O sol brilhava forte no céu.
Ethos acompanhava Leo em uma expedição pela floresta.
O homem se aproximou e estendeu um cordão com uma pequena pedra amarrada na ponta.
— Fedelho, coloca isso.
Ethos pegou o cordão passou pelo pescoço.
— Que colar é esse?
Leo já havia voltado a caminhar.
— É pra eu não te perder.
Ethos segurou a pequena pedra entre os dedos e a observou com atenção. Era completamente negra, sem qualquer brilho ou marca aparente.
— Eu não entendi…
Leo bufou, já alguns passos à frente.
— Não importa. Anda logo!
Ethos correu para alcançá-lo.
Os dois carregavam grandes bolsas nas costas enquanto avançavam floresta adentro.
Ethos caminhava tranquilamente quando a ponta da bota enganchou em uma raiz.
— Ah!
POF!
Caiu de cara no chão.
Leo nem parou.
— Fedelho, cuidado por onde pisa. Se você se machucar, sua mãe me mata.
Deu mais alguns passos antes de completar, quase num sussurro:
— Aquela mulher é assustadora…
— Ai… — Ethos se levantou, limpando a terra do rosto. Então ergueu a cabeça. — O que você falou?
— NADA! — Leo respondeu imediatamente. — Anda logo!
Ethos deu alguns passos rápidos para alcançar Leo novamente. Ajeitou a mochila e segurou as alças enquanto caminhava.
— Você não vai me dizer o que viemos fazer aqui?
Leo bufou mais uma vez.
— Você não vai parar de perguntar, né?
— Não — respondeu Ethos, com um grande sorriso.
Leo soltou um longo suspiro e se deu por vencido.
— Você deve saber que ontem os caçadores vieram limpar essa área, certo?
Ethos franziu a testa e fez que não com a cabeça.
— Ai fedelho… — Leo apertou a ponte do nariz entre os dedos, tentando conter a irritação. — Você não sabe de nada mesmo?
— Não.
Leo suspirou outra vez.
— Basicamente, de tempos em tempos alguns monstros aparecem nessa floresta. Então os caçadores vêm eliminá-los.
Os olhos de Ethos se arregalaram. Imediatamente, começou a olhar ao redor.
— T-tem monstros aqui?
— Óbvio que não! — Leo deu um pequeno tapa na nuca do garoto. — Tá surdo? Eles foram eliminados ONTEM!
Ethos soltou o ar aliviado.
— Ufa!
— Você acha mesmo que eu traria um fedelho remelento para um lugar cheio de monstros?
— Ei! — Ethos cruzou os braços.
— Tá, tá, tá! — cortou Leo. — Eu sempre venho à floresta depois das caçadas para coletar amostras e dados sobre os monstros.
— E de onde vêm os monstros?
Leo cruzou os braços e balançou a cabeça.
— Alguma coisa transforma os animais em monstros. Ainda estou tentando entender exatamente como isso acontece.
— Hm…
Eles continuaram avançando para dentro da floresta.
Depois de alguns minutos, um cheiro estranho começou a tomar conta do ar. Ethos torceu o nariz.
— Eca! Que cheiro é esse?
Leo sequer diminuiu o passo.
— Estamos chegando.
O cheiro ficou cada vez mais forte.
Então Ethos o viu.
Uma criatura estava caída entre as árvores. À primeira vista, parecia um cão enorme... talvez um lobo. Moscas rodeavam o corpo, entrando e saindo das feridas abertas.
Ethos parou.
Leo continuou caminhando como se não fosse nada. Colocou as luvas, agachou-se ao lado da criatura e abriu a bolsa.
Ethos ficou afastado, com os olhos arregalados.
— Que nojo, você vai mexer nessa coisa?
— Anda logo, vem cá. Traz o resto das minhas coisas.
Ethos se aproximou devagar.
Quanto mais perto chegava, menos aquilo parecia um animal.
Os dentes eram grandes demais para caber na boca. As garras haviam crescido e se curvavam para fora das patas. Em alguns pontos, a pele parecia ter derretido sobre o próprio corpo, deixando partes da carne expostas.
Ethos engoliu seco.
— Que bicho é esse?
Leo retirou uma pequena faca da bolsa.
— Um lobo. Ou pelo menos era.
Ele encostou a lâmina na barriga da criatura.
