PARTE 1 — AQUELE QUE DEFENDE IDEAIS
No início, havia apenas o Nada.
Então, do Nada, nasceu a Luz — e, com a Luz, surgiu a Escuridão.
Com a Luz e a Escuridão, surgiram o Tempo e o Espaço.
E nasceu a Vida.
E, da Vida, surgiu a Humanidade.
Encantada com a Humanidade, a Luz presenteou-a com as Cores, e delas brotaram as Virtudes — e, por um breve tempo, tudo foi perfeito.
A Escuridão, com inveja, corrompeu as Virtudes e criou os Pecados — sete Cores, sete Virtudes, sete Pecados.
Vendo a Humanidade ruir, a Luz concedeu seu último e mais precioso presente: o Amor, capaz de fortalecer e restaurar as Virtudes.
A Escuridão respondeu reunindo toda a sua fúria e moldou o Ódio, reflexo distorcido do Amor.
E assim iniciou o eterno conflito: Luz e Escuridão, Bem e Mal, Amor e Ódio.
Mas, bem longe de tudo isso, em um pequeno vilarejo nas montanhas, uma família de fazendeiros vivia em uma região afastada…
Capítulo 1 - O Tesouro
Tlec!
Um estalar de dedos.
Puff!
Uma chama nasceu sobre os dedos delicados de uma mulher.
Os cabelos negros de Ophélia caíam pelos ombros enquanto ela depositava a pequena chama sobre uma pedra negra, acendendo mais uma das bocas do fogão. O fogo refletia em seus olhos azuis enquanto ela mexia o caldo com uma colher de pau.
O cheiro de carne cozida se espalhava pela casa enquanto a água fervia lentamente.
À mesa, Árnion — de cabelos loiros desbotados, olhos castanhos quase pretos e a pele bronzeada de quem trabalha sob o sol — descascava batatas. Suas mãos, marcadas por cicatrizes, removiam as cascas com precisão. Sem desperdício.
Pac-pac-pac…
Passos apressados interromperam a calmaria.
POW!
A porta se abriu com força.
— Mamãeee...! Papaiii...! Chegueeei...! — Ethos entrou ofegante, os cabelos negros encharcados de suor, os olhos verdes ainda com a inocência de uma criança. — Passei pelo doutor no caminho. Tem alguém doente?
— Ethi... os sapatos! — disse Ophélia, apontando com uma colher de pau.
— Aahh… Tá bom... — Ele chutou as botas para o canto e se aproximou, ainda agitado. — Quem está doente? Mamãe?
Árnion respirou fundo e abriu um grande sorriso, embora as pálpebras pesadas contrastassem sua expressão.
— Quanta energia, filho... depois falamos melhor sobre isso. Agora vá lavar as mãos e venha jantar.
O menino cruzou os braços, esticando os lábios em um bico exagerado.
— Mas...
— Ethos! — interrompeu Árnion, sorrindo e balançando a batata como se fosse uma espada. — Anda logo, ou vai ficar sem jantar!
O garoto inflou as bochechas, resmungou baixinho e subiu as escadas correndo.
Árnion suspirou e cruzou os braços. Seu olhar caiu sobre as botas cobertas de terra, largadas ao lado da porta.
— Ele não para, né?
Ophélia conteve um sorriso enquanto mexia a panela.
— Sim... puxou o pai dele.
— Ah, claro…
— Pelo menos antes de você se tornar esse velho rabugento — disse ela, olhando por cima do ombro com uma sobrancelha arqueada.
Árnion se inclinou um pouco para trás e a encarou pelo canto dos olhos.
— Velho?
Ophélia nem se virou.
— Rabugento também.
Os dois riram e Árnion voltou às batatas, balançando a cabeça.
— Saudades de quando eu tinha essa energia.
Ophélia virou levemente o rosto, mordendo o lábio para segurar a risada.
— É… eu também.
