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ETHOS · Capítulo 1: O Tesouro
ETHOS
cap. 2

Capítulo 1: O Tesouro

por Vitor Custodio2.330 palavras~11 min

PARTE 1 — AQUELE QUE DEFENDE IDEAIS

No início, havia apenas o Nada.

Então, do Nada, nasceu a Luz — e, com a Luz, surgiu a Escuridão.

Com a Luz e a Escuridão, surgiram o Tempo e o Espaço.

E nasceu a Vida.

E, da Vida, surgiu a Humanidade.

Encantada com a Humanidade, a Luz presenteou-a com as Cores, e delas brotaram as Virtudes — e, por um breve tempo, tudo foi perfeito.

A Escuridão, com inveja, corrompeu as Virtudes e criou os Pecados sete Cores, sete Virtudes, sete Pecados.

Vendo a Humanidade ruir, a Luz concedeu seu último e mais precioso presente: o Amor, capaz de fortalecer e restaurar as Virtudes.

A Escuridão respondeu reunindo toda a sua fúria e moldou o Ódio, reflexo distorcido do Amor.

E assim iniciou o eterno conflito: Luz e Escuridão, Bem e Mal, Amor e Ódio.

Mas, bem longe de tudo isso, em um pequeno vilarejo nas montanhas, uma família de fazendeiros vivia em uma região afastada…

Capítulo 1 - O Tesouro

Tlec!

Um estalar de dedos.

Puff!

Uma chama nasceu sobre os dedos delicados de uma mulher.

Os cabelos negros de Ophélia caíam pelos ombros enquanto ela depositava a pequena chama sobre uma pedra negra, acendendo mais uma das bocas do fogão. O fogo refletia em seus olhos azuis enquanto ela mexia o caldo com uma colher de pau.

O cheiro de carne cozida se espalhava pela casa enquanto a água fervia lentamente.

À mesa, Árnion — de cabelos loiros desbotados, olhos castanhos quase pretos e a pele bronzeada de quem trabalha sob o sol — descascava batatas. Suas mãos, marcadas por cicatrizes, removiam as cascas com precisão. Sem desperdício.

Pac-pac-pac…

Passos apressados interromperam a calmaria.

POW!

A porta se abriu com força.

— Mamãeee...! Papaiii...! Chegueeei...! — Ethos entrou ofegante, os cabelos negros encharcados de suor, os olhos verdes ainda com a inocência de uma criança. — Passei pelo doutor no caminho. Tem alguém doente?

— Ethi... os sapatos! — disse Ophélia, apontando com uma colher de pau.

Aahh… Tá bom... — Ele chutou as botas para o canto e se aproximou, ainda agitado. — Quem está doente? Mamãe?

Árnion respirou fundo e abriu um grande sorriso, embora as pálpebras pesadas contrastassem sua expressão.

— Quanta energia, filho... depois falamos melhor sobre isso. Agora vá lavar as mãos e venha jantar.

O menino cruzou os braços, esticando os lábios em um bico exagerado.

— Mas...

— Ethos! — interrompeu Árnion, sorrindo e balançando a batata como se fosse uma espada. — Anda logo, ou vai ficar sem jantar!

O garoto inflou as bochechas, resmungou baixinho e subiu as escadas correndo.

Árnion suspirou e cruzou os braços. Seu olhar caiu sobre as botas cobertas de terra, largadas ao lado da porta.

— Ele não para, né?

Ophélia conteve um sorriso enquanto mexia a panela.

— Sim... puxou o pai dele.

Ah, claro…

— Pelo menos antes de você se tornar esse velho rabugento — disse ela, olhando por cima do ombro com uma sobrancelha arqueada.

Árnion se inclinou um pouco para trás e a encarou pelo canto dos olhos.

— Velho?

Ophélia nem se virou.

— Rabugento também.

Os dois riram e Árnion voltou às batatas, balançando a cabeça.