— É isso que a influência do mal faz com os animais. Esse aqui foi infectado. Não chegue muito perto.
Ethos inclinou a cabeça.
— Infect…
Leo abriu a barriga do animal.
O cheiro atingiu Ethos de uma vez.
Ele levou a mão à boca.
— Urgh…
E saiu correndo.
— Fedelho! — Leo ergueu a cabeça. — Não se afaste muito! Essa área ainda é perigosa!
Ethos nem respondeu. Já estava curvado atrás de uma árvore, vomitando tudo o que havia comido no café da manhã.
Leo bufou e voltou ao trabalho.
Algum tempo depois, Ethos estava sentado a uma boa distância, observando Leo trabalhar. Já havia se acostumado um pouco com o cheiro, mas o tédio começava a tomar conta.
Então, alguns arbustos chacoalharam.
Ethos paralisou.
— Senhor Leo… acho que tem algo se mexendo ali.
Leo nem levantou a cabeça.
— É uma floresta, fedelho. Deve ser um esquilo ou um coelho.
Ethos continuou encarando o arbusto.
As folhas se mexeram novamente.
— Tem certeza?
— Sim, animais maiores não se aproximam de infectados.
Ethos engoliu em seco e deu um passo para trás.
As folhas se mexiam cada vez mais.
Seu coração estava disparado.
De repente…
— AH!
Duas pequenas orelhas surgiram entre as folhas, e um coelho saltou para fora.
Ethos caiu sentado no chão.
Leo virou o rosto rapidamente.
— O que foi?!
Viu o pequeno animal diante do garoto e voltou ao trabalho.
— Eu avisei.
Ethos se levantou, sacudindo a poeira da calça.
— Que susto, amiguinho… O que está fazendo aqui?
O coelho apenas o encarou.
Ethos abriu um sorriso e se aproximou.
— Você é tão fofinho e pequeno… Vem cá!
O animal deu alguns pulinhos para trás.
— Ei, não foge!
O coelho se virou e desapareceu entre os arbustos.
Ethos olhou para Leo.
Ele continuava completamente concentrado no trabalho.
Ethos olhou novamente para o arbusto.
Um par de orelhas apareceu por um instante mais adiante.
E ele foi atrás.
Quanto mais Ethos tentava se aproximar, mais o coelho saltava para longe.
— Volta aqui! Eu só quero fazer um carinho nas suas orelhas!
Ethos acelerou o passo. O coelho também.
Logo os pequenos saltos viraram uma perseguição entre as árvores.
— Espera!
O coelho atravessou alguns arbustos e desapareceu.
Droga… pra onde ele foi?, pensou.
Até que, Ethos parou.
Olhou para os lados.
Árvores.
Olhou para trás.
Árvores.
Então fungou.
Só sentiu o cheiro de mato e terra úmida.
Seus olhos se arregalaram.
Cadê o cheiro?
— Merda… — murmurou. — Onde eu tô?
Quanto mais Ethos caminhava, mais perdido parecia ficar.
— Senhor Leo! — gritava de tempos em tempos.
Nenhuma resposta.
Quanto tempo eu to andando? Eu to ferrado!
De repente, um raio de luz atravessou as árvores mais à frente.
Correu naquela direção. Conforme avançava, as árvores ficavam mais espaçadas, até finalmente darem lugar a uma grande clareira.
Ethos arregalou os olhos.
Flores coloridas se espalhavam por toda parte, quase escondidas entre a grama alta. E, saltitando de um lado para o outro, dezenas de coelhos ocupavam o campo.
Os olhos do garoto brilharam.
— Uau…
Ele disparou atrás do primeiro que viu.
— Vem cá!
O coelho saltou para longe.
Ethos tentou outro.
O mesmo aconteceu.
— Fiquem parados! Eu juro que não vou machucar vocês!
Àquela altura, ele já havia esquecido completamente que estava perdido.
Agora tinha um objetivo muito mais importante: conseguir fazer carinho em um coelho.
Depois de várias tentativas fracassadas, avistou um deles parado entre a grama.
Ethos estreitou os olhos.
Agora eu te pego.
Aproximou-se na ponta dos pés. Um passo de cada vez.
Prendeu a respiração.
Mais um passo.
O coelho continuava imóvel.
Ethos abriu um sorriso.
E pulou.
