O sol brilhava forte, mas o vento leve e refrescante trazia consigo algumas nuvens de chuva. Ethos estava mais ansioso que o normal enquanto treinava com seu pai.
PLAC!
Espadas cruzadas.
— Você está animado hoje, filho — disse Árnion.
PLAC!
Ethos deu um pulo pra trás, ofegante.
— Sim! — Finalmente vou poder acompanhar você na caçada.
TAC!
Ethos se desequilibrou e rolou para o lado. Árnion permanecia estático.
— Pois é — disse Árnion. — Você já é quase um adulto, afinal. Vai ser um bom treino antes de irmos para a capital. Mas não esqueça do nosso objetivo hoje, ok?
PLAC-PLAC...
— Sim, pai. Temos que eliminar os monstros contaminados com os resquícios do mal.
TUCK!
Ethos caiu para trás.
Árnion suspirou.
— Ethi… é só um aquecimento.
Ethos rapidamente se levantou e sacudiu a poeira da roupa.
— Eu sei, pai. — Abriu um grande sorriso. — Eu só tô muito animado.
Árnion apoiou uma das espadas no ombro e sorriu.
— Hahahá! Tudo bem, mas não desperdice energia, o dia vai ser longo.
Ethos se posicionou e assentiu.
Árnion apontou uma espada para Ethos.
— Pode vir!
Ethos avançou.
PLAC!
Árnion se defendeu, sem sair do lugar.
PLAC!
Eles seguiram treinando.
— Pai — disse Ethos. — Por que precisamos caçar essas coisas? A floresta fica tão afastada…
PLAC!
— É que se a gente deixar eles soltos, a influência do mal se espalha. Então eles começam a invadir a aldeia, destroem as plantações, atacam pessoas... Um caos.
— É… isso seria um saco.
PLAC!
Árnion assentiu.
— Normalmente, não temos grandes problemas. — Ele lançou um olhar firme para o garoto. — Mas mesmo assim mantenha sua guarda sempre alta!
Ethos parou por um momento. Seu corpo enrijeceu um pouco.
Ele assentiu, respirou fundo e continuou avançando.
PLAC! PLAC!
— Por que a influência ainda existe? A guerra contra o Deus do Medo não acabou há quinze anos?
PLAC!
Árnion franziu a testa.
— Acabou. Mas os resquícios daquele imbecil continuam espalhados por aí. Animais entram em contato com eles, são contaminados e... bem, você já sabe o resto.
PLAC!
— É realmente um saco, né?
PLAC!
— Sim! É chato, mas precisa ser feito.
...
Mais tarde, naquele mesmo dia.
Ethos e seu pai estavam de partida para a floresta, enquanto Ophélia e Íris se despediam deles.
— Voltem logo, meninos — disse Ophélia, sorrindo. — E toma cuidado, Ethi. Escute seu pai e obedeça aos adultos!
— Claro, mãe — disse Ethos, apertando os lábios.
— Ethi, quando voltar você brinca comigo? — perguntou Íris em voz baixa, puxando de leve a camisa do irmão.
Ele sorriu e bagunçou os cabelos dela.
— Claro, maninha. Logo, logo a gente tá de volta.
Ophélia reparou em um pequeno ralado na lateral do braço do garoto.
— Espere, filhote. Deixa sua mãe cuidar disso.
Ela apoiou a mão sobre a ferida, fez alguns gestos com os dedos e respirou fundo. Uma luz acinzentada surgiu e, em poucos instantes, o ralado desapareceu por completo.
Ethos nunca deixava de se impressionar com a magia de cura da mãe. Só não entendia por que ela conseguia fechar feridas com tanta facilidade, mas não podia fazer nada contra uma simples doença ou resfriado.
— Obrigado, mãe.
E assim, partiram.
Algum tempo depois, Ethos seguia pela trilha com os braços por trás da nuca, cantarolando enquanto chutava uma pedrinha pelo caminho. À frente, a floresta crescia no horizonte, cada vez mais próxima.
Árnion observou o garoto por alguns instantes.
— Ethi, você se lembra de que não vamos caçar sozinhos, né? Mantenha sempre o foco na formação que eu o ensinei e não saia dela... jamais.
Ethos encarou o pai de canto de olho. Ergueu levemente o queixo e abriu um sorriso.
— Claro, pai. Vai ser moleza! O senhor me treinou bem! Hahahá!
Árnion balançou a cabeça em negativa e desviou uma grande pedra que atravessava a trilha.
— Filho, não subestime o perigo. Posso ter te ensinado muitas coisas, mas, fora dos treinos, tudo é imprevisível. E não se esqueça: se algo acontecer e a situação ficar perigosa…
— Fugir e não correr riscos — interrompeu Ethos, arrastando as palavras enquanto revirava os olhos.
Árnion sustentou o olhar sério por mais alguns segundos, mas acabou deixando escapar um breve sorriso.
— Isso mesmo… — Seus olhos se voltaram para a floresta adiante. — Esses bichos podem ser bem traiçoeiros. Só… toma cuidado.
Ethos baixou os braços e acelerou o passo até ficar ao lado dele.
— Aham! Tô doidinho pra ver como vou me sair! — Cerrou os punhos e deu dois socos no ar. — Acho que estou bem mais forte depois de todo o treino. Além disso, tenho uns truques que aprendi com o professor Leo também.