— Saudades de quando eu tinha essa energia.

Ophélia virou levemente o rosto, mordendo o lábio para segurar a risada.

— É… eu também.

Depois do jantar, Árnion terminava de lavar os pratos enquanto Ophélia ajeitava os lençóis que cobriam Ethos na cama.

— Tá confortável, filhote? — disse Ophélia, sentada à beira da cama.

Ethos assentiu, mantendo apenas os olhos de fora.

Árnion — com a parte de baixo da camisa molhada — entrou no quarto e parou atrás de Ophélia.

— Filho… — Ele apoiou suas mãos nos ombros de Ophélia. — Temos uma novidade.

Ethos se sentou na mesma hora.

— Novidade?

— Isso mesmo.

O garoto franziu levemente a testa.

— Que novidade? É sobre o doutor? Sabia que alguém estav...

— Ethi... — interrompeu Ophélia.

Ela abriu um sorriso.

Olhou para Árnion que ainda estava de pé atrás dela, sorrindo de volta.

Depois, se voltou para o garoto com os olhos já cheios d’água.

Segurou a mão dele.

Tomou um pouco de ar.

Seu sorriso abriu um pouco mais e uma lágrima escapou.

— A deusa da vida nos abençoou, filho...

Ethos apenas observava, com os olhos arregalados.

Ophélia passou a mão no rosto dele e continuou.

— Você terá um irmãozinho... ou uma irmãzinha! A mamãe está grávida!

Ethos ficou paralisado por alguns instantes. Piscou algumas vezes. A boca se entreabriu, mas nenhuma palavra saiu.

— Um... irmão? — murmurou. — Como assim...? Irmão?

De repente, seu rosto se iluminou.

— Pera, um... IRMÃO!? DEMAIS!

Ele pulou nos braços dos pais, quase derrubando os dois.

— Como aconteceu? Quando ele nasce? Quando posso brincar com ele? Vou ensinar ele a cuidar das galinhas… dos porcos também! A gente vai explorar a floresta inteira!

Ethos parou de falar por um momento, fechou o punho contra o peito e lançou um olhar firme.

— Seremos uma dupla incrível!

Os adultos se entreolharam e mais algumas lágrimas escorreram pelo rosto sorridente de Ophélia. Em seguida, Árnion se juntou à choradeira.

Ethos, ainda perdido em seus pensamentos, olhou para o pai e levantou uma sobrancelha.

— E então? Como foi que aconteceu?

Quando Árnion ia abrir a boca para começar a falar…

Pah!

— Ai!

O cotovelo de Ophélia atingiu sua barriga.

— O quê? Nem falei nada! — disse Árnion, curvando-se e apertando a barriga com uma das mãos.

— Mas ia! — Ophélia estreitou os olhos para ele, com os lábios comprimidos. Em seguida, se voltou para Ethos. — Quando você for mais velho, a mamãe te conta.

Ethos fez bico e cruzou os braços.

— Mas mãe…

— Sem “mas”. — Ela ajeitou as cobertas e deu um beijo na testa dele. — Hora de dormir, amanhã conversamos mais.

O garoto revirou os olhos.

— Tá bom…

Árnion apagou a lamparina e os pais se despediram mais uma vez antes de encostar a porta, deixando apenas uma fresta de luz entrar no quarto.

Naquela noite, Ethos demorou a pegar no sono. Sempre que fechava os olhos, imaginava como seria o rosto do irmãozinho... ou da irmãzinha.

A barriga de Ophélia já estava grande o suficiente para se notar à primeira vista.

Ethos entrou correndo no quarto e congelou com o que viu: Árnion estava deitado sobre a barriga de Ophélia. O garoto parou por um segundo, observando em silêncio. Em seguida, se aproximou com as sobrancelhas arqueadas e os olhos arregalados.

— Papai! O que você está fazendo!? Vai machucar o bebê! Tanto lugar pra deitar, sai daí!