No último instante, o animal saltou para o lado.
— Ah!
Ethos passou direto.
Seu corpo atravessou a grama alta.
E não encontrou o chão.
Seus olhos se arregalaram.
A clareira terminava em uma ribanceira.
— AAAAAAH!
Ele despencou.
As copas das árvores abaixo cresciam rapidamente diante de seus olhos.
Tenho que fazer alguma coisa!
Ele estendeu as mãos. A energia percorreu seu corpo e uma luz verde surgiu ao seu redor.
Quando as primeiras copas ficaram ao alcance, Ethos liberou uma forte rajada de vento contra elas.
FUSH!
O impulso diminuiu sua velocidade, mas não foi o suficiente.
CRAC!
Seu corpo atravessou os primeiros galhos.
Um atingiu seu ombro. Outro raspou seu rosto. Outro atingiu sua perna em cheio. Ethos tentou proteger a cabeça enquanto continuava despencando entre as folhas.
Até que…
TUM!
Seu corpo atingiu o chão.
Ele permaneceu parado por alguns segundos.
Sua respiração vinha rápida e pesada.
Aos poucos, tentou se mexer.
Primeiro, o braço.
— AI!
Uma fisgada atravessou seu ombro. Ele cerrou os dentes e tentou novamente, dessa vez mais devagar.
Seu corpo inteiro doía. O ombro sangrava e pequenos cortes cobriam seu rosto. A cabeça latejava.
Ainda assim, conseguia se mexer.
Conforme a adrenalina diminuía, Ethos percebeu que, apesar da dor, nenhum dos ferimentos parecia muito profundo.
Com esforço, apoiou as mãos no chão e conseguiu se sentar.
— Aaai!! Merda!
Uma dor intensa veio da perna esquerda.
Ethos olhou para baixo.
Um corte comprido atravessava sua coxa, e o sangue já escorria pela perna.
— Droga…
Ele agarrou a barra da camisa e rasgou um pedaço do tecido. Antes de usá-lo, colocou-o sobre a palma da mão.
Uma luz vermelha surgiu entre seus dedos.
Pequenos grãos de terra e poeira se desprenderam do tecido e caíram no chão.
Ethos então enrolou o pano ao redor da coxa e apertou como pôde.
— Aii…
Depois de algum tempo, Ethos respirou fundo algumas vezes e apoiou a mão em uma árvore.
— Vamo lá… Tá tudo bem…
Tentou se levantar.
Assim que colocou o peso sobre sua perna esquerda…
— Ai!
Ele se agarrou ao tronco para não cair novamente.
Ethos permaneceu ali por alguns instantes, esperando a dor passar. Então olhou ao redor.
Por algum motivo, aquela parte da floresta parecia muito mais escura. As copas das árvores se fechavam sobre sua cabeça, deixando passar apenas alguns feixes de luz.
Nem parecia que ainda era dia.
Um arrepio percorreu seu pescoço.
Preciso sair daqui.
Ethos olhou para o chão e encontrou um dos galhos grossos que haviam se partido durante sua queda. Agarrou-o com as duas mãos e o usou como apoio.
Então começou a caminhar, mancando entre as árvores.
Ethos avançava devagar, apoiando cada vez mais peso no galho.
Um passo.
Depois outro.
E seguiu assim por algum tempo.
Sua respiração ficava cada vez mais ofegante, e a perna latejava a cada passo.
De repente…
Ele parou e ergueu a cabeça.
Fungou.
Cheiro de carne podre.
Seus olhos se arregalaram.
Achei! Finalmente encontrei o caminho de volta!, pensou.
Ele apertou o passo, ignorando a dor na perna.
O cheiro ficava cada vez mais forte.
Nunca pensei que ficaria feliz em sentir esse cheiro horrível!
Até que as árvores começaram a se afastar umas das outras.
Ethos atravessou os últimos arbustos e chegou a uma pequena área aberta.
Parou.
O cheiro de carne podre impregnava o local.
Mas Leo não estava ali.
Ethos engoliu seco.
Não é aqui…
Apertou o galho entre os dedos.
Ele não sabia dizer de onde vinha aquela sensação, mas… se sentia observado.
Ethos olhou para os lados.
Nada.
Apenas árvores.
CREC!
Um galho quebrou em algum lugar.
— Senhor Leo…?