Depois do jantar, Árnion terminava de lavar os pratos enquanto Ophélia ajeitava os lençóis que cobriam Ethos na cama.
— Tá confortável, filhote? — disse Ophélia, sentada à beira da cama.
Ethos assentiu, mantendo apenas os olhos de fora.
Árnion — com a parte de baixo da camisa molhada — entrou no quarto e parou atrás de Ophélia.
— Filho… — Ele apoiou suas mãos nos ombros de Ophélia. — Temos uma novidade.
Ethos se sentou na mesma hora.
— Novidade?
— Isso mesmo.
O garoto franziu levemente a testa.
— Que novidade? É sobre o doutor? Sabia que alguém estav...
— Ethi... — interrompeu Ophélia.
Ela abriu um sorriso.
Olhou para Árnion que ainda estava de pé atrás dela, sorrindo de volta.
Depois, se voltou para o garoto com os olhos já cheios d’água.
Segurou a mão dele.
Tomou um pouco de ar.
Seu sorriso abriu um pouco mais e uma lágrima escapou.
— A deusa da vida nos abençoou, filho...
Ethos apenas observava, com os olhos arregalados.
Ophélia passou a mão no rosto dele e continuou.
— Você terá um irmãozinho... ou uma irmãzinha! A mamãe está grávida!
Ethos ficou paralisado por alguns instantes. Piscou algumas vezes. A boca se entreabriu, mas nenhuma palavra saiu.
— Um... irmão? — murmurou. — Como assim...? Irmão?
De repente, seu rosto se iluminou.
— Pera, um... IRMÃO!? DEMAIS!
Ele pulou nos braços dos pais, quase derrubando os dois.
— Como aconteceu? Quando ele nasce? Quando posso brincar com ele? Vou ensinar ele a cuidar das galinhas… dos porcos também! A gente vai explorar a floresta inteira!
Ethos parou de falar por um momento, fechou o punho contra o peito e lançou um olhar firme.
— Seremos uma dupla incrível!
Os adultos se entreolharam e mais algumas lágrimas escorreram pelo rosto sorridente de Ophélia. Em seguida, Árnion se juntou à choradeira.
Ethos, ainda perdido em seus pensamentos, olhou para o pai e levantou uma sobrancelha.
— E então? Como foi que aconteceu?
Quando Árnion ia abrir a boca para começar a falar…
Pah!
— Ai!
O cotovelo de Ophélia atingiu sua barriga.
— O quê? Nem falei nada! — disse Árnion, curvando-se e apertando a barriga com uma das mãos.
— Mas ia! — Ophélia estreitou os olhos para ele, com os lábios comprimidos. Em seguida, se voltou para Ethos. — Quando você for mais velho, a mamãe te conta.
Ethos fez bico e cruzou os braços.
— Mas mãe…
— Sem “mas”. — Ela ajeitou as cobertas e deu um beijo na testa dele. — Hora de dormir, amanhã conversamos mais.
O garoto revirou os olhos.
— Tá bom…
Árnion apagou a lamparina e os pais se despediram mais uma vez antes de encostar a porta, deixando apenas uma fresta de luz entrar no quarto.
Naquela noite, Ethos demorou a pegar no sono. Sempre que fechava os olhos, imaginava como seria o rosto do irmãozinho... ou da irmãzinha.
…
A barriga de Ophélia já estava grande o suficiente para se notar à primeira vista.
Ethos entrou correndo no quarto e congelou com o que viu: Árnion estava deitado sobre a barriga de Ophélia. O garoto parou por um segundo, observando em silêncio. Em seguida, se aproximou com as sobrancelhas arqueadas e os olhos arregalados.
— Papai! O que você está fazendo!? Vai machucar o bebê! Tanto lugar pra deitar, sai daí!
Os adultos trocaram um olhar e Árnion deixou escapar uma risada. Ophélia riu junto.
