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ETHOS · Capítulo 3: O Velho Leo
ETHOS
cap. 4

Capítulo 3: O Velho Leo

por Vitor Custodio1.980 palavras~9 min

Árnion e Ophélia terminavam de arrumar a mesa do café da manhã quando Ethos desceu as escadas correndo.

— Bom diaa!!

Ele se jogou na cadeira, pegou um pedaço de pão e deu uma mordida.

— Eu vou na casa do Leo hoje, tá bom? Terminei de ler os livros que ele me emprestou e vou devolver. São muito bons! Mas eu fiquei cheio de perguntas.

Ophélia sentou-se à mesa.

— Não volte tarde. Você tem que estudar, viu?

— Tá bom, mãe!

Ethos engoliu o que restava do pão e disparou em direção à porta.

— O lixo! — A voz de Árnion veio firme.

Ele freou no meio do caminho.

— Mas, pai...

— Sem “mas”.

— Tá bommm... — resmungou Ethos, dando meia-volta para recolher o lixo.

Ophélia apoiou a caneca sobre a mesa e observou Ethos desaparecer pelo corredor. Um sorriso surgiu em seu rosto.

— Quem diria… aquele velho ranzinza aceitou ensinar o Ethi.

Árnion riu.

— E pensar que você quase arrancou a cabeça dele quando descobriu.

— Claro! Nosso filho chegou em casa dizendo que tinha conhecido “um velho maluco que explode coisas”. O que você queria que eu fizesse? — Ophélia riu, balançando a cabeça. — Quando cheguei lá e vi que era o senhor Leo...

Árnion se ajeitou na cadeira.

— Pois é. Eu também não acreditei quando descobri que aquele velho estava escondido aqui perto esse tempo todo. Espero que um dia ele consiga voltar pra casa.

— Vai conseguir — respondeu Ophélia. — Tenho certeza.

Três anos antes…

— Tá vendo? — sussurrou Math. — Eu disse que a casa era assustadora…!

Escondido atrás de uma árvore, ele apertava os dedos contra o tronco enquanto espiava por um dos lados.

Ethos estava agarrado a outra árvore alguns passos adiante.

— V-você tinha razão… até que é meio assustadora — disse, tentando manter a voz firme, mas os joelhos tremiam sem parar.

— Mamãe falou que tem um fantasma aí dentro… que só de chegar perto já dá pra escutar uns sons estranhos, tipo explosões!

Ethos ficou imóvel por um instante. Então virou o rosto para o amigo, indignado.

— Mas antes de me conhecer você me chamou de fantasma também, só porque eu moro afastado…

— Mas isso é diferente! — Math cruzou os braços e franziu a testa. — Dessa vez é mesmo um fantasma!

Os dois garotos observavam aquela velha casa de madeira.

As janelas estavam quebradas, algumas telhas haviam caído no jardim e o mato crescia por todos os lados, quase engolindo a construção. Junto à entrada, uma velha placa trazia um aviso: “NÃO SE APROXIME”.

BZZZT!

Uma luz branca e intensa tremeluzia por trás da janela, acompanhada por um chiado estridente.

BZZZT!

Os garotos arregalaram os olhos.

— O que é isso? — perguntou Ethos.

Matho quase subiu na árvore.

— E-eu falei que tinha fantasmas!

Ethos voltou a encarar a casa.

— Fantasma estranho...

— Vamos embora daqui logo — disse Math, já se afastando da árvore.

— Você é um cagão — provocou Ethos, estufando o peito.

O amigo, ainda de costas, bufou e franziu a testa.

— Duvido você ir lá e bater na porta, senhor corajoso! Hahah...

Nenhuma resposta.

Math olhou por cima do ombro. Seus olhos se arregalaram.

— Ethos? Onde você vai?!

Ethos já caminhava em direção à casa.

— Ué!? Vou bater na porta. Preciso ver o que é essa luz.

Avançou devagar pelo mato, afastando os galhos com as mãos. Quanto mais se aproximava, mais apertava os lábios. Engoliu em seco, mas continuou.

Atrás dele, Math apertava cada vez mais o tronco da árvore.

— Você está maluco? Ethi, volta aqui!!

Pouco depois, Ethos estava diante da velha porta de madeira.

TOC-TOC.

— Olááá? Tem alguém aí...?

BOOOOM!

A casa inteira tremeu. O som de uma explosão fez os vidros estilhaçarem. Os garotos gritaram.