Seu coração disparou.
Seu instinto o mandava correr, mas… para onde?
O cheiro ficou ainda mais forte.
Então, na escuridão da mata, dois pontos vermelhos surgiram entre as árvores.
Ethos recuou até sentir as costas contra um tronco. Ergueu o galho à sua frente como uma espada.
Correr não era uma opção.
Os pontos vermelhos continuaram se aproximando.
Um passo por vez.
Até que a criatura saiu das sombras.
O corpo de Ethos se enrijeceu.
Merda! Eles não tinham eliminado todos?!
Era outro lobo-monstro.
Uma baba espessa escorria entre seus caninos. A pele estava coberta de feridas e, em alguns pontos, queimaduras profundas deixavam os músculos expostos. Uma das patas pendia torta, obrigando a criatura a se arrastar a cada passo.
Moscas rodeavam seu corpo.
Mesmo assim, seus olhos vermelhos permaneciam fixos no garoto.
Ethos apertou ainda mais o galho.
Essa coisa ainda tá viva?
Não importava. A criatura continuava se aproximando.
Cada vez mais perto.
Até parar a poucos metros dele.
Ethos apertou os olhos.
O lobo abaixou o corpo, preparando-se para atacar.
Uma luz verde surgiu no peito de Ethos e percorreu seu braço até alcançar o galho.
O monstro mostrou os dentes.
E saltou.
Ethos prendeu a respiração.
POW!
O galho atingiu em cheio o corpo da criatura, arremessando-a para o lado.
A madeira não resistiu e se quebrou em vários pedaços.
Ethos permaneceu encostado na árvore, agora de mãos vazias.
O monstro estava caído a poucos metros.
Por favor… não levanta.
Uma das patas se mexeu.
Merda.
A criatura começou a se levantar.
Ethos se virou.
Talvez ele não consiga me perseguir agora.
Tentou dar o primeiro passo.
A perna falhou.
— Ai!
Ele caiu no chão.
Atrás dele, o lobo continuava se levantando.
Ethos cravou os dedos na terra e começou a se arrastar.
Talvez eu tenha quebrado a outra perna dele. Talvez se eu conseguir ir longe o bastante…
Ele olhou para trás.
E seu corpo amoleceu.
A criatura estava de pé.
Já era.
Mancando, o monstro voltou a avançar.
Ethos se sentou e estendeu uma das mãos.
Talvez com uma rajada de ar…
Respirou fundo.
Não sei se ainda tenho energia. Mas é minha melhor chance.
O monstro se aproximava.
Ethos esperou.
Mais um passo.
Só mais um pouco…
E outro passo.
O suor escorria pelo rosto do garoto.
Mais perto.
Agora!
Uma luz verde surgiu de seu peito e correu até a palma da mão.
FUSH!
O vento atingiu o monstro.
Nada.
Apenas uma brisa fraca balançou os pelos da criatura.
— Merda…
O lobo mostrou os dentes, quase como se sorrisse.
Abaixou o corpo novamente, preparando o bote.
Ethos fechou os olhos e ergueu os braços para proteger o rosto.
FTSS!
PÁH!
Ethos abriu os olhos.
O monstro estava caído diante dele.
Um pequeno dardo estava cravado em seu pescoço.
— O quê...?
A criatura começou a se contorcer.
Ethos observou, sem entender. As enormes presas começaram a diminuir. As garras se retraíram lentamente. Até mesmo as feridas espalhadas pelo corpo pareciam se fechar.
Seus olhos se arregalaram. Por um instante, aquela coisa começou a parecer um lobo outra vez.
Então…
RUAAAH!
Um grito de dor atravessou a floresta.
A pele do animal começou a escurecer. Seu corpo perdeu a forma, desfazendo-se diante dos olhos de Ethos até restar apenas uma massa negra sobre o chão.
O que tá acontecendo…?
De repente, uma voz surgiu do fundo.
— FEDELHO DE MERDA!
A voz veio de algum lugar entre as árvores.
— Como veio parar tão longe?
Ethos virou a cabeça.
Leo.
Um sorriso surgiu imediatamente em seu rosto.
— Você me achou!
Toda a força pareceu abandonar seu corpo de uma vez. Ele se deixou cair de costas no chão e começou a chorar.
Leo correu até ele e se agachou, já abrindo a mochila.
