SPLASH!
Uma bota atravessou uma poça.
SPLASH! SPLASH! SPLASH!
Muitas outras vieram logo atrás.
Sete figuras corriam pela floresta.
Galhos secos quebravam sob seus pés enquanto avançavam entre árvores praticamente mortas. Capuzes escondiam seus rostos, e longos mantos escuros chicoteavam ao vento a cada passada.
Já era dia, mas não parecia.
O sol era vermelho e praticamente não brilhava. Nuvens cinzas cobriam quase todo o céu, formando uma camada espessa que sufocava a luz do sol.
Não havia folhas.
Apenas troncos secos se estendiam em todas as direções, retorcidos e quebradiços, como se aquela terra tivesse esquecido há muito tempo o que era estar viva.
Chovia.
Mas a chuva caía negra, manchando tudo o que tocava.
Os únicos animais eram alguns corvos buscando pela próxima refeição.
CRAC!
Um galho se partiu.
Uma das figuras olhou para trás.
Nada.
Apenas o som da chuva caindo.
— Não parem! — gritou aquele que estava mais à frente.
Os sete apertaram o passo sem questionar.
Então...
RUAAHH!
Um som grave atravessou a floresta.
As árvores estremeceram.
Eles pararam.
Aquele que estava mais à frente se virou. Em sua cintura, duas imponentes espadas se destacavam sob o manto.
— Onde eles estão? — perguntou, olhando para uma das figuras no meio do grupo.
Todos se voltaram para uma figura pequena que carregava um grande livro.
— Norte!
Rapidamente, eles seguiram correndo para o sul.
— É impossível fugir deles — disse uma figura baixa e robusta que carregava um grande martelo. — Estamos há dois dias fugindo.
— Eu sei — respondeu o das espadas. — Mas não temos outra escolha.
Enquanto corriam, uma terceira figura se aproximou, carregando um cajado nas costas.
— Eles estão nos levando para algum lugar. — Uma voz feminina veio debaixo do capuz. — Eles não atacam. Apenas nos perseguem e nos obrigam a ir para o sul.
— É... — disse o das espadas. — Vamos tentar ir para o leste, então.
E o grupo mudou de direção.
RUAHH!
Os perseguidores se aproximavam.
Dessa vez, não recuaram.
— Estão à frente! — alertou a do livro.
— Não podemos continuar fugindo pra sempre — exclamou o do martelo.
O olhar de todos se voltou para o das espadas.
Ele diminuiu o passo até parar. O restante do grupo fez o mesmo.
— Querem encarar? — perguntou.
Uma das figuras, carregando um grande escudo, deu um passo à frente.
— Você quem manda, chefe.
O do martelo também se aproximou.
— Cansei de correr — disse, soltando uma gargalhada.
O das espadas passou os olhos pelo grupo.
Um após o outro, eles assentiram.
Ele se virou e desembainhou as duas espadas.
— Vamos lá ver o que eles estão aprontando então.
Os sete voltaram a correr.
Dessa vez, em direção ao inimigo.
RUAAH!
Ruaahh!
RUAHH!
Não demorou muito até os inimigos chegarem.
A chuva negra engrossou. Sob as árvores, a pouca luz que restava desaparecia. Um cheiro de carne podre tomou conta do ar.
De repente...
Uma gigantesca clava rompeu a escuridão.
Descia diretamente sobre o das espadas.
Splash! Splash! Splash!
Outra figura disparou à frente.
BOOM!
Um enorme escudo defendeu o golpe.
A pancada fez a água negra explodir ao redor de seus pés, mas ele não recuou. A criatura, por outro lado, perdeu o equilíbrio e cambaleou para trás.
— Eles chegaram! — gritou o do escudo.
— Quantos são? — perguntou o das espadas.
— Quatro — respondeu a do livro. — Estamos cercados. Mais afastado tem mais um, um pouco menor.
— Uma rainha — disse o do martelo.
O líder apertou o cabo das espadas, sem se virar para o grupo.
— Bom, já sabem o que fazer — disse.
— Sim! — responderam todos em sintonia.
Na mesma hora, o grupo se reorganizou.
O das espadas disparou.
Uma luz amarela percorreu suas lâminas.
RUAAH!
Era um poderoso Orc, de quase quatro metros de altura. Sua pele era verde-acinzentada, seus olhos brilhavam em vermelho vivo, suas presas não cabiam na boca e carregava uma clava do tamanho de uma pessoa.
A criatura ergueu a clava e desceu com toda a força.
O homem deu apenas um passo para o lado.
BOOM!
A clava esmagou o chão.
Ele já estava ao lado da criatura.
SWING!
A primeira lâmina atravessou o calcanhar.
O Orc perdeu o apoio.
SWANG!
A segunda passou pelo joelho.
Sangue espirrou enquanto a criatura tombava.
O das espadas não parou.
Girou o corpo.
SWING!
Fumaça saía das lâminas enquanto a cabeça do Orc rolava no chão.
Ao mesmo tempo, outros três Orcs avançaram.
O primeiro ergueu a clava.
POW!
Foi parado pelo do escudo.
O impacto fez seus pés deslizarem na lama.
— Agora!