Um zumbido tomou os ouvidos de Ethos.

Ele abriu os olhos devagar, ainda atordoado.

Math já corria para longe.

Ethos correu na direção oposta.

— AAH!!... TÁ TUDO BEM AÍ DENTRO?! — gritou, disparando até a porta. — TO ENTRANDO!

Ele entrou e encontrou um homem de cabelos grisalhos completamente arrepiados. Estava coberto de fuligem da cabeça aos pés. Os óculos tinham as lentes enegrecidas, e as roupas estavam sujas e rasgadas em alguns pontos.

— O senhor está bem?

O homem piscou, confuso. Então franziu a testa.

— Quem é você? Saia já daqui! Não sabe ler as placas? Não se aproxime dessa casa!!

— Mas, senhor, você está...

— Já mandei ir embora! Não volte mais! — Ele agarrou Ethos pelos ombros e o conduziu até a porta.

Lá fora, Math esperava em pânico.

— CORRE! — gritou Ethos.

Os dois dispararam pela floresta e só pararam quando a casa já havia ficado para trás.

Math se apoiou nos joelhos, tentando recuperar o fôlego.

— Ethi, isso foi perigoso!

— Sim, esse velho é doido. Mas você viu que incrível aquela casa?! — Ele abriu os braços e abriu um grande sorriso. — Ele engarrafou estrelas! O teto parecia uma noite estrelada… só que de dia!

Math levantou a cabeça, ainda ofegante.

— Como assim estrelas? Eu não reparei nada, estava morrendo de medo. Você é maluco de entrar lá. Mamãe tinha razão, aquilo era um fantasma!

— Como não viu? Era incrível! E tinha um monte de coisas estranhas lá dentro... — Ethos passou a mão no queixo. — Acho que ele pode ser um bruxo.

— Só você mesmo para reparar nessas coisas. — Math se virou para ir embora. — Eu só queria sair de lá o mais rápido possível. Nunca mais vamos voltar aqui!

Ethos olhou uma última vez na direção da casa.

— É... Mas a casa dele era incrível...

No dia seguinte, Ethos voltou sozinho.

TOC-TOC!

— Oi, Senhor Velho Bruxo! O senhor está aí?

A porta se abriu. O homem do dia anterior surgiu do outro lado e, ao reconhecer Ethos, franziu a testa.

— Eu não mandei não voltar?! — gritou. — Você não tem medo? Aqui é perigoso!

— Até tenho... mas como o senhor engarrafou es...

PÁH!

A porta bateu na cara dele.

Ethos abaixou os ombros e deu as costas para ir embora.

TAC-TAC-TAC!

Um som metálico ecoou lá de dentro.

Ethos parou.

Olhou para a casa. Depois para o caminho de volta.

E voltou na ponta dos pés.

A janela ainda estava quebrada. Ele ergueu os calcanhares e se esticou todo para conseguir espiar lá dentro.

Seus olhos se arregalaram.

O teto brilhava como um céu cheio de pequenas estrelas. Rodas de metal giravam presas a cordas. Vidros com líquidos coloridos borbulhavam sobre as mesas. Mais ao fundo, o homem martelava alguma coisa que Ethos não conseguia enxergar.

Um estranho cheiro de queimado também vinha de lá. Lembrava a vez em que sua mãe esqueceu a comida no forno e a casa ficou fedendo por uma semana.

Será que ele queimou um bolo? Talvez esteja de mau humor por isso.

Ethos mal piscava, completamente preso ao que acontecia lá dentro.

Sem perceber, apoiou o pé em falso.

CRAC!

O homem se virou na mesma hora.

Ethos arregalou os olhos, caiu para trás e saiu correndo dali.

Mas Ethos não desistiu. Voltou no dia seguinte.

Dessa vez, a janela estava coberta por uma tábua de madeira.

Ethos franziu a testa. Deu uma volta ao redor da casa, procurando outro lugar por onde pudesse espiar.

Nada.

Nos fundos, encontrou alguns objetos de metal espalhados pelo chão. Abaixou-se e começou a mexer neles, virando algumas peças de um lado para o outro.

Não entendeu nada.

Teve vontade de levar algumas para casa, mas seria roubo sem a permissão do homem. Então colocou tudo onde havia encontrado.

Tentou a porta mais uma vez.

TOC-TOC-TOC!

— Oi... senhor velho bruxo!

Nada.

Ele foi para casa.

Mas voltou no dia seguinte.