— É claro que achei! Pra que acha que te dei aquele colar, fedelho? Se eu te perco aqui, sua mãe me mata!
Ah…
Ethos segurou a pequena pedra no pescoço.
Tinha esquecido disso…
Leo retirou alguns curativos e começou a examinar o garoto.
— Droga... O que aconteceu com você? Como conseguiu esse corte na perna?
Ethos tentou responder.
— Eu…
Sua visão ficou turva.
— Fedelho?
As pálpebras pesaram.
A voz de Leo pareceu ficar cada vez mais distante.
E tudo ficou escuro.
...
Ethos abriu os olhos lentamente. Por alguns segundos, não reconheceu onde estava.
O teto de madeira. As pequenas luzes espalhadas por ele. O cheiro estranho de sempre.
Estava na casa de Leo.
Tentou se levantar.
— Ai!
— Nem pense nisso.
Ethos virou a cabeça.
Leo estava sentado diante de uma bancada, de costas para ele. Vários frascos estavam espalhados ao seu redor. Em um deles, uma pequena massa negra permanecia grudada no fundo.
Ethos olhou para os curativos em sua perna e depois para o cientista.
— O que aconteceu com aquele lobo?
Leo permaneceu em silêncio por alguns segundos.
— Morreu.
— Eu sei... — Ethos fez uma careta. — Quero dizer... o que você fez com ele?
Leo girou o pequeno frasco entre os dedos.
— Foi mais um fracasso.
Ethos levantou uma sobrancelha.
— Fracasso?
Leo se virou para o garoto.
— Estou tentando encontrar uma forma de reverter os efeitos da Influência do Mal. Fazer os monstros voltarem ao que eram antes.
Ele apertou a ponte do nariz.
— Tô começando a achar que é impossível — completou.
— Mas aquele lobo estava voltando ao normal! Eu vi! Os dentes ficaram menores e as garras também!
— Por alguns segundos.
Leo se virou novamente e colocou o frasco sobre a mesa.
— Depois o corpo entrou em colapso.
Ele soltou o ar pelo nariz.
— Sempre a mesma coisa…
Ethos continuou encarando Leo enquanto ele mexia nos frascos e fazia algumas anotações.
— Não acho que tenha sido um fracasso…
— E o que você sabe?
— Não muito. — Ele virou de barriga pra cima e ficou observando as lâmpadas no teto. — É que aquele lobo parecia que já estava podre.
— É… o cheiro deles é esse mesmo.
— Não tô falando só do cheiro. Só acho que ele nem parecia vivo mais.
Leo parou de escrever.
— Como assim?
Ethos entrelaçou os dedos sobre a barriga e continuou olhando para cima.
— Quando uma maçã apodrece, minha mãe diz que precisa jogar fora. Não dá mais pra comer.
Leo permaneceu em silêncio.
— Ela sempre fala — continuou Ethos — que tem que comer antes de apodrecer.
A ponta da caneta de Leo parou sobre o papel.
Seus olhos se arregalaram.
Lentamente, ele virou o rosto para o garoto.
Ethos finalmente olhou para ele.
— Senhor Leo…?
PÁH!
Ele deu um tapa na própria testa.
E começou a gargalhar.
Ethos se assustou.
— O senhor está bem?
— Claro, fedelho! — Leo apontou a caneta para ele. — Até que você não é tão inútil.
Ethos apertou os lábios e virou o rosto.
— Eu não sou nada inútil!
— Hahahá! É tão óbvio… como não pensei nisso antes?
Leo arrancou a folha da bancada, amassou-a e pegou outra. A caneta começou a correr pelo papel.
Não preciso tentar reverter a contaminação depois que ela já destruiu o organismo...
Ele rabiscou algumas palavras.
Preciso impedir que os animais se contaminem…
Seu sorriso ficou ainda maior.
— O que eu preciso… — começou a falar em voz alta — é de uma vacina!
Ethos observou o cientista por alguns segundos. Então virou o rosto para a janela.
— Senhor Leo…
— Não me enche o saco agora!
— É que… já é noite.
A caneta parou.
Leo ficou imóvel.
Um arrepio percorreu seu corpo.
Lentamente, virou a cabeça para a janela.
— …
— Senhor Leo?
— Merda, fedelho. Sua mãe vai matar a gente!