— Qual é a graça? Sai daí, pai! — insistiu o garoto.
Árnion se levantou para acalmá-lo.
— Calma, filho. Tá tudo bem. Papai não estava machucando a mamãe — disse, com um sorriso largo.
— Sim, filhote — completou Ophélia, acariciando a barriga com um sorriso leve. — Ele só estava conversando com o seu irmãozinho.
Ethos levantou uma sobrancelha.
— Conversando? Ele escuta?
Ophélia olhou serena para o garoto.
— Claro que escuta. Vem conversar também.
Árnion se afastou um pouco, dando espaço para que Ethos pudesse subir na cama e se aproximar de Ophélia. O garoto, ainda desconfiado, apoiou com cuidado o rosto na barriga da mãe.
— Oi… você aí dentro. — A voz saiu quase como um sussurro. — Você ainda não tem nome. É... irmão ou irmã. — Ele se levantou de repente. — Mamãe, isso não faz sentido... o que eu deveria dizer?
Ophélia deixou escapar uma pequena risada e passou a mão na cabeça do garoto.
— Ethi, tenta outra vez — respondeu ela.
— É, cara. Vai lá, se apresenta — completou Árnion.
— Me apresentar... tá... — Ele voltou a deitar na barriga da mãe. — Eu sou Ethos... seu irmão mais velho. A gente tá te esperando aqui…
A voz foi tomando volume e a timidez foi dando lugar à empolgação.
— Você tem que nascer logo, temos muita coisa pra fazer. Preciso te ensinar sobre a fazenda, como dar comida pros porcos...
Enquanto ele seguia falando, os pais trocaram um olhar e sorriram.
Ophélia passava a mão nos cabelos de Ethos. Árnion apenas admirava a cena.
De repente…
— Ah! — Ethos gritou e se afastou rapidamente.
— O que foi? — perguntaram juntos.
— Senti uma coisa mexendo, acho que o bebê não gosta de mim!
— Mexendo? — Ophélia apoiou a mão na barriga. — Ah! — gritou, surpresa. — Um chute!
— Chute? — repetiram Árnion e Ethos.
Ophélia levou as mãos ao rosto, emocionada.
— Mamãe está chorando? É porque o bebê está brabo? Falei algo de errado? — disse Ethos, já com os olhos marejados, enquanto lutava para conter as lágrimas.
Árnion se inclinou e apoiou sua mão nas costas do garoto, tentando acalmá-lo.
— Não, Ethi. — Uma lágrima escapou de seu rosto. — Sua mãe está emocionada. Seu irmãozinho gostou tanto de conversar com você que até deu seu primeiro chute.
Ethos piscou algumas vezes. Olhou para a mãe. Depois para o pai.
— E isso é bom?
— Claro! — respondeu Árnion, passando o antebraço nos olhos. — Isso quer dizer que ele é forte e saudável. Ele gostou de você.
Os olhos do garoto se iluminaram e ele deu um pequeno pulo de empolgação.
— Ah, que bom! Ele vai ser um lutador!
Os três se abraçaram e, pouco depois, Ethos já estava de volta à barriga da mãe, falando sem parar.
…
A barriga de Ophélia ficava cada vez maior com o passar dos meses.
Ethos contava os dias. Mal podia esperar pelo nascimento do mais novo Emetiel.
A ansiedade só aumentava conforme se aproximava o dia do nascimento. A cada poucos dias fazia a mesma pergunta.
— Falta quanto tempo?
— Ainda um pouquinho, filhote — respondia Ophélia.
Alguns dias depois…
— Falta muito?
Árnion soltava uma risada.
— Um pouco, cara.
Ethos fazia bico.
— Um pouco quanto?
Ophélia sorria toda vez.
— O bebê é quem escolhe, querido. Vai ser na hora que ele quiser.
Nesse período, Ethos se esforçava para ajudar como podia.