— Hahá! — Árnion apoiou as mãos na cintura. — Tudo bem, Ethi. Mas lembre-se de nunca…
Ethos caminhou alguns passos à frente e se virou de costas para a trilha, encarando o pai enquanto continuava andando.
— Baixar a guarda…
Árnion ergueu uma sobrancelha.
Ethos abriu um sorriso.
— Eu sei, pai.
Árnion sorriu de volta.
Ao longe, as copas escuras da floresta já cobriam boa parte do horizonte.
E seguiram caminhando.
Ao se aproximarem, avistaram dois homens que aguardavam na entrada da floresta.
Ethos diminuiu o passo.
O primeiro chamou sua atenção imediatamente. Era baixinho — devia ter pouco mais de um metro de altura —, tinha uma barba grisalha e espessa e carregava no ombro um martelo quase tão grande quanto ele. Pelo jeito despreocupado com que o sustentava, parecia não pesar nada.
Ao seu lado estava um homem mais alto e aparentemente mais jovem. Mantinha a postura ereta, quase rígida, com uma longa lança em mãos. Diferente do companheiro, não havia qualquer sorriso em seu rosto.
Assim que os dois se aproximaram, o baixinho abriu os braços.
— Ah se não é o pequeno Ethos! — Ele deu alguns tapinhas nas costas do garoto. — Olha como você cresceu!
O outro apenas lançou um olhar para Árnion.
— Olá, criança. — Fez uma breve pausa e olhou para Árnion. — Vocês estão três minutos atrasados.
Árnion suspirou.
— Ai, ai... chato como sempre, Cárion... — Então voltou-se para o baixinho. — E você, como vai, Durak?
Ethos encolheu um pouco os ombros diante dos dois.
— Olá... Obrigado por me deixarem participar. Espero não atrapalhar...
Durak caiu na gargalhada.
— Hahahá! Quanta formalidade, pirralho. Peguei você no colo quando era bem pequeno.
Árnion olhou para Durak de cima a baixo. Um sorriso torto surgiu em seu rosto.
— Sim, ele cresceu bastante, não? Diferente de você, velho Durak. Hahahá!
Durak bufou e apertou o cabo do martelo contra o ombro.
— Se tamanho fosse documento você conseguiria mais mulheres que eu. Hahahá!
Árnion caiu na gargalhada.
Cárion permaneceu imóvel, apoiado na lança, como se já tivesse escutado esse tipo de conversa vezes demais.
Ethos, por outro lado, baixou o olhar e coçou a nuca. Suas orelhas começavam a ficar vermelhas.
Árnion colocou uma mão na cabeça de Durak e olhou para Ethos sorrindo.
— Deixa eu apresentar eles pra você, Ethi. Esse pequenino aqui é Durak, do reino de Dvergar, lá do sul. Não se deixe enganar pelo tamanho: ele é bem durão e o melhor ferreiro que existe...
Árnion fez uma pausa e lançou um olhar para a barriga do amigo.
— Bom... pelo menos era, antes de ficar velho e barrigudo. Hahahá!
Árnion caiu na gargalhada.
— E não deixe ele chegar perto de alguma namorada sua.
Durak afastou a mão de Árnion com um tapa.
— Você é um otário mesmo, Arni. Aquilo foi só uma vez... talvez duas, mas foi um acidente!
Ele se virou para Ethos e começou a remexer em uma grande bolsa no chão.
— Toma, pirralho.
Durak retirou duas espadas e as entregou para o garoto. Em seguida, estufou o peito e alisou a barba.
— Seu pai encomendou, você tem muita sorte de ter espadas feitas por mim.
Os olhos de Ethos brilharam. Ele puxou uma das espadas alguns centímetros para fora da bainha, admirando a lâmina.
— São incríveis! Muito obrigado, senhor Durak!
Durak apenas assentiu, satisfeito.
— Muito bem... — Árnion caminhou até o homem da lança. — E esse é Cárion, o lanceiro. Ele é do continente imperial, ao norte. É meio chato, mas muito confiável.
Cárion lançou um olhar de lado para Árnion.
— Não sou chato, você que é um pé no saco.
Ethos conteve uma risada e endireitou a postura diante dele.
— É um prazer conhecê-lo, senhor Cárion.
Cárion assentiu.
Árnion bateu as mãos.
— Ok, ok! Vamos logo, antes que escureça.
E os quatro adentraram a floresta.
Aos poucos, as árvores se tornaram mais altas e próximas umas das outras. As copas se entrelaçavam acima de suas cabeças, bloqueando boa parte da luz do sol e deixando a mata escura mesmo durante o dia. O ar era úmido, pesado, e raízes grossas atravessavam o caminho por todos os lados.
Ethos olhava ao redor enquanto caminhava. Uma floresta daquele tipo não era comum naquela região.
Um arrepio percorreu seus braços. Aquele desconforto era familiar. Lembranças de quando havia se perdido em uma floresta na infância voltaram à sua mente.
Dessa vez vai ser diferente, pensou. Eu tô preparado agora. Vai ser moleza!
À frente, Durak ainda resmungava.
— Pirralho, se você for na onda do seu pai, vai morrer virgem.
Ethos abaixou a cabeça e apertou o passo, com as orelhas vermelhas.
A essa altura, já nem estava mais nervoso. Estava era com vergonha.
É só uma floresta meio assustadora. Nada demais.