Os adultos trocaram um olhar e Árnion deixou escapar uma risada. Ophélia riu junto.

— Qual é a graça? Sai daí, pai! — insistiu o garoto.

Árnion se levantou para acalmá-lo.

— Calma, filho. Tá tudo bem. Papai não estava machucando a mamãe — disse, com um sorriso largo.

— Sim, filhote — completou Ophélia, acariciando a barriga com um sorriso leve. — Ele só estava conversando com o seu irmãozinho.

Ethos levantou uma sobrancelha.

— Conversando? Ele escuta?

Ophélia olhou serena para o garoto.

— Claro que escuta. Vem conversar também.

Árnion se afastou um pouco, dando espaço para que Ethos pudesse subir na cama e se aproximar de Ophélia. O garoto, ainda desconfiado, apoiou com cuidado o rosto na barriga da mãe.

— Oi… você aí dentro. — A voz saiu quase como um sussurro. — Você ainda não tem nome. É... irmão ou irmã. — Ele se levantou de repente. — Mamãe, isso não faz sentido... o que eu deveria dizer?

Ophélia deixou escapar uma pequena risada e passou a mão na cabeça do garoto.

— Ethi, tenta outra vez — respondeu ela.

— É, cara. Vai lá, se apresenta — completou Árnion.

— Me apresentar... tá... — Ele voltou a deitar na barriga da mãe. — Eu sou Ethos... seu irmão mais velho. A gente tá te esperando aqui…

A voz foi tomando volume e a timidez foi dando lugar à empolgação.

— Você tem que nascer logo, temos muita coisa pra fazer. Preciso te ensinar sobre a fazenda, como dar comida pros porcos...

Enquanto ele seguia falando, os pais trocaram um olhar e sorriram.

Ophélia passava a mão nos cabelos de Ethos. Árnion apenas admirava a cena.

De repente…

Ah! — Ethos gritou e se afastou rapidamente.

— O que foi? — perguntaram juntos.

— Senti uma coisa mexendo, acho que o bebê não gosta de mim!

— Mexendo? — Ophélia apoiou a mão na barriga. — Ah! — gritou, surpresa. — Um chute!

— Chute? — repetiram Árnion e Ethos.

Ophélia levou as mãos ao rosto, emocionada.

— Mamãe está chorando? É porque o bebê está brabo? Falei algo de errado? — disse Ethos, já com os olhos marejados, enquanto lutava para conter as lágrimas.

Árnion se inclinou e apoiou sua mão nas costas do garoto, tentando acalmá-lo.

— Não, Ethi. — Uma lágrima escapou de seu rosto. — Sua mãe está emocionada. Seu irmãozinho gostou tanto de conversar com você que até deu seu primeiro chute.

Ethos piscou algumas vezes. Olhou para a mãe. Depois para o pai.

— E isso é bom?

— Claro! — respondeu Árnion, passando o antebraço nos olhos. — Isso quer dizer que ele é forte e saudável. Ele gostou de você.

Os olhos do garoto se iluminaram e ele deu um pequeno pulo de empolgação.

Ah, que bom! Ele vai ser um lutador!

Os três se abraçaram e, pouco depois, Ethos já estava de volta à barriga da mãe, falando sem parar.

A barriga de Ophélia ficava cada vez maior com o passar dos meses.

Ethos contava os dias. Mal podia esperar pelo nascimento do mais novo Emetiel.

A ansiedade só aumentava conforme se aproximava o dia do nascimento. A cada poucos dias fazia a mesma pergunta.

— Falta quanto tempo?

— Ainda um pouquinho, filhote — respondia Ophélia.

Alguns dias depois…

— Falta muito?

Árnion soltava uma risada.

— Um pouco, cara.

Ethos fazia bico.

— Um pouco quanto?

Ophélia sorria toda vez.

— O bebê é quem escolhe, querido. Vai ser na hora que ele quiser.

Nesse período, Ethos se esforçava para ajudar como podia.