Depois que ouviu do médico que ela precisava tomar muita água e comer frutas, ele levou aquilo como uma missão.
Todas as manhãs aparecia na cozinha carregando um copo quase cheio demais para suas mãos pequenas.
— Mamãe… água!
Árnion sempre vinha atrás com um pano, secando a água que ele havia derrubado pelo caminho.
Essa cena diária sempre tirava uma risada de Ophélia.
Além disso, estava sempre tentando ajudar. Seja varrendo a casa, tirando o pó dos móveis ou seguindo o pai por todo lado até convencê-lo a fazer o que ele ainda não conseguia.
— Pai.
…
— Pai.
…
— Pai.
Árnion sempre era vencido pelo cansaço.
— Já vou.
E sempre fazia.
O garoto queria evitar qualquer esforço desnecessário de Ophélia.
E quando o sol ia se pondo, chegava o momento preferido de Ethos. Era a hora em que Ophélia se deitava na cama e ele podia se deitar sobre a barriga dela e conversar com o irmãozinho.
Às vezes, passava horas ali. Falava tanto que nem percebia quando Ophélia adormecia acariciando seus cabelos.
E, no dia seguinte, tudo começava outra vez.
…
A tensão tomava conta da casa. O dia finalmente havia chegado.
Ethos esperava na sala com seu avô, Tharion.
Ele roía as unhas sem parar.
Tharion batia o pé contra o chão em um ritmo constante.
O silêncio só era quebrado pelos passos apressados que, de vez em quando, cruzavam o corredor.
Tharion era um homem de cabelos completamente brancos. Algumas cicatrizes marcavam seu rosto e desapareciam sob as mangas da camisa, vestígios de uma vida que ele raramente comentava.
Morava a poucos minutos dali e — desde que Ethos conseguia se lembrar — ajudava Árnion nos trabalhos da fazenda.
Nhééé…
O choro de um bebê interrompeu o silêncio.
Ethos e Tharion ergueram a cabeça ao mesmo tempo.
Os dois se olharam.
A porta se abriu.
— É UMA MENINA! — gritou Árnion, que chegou pulando na sala com a camisa encharcada de suor e o rosto banhado de lágrimas. Ainda assim, um enorme sorriso iluminava seu rosto.
Logo, voltou correndo para o quarto.
Ethos pulou nos braços do avô.
— É UMA MENINA! — gritou Ethos.
Tharion o ergueu no ar, deixando escapar um sorriso raro.
— Você é oficialmente um irmão mais velho, Ethi!
— Quero ver ela!
— Logo, logo vamos poder conhecê-la.
Não demorou para irem até o quarto.
Lá estava Ophélia. O cansaço estampava seu rosto, mas nem isso era capaz de esconder seu sorriso enquanto segurava a filha nos braços.
— Vem cá, Ethi. Olha sua irmãzinha.
Ethos caminhou devagar até a cama. Pela primeira vez, não fazia perguntas. Apenas observava. Ele estendeu o dedo indicador, mas hesitou por um instante antes de tocar de leve a pequena mão da irmã.
— Ela é tão linda, mamãe, tão pequena…
Ele a observou por mais alguns segundos e então se virou para a mãe, preocupado.
— Ela parece tão frágil, como vou brincar com ela?
O quarto foi tomado por uma risada coletiva.
— Calma, filho — disse Árnion, sorrindo. — Ela precisa crescer um pouco mais. Você vai ajudar a mamãe e o papai a cuidar dela?
— Claro! — respondeu, batendo no peito como um soldado. — E qual o nome dela?
Ophélia olhou para o bebê.
Sorriu.
Segurava aquele pequeno e frágil ser como se fosse a coisa mais preciosa do mundo.
— O nome dela é Íris... nosso tesouro.
Aquele pequeno mundo…
Dentro daquela pequena casa…
Tudo estava completo.
Ethos sorriu.
— Bem-vinda à família, Íris.
