volta para casa.

— Vamos comemorar com sua comida preferida.

Ethos virou o rosto imediatamente.

— Carne ensopada com batatas?!

— Carne ensopada com batatas.

— SIM!

Ophélia riu.

— Ah, mãe... alguém precisa avisar o professor Hélion que ele precisa arrumar aqueles óculos.

Ela parou por um instante.

— Os óculos ainda ficam caindo? — Ophélia caiu na gargalhada.

— Toda hora! Ele ficava ajeitando assim. — Ethos empurrou dois óculos imaginários pelo nariz. — Era difícil me concentrar.

Os dois riram.

E seguiram pela floresta enquanto os últimos raios de sol desapareciam entre as árvores.

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