E no outro.

E no outro.

Um dia, Ethos encontrou o homem do lado de fora e correu até ele.

Ao vê-lo se aproximar, o senhor franziu a testa e bufou.

— Você de novo?! Já mandei não voltar, fedelho!

Dessa vez, Ethos não fugiu. Parou diante dele e ficou olhando para cima, com os olhos bem abertos.

O senhor bufou novamente.

Ethos seguiu ali.

Um segundo.

Dois.

O homem estreitou os olhos.

Ethos piscou.

Os dois se encararam por mais alguns segundos.

Por fim, o homem desistiu. Virou as costas e continuou o que estava fazendo.

No fim, ele é inofensivo, pensou Ethos.

E começou a segui-lo.

Ele continuou voltando.

Aos poucos, o homem se acostumou com sua presença. Primeiro, deixou de expulsá-lo. Depois, parou de reclamar quando Ethos entrava na casa.

Talvez ele se canse, pensava.

— Se vai continuar vindo, pelo menos tome cuidado. Isso corta — reclamou, apontando para uma das peças.

Três segundos depois, Ethos se cortou.

Aaaii!!

— Eu avisei! Vem cá, deixa eu ver.

Ele pegou o braço do garoto com cuidado e examinou o corte.

— Não foi profundo. Vamos fazer um curativo.

Ethos ficou olhando para ele por alguns segundos.

— Por acaso o senhor é um bruxo?

— O quê? Eu não sou um bruxo, sou um cientista!

Ethos levantou as sobrancelhas.

— O que é isso?

O homem bufou.

— Cientistas estudam como as coisas funcionam e usam esse conhecimento para criar coisas novas.

Ethos olhou para cima.

— Hmm... Então foi você que engarrafou aquelas estrelas?

— Estrelas? Não! — Ele balançou a cabeça. — São apenas lâmpadas!

— Lâm... O que?

— Lâmpadas. São elétricas, nada demais.

— E como são feitas? O que é "e-lé-tri-ca”? É magia? Foi o senhor que fez?

O homem suspirou, irritado.

— Fedelho, você faz perguntas demais... Eletricidade e magia são energias de naturezas diferentes. Essa máquina produz eletricidade. — Ele apontou para uma caixa metálica que roncava num canto. — Se chama gerador. Agora fica quieto, porque isso vai arder um pouco.

— Tá b... Ai!! Dói!!

— Eu avisei! Estou limpando a ferida! — resmungou o homem. — Droga, eu falei pra tomar cuidado. Onde tava com a cabeça?

Um estranho objeto redondo balançava no pescoço do homem.

— O que é isso? — perguntou Ethos.

— Ah isso? Uma velha bússola.

— Bú...ssô...la. O que é uma bússola?

O homem continuou o curativo sem levantar os olhos.

— Nada demais, é somente algo que te ajuda a chegar em casa.

Ethos arregalou os olhos.

— Uau... Então com isso você não se perde? Como ele sabe onde você mora? Eu preciso de uma! A mamãe vive dizendo que tô sempre perdido. — Ele abriu um sorriso. — Esse objeto mágico é incrível!

— Não é mágico... — resmungou o homem.

— Uau…

Ele, enfim, terminou o curativo e se virou, voltando ao trabalho.

Por alguns segundos, a sala ficou estranhamente quieta.

Até que Ethos abriu a boca novamente.

— Me ensina a ser um cientista, senhor velho bruxo?

— Não! — respondeu o homem, sem sequer se virar. — E eu não sou um bruxo!! Nem velho! Meu nome é Leo!

— Senhor Leo? Eu sou Ethos, mas pode me chamar de Ethi.

— Eu não vou te chamar de nada além de fedelho.

Leo se virou para Ethos e apontou para a porta.

— Está escurecendo. Vá logo pra casa!

Ethos abriu um largo sorriso e se virou para partir.

— Até amanhã, senhor Leo!

— Não volte!

Ethos saiu porta afora.

Leo balançou a cabeça e voltou ao trabalho. Sem perceber, um pequeno sorriso surgiu em seu rosto.

De volta ao presente...

— Terminei! Posso ir agora? — Ethos surgiu no corredor com uma bolsa abarrotada de livros e algumas das estranhas engenhocas que havia pegado emprestadas de Leo.

Ophélia ergueu um dedo.

— Meio-dia, Ethi.

— Prometo!

Ele se despediu dos pais e saiu correndo porta afora.

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