Depois que ouviu do médico que ela precisava tomar muita água e comer frutas, ele levou aquilo como uma missão.

Todas as manhãs aparecia na cozinha carregando um copo quase cheio demais para suas mãos pequenas.

— Mamãe… água!

Árnion sempre vinha atrás com um pano, secando a água que ele havia derrubado pelo caminho.

Essa cena diária sempre tirava uma risada de Ophélia.

Além disso, estava sempre tentando ajudar. Seja varrendo a casa, tirando o pó dos móveis ou seguindo o pai por todo lado até convencê-lo a fazer o que ele ainda não conseguia.

— Pai.

— Pai.

— Pai.

Árnion sempre era vencido pelo cansaço.

— Já vou.

E sempre fazia.

O garoto queria evitar qualquer esforço desnecessário de Ophélia.

E quando o sol ia se pondo, chegava o momento preferido de Ethos. Era a hora em que Ophélia se deitava na cama e ele podia se deitar sobre a barriga dela e conversar com o irmãozinho.

Às vezes, passava horas ali. Falava tanto que nem percebia quando Ophélia adormecia acariciando seus cabelos.

E, no dia seguinte, tudo começava outra vez.

A tensão tomava conta da casa. O dia finalmente havia chegado.

Ethos esperava na sala com seu avô, Tharion.

Ele roía as unhas sem parar.

Tharion batia o pé contra o chão em um ritmo constante.

O silêncio só era quebrado pelos passos apressados que, de vez em quando, cruzavam o corredor.

Tharion era um homem de cabelos completamente brancos. Algumas cicatrizes marcavam seu rosto e desapareciam sob as mangas da camisa, vestígios de uma vida que ele raramente comentava.

Morava a poucos minutos dali e — desde que Ethos conseguia se lembrar — ajudava Árnion nos trabalhos da fazenda.

Nhééé…

O choro de um bebê interrompeu o silêncio.

Ethos e Tharion ergueram a cabeça ao mesmo tempo.

Os dois se olharam.

A porta se abriu.

— É UMA MENINA! — gritou Árnion, que chegou pulando na sala com a camisa encharcada de suor e o rosto banhado de lágrimas. Ainda assim, um enorme sorriso iluminava seu rosto.

Logo, voltou correndo para o quarto.

Ethos pulou nos braços do avô.

— É UMA MENINA! — gritou Ethos.

Tharion o ergueu no ar, deixando escapar um sorriso raro.

— Você é oficialmente um irmão mais velho, Ethi!

— Quero ver ela!

— Logo, logo vamos poder conhecê-la.

Não demorou para irem até o quarto.

Lá estava Ophélia. O cansaço estampava seu rosto, mas nem isso era capaz de esconder seu sorriso enquanto segurava a filha nos braços.

— Vem cá, Ethi. Olha sua irmãzinha.

Ethos caminhou devagar até a cama. Pela primeira vez, não fazia perguntas. Apenas observava. Ele estendeu o dedo indicador, mas hesitou por um instante antes de tocar de leve a pequena mão da irmã.

— Ela é tão linda, mamãe, tão pequena…

Ele a observou por mais alguns segundos e então se virou para a mãe, preocupado.

— Ela parece tão frágil, como vou brincar com ela?

O quarto foi tomado por uma risada coletiva.

— Calma, filho — disse Árnion, sorrindo. — Ela precisa crescer um pouco mais. Você vai ajudar a mamãe e o papai a cuidar dela?

— Claro! — respondeu, batendo no peito como um soldado. — E qual o nome dela?

Ophélia olhou para o bebê.

Sorriu.

Segurava aquele pequeno e frágil ser como se fosse a coisa mais preciosa do mundo.

— O nome dela é Íris... nosso tesouro.

Aquele pequeno mundo…

Dentro daquela pequena casa…

Tudo estava completo.

Ethos sorriu.

— Bem-vinda à família, Íris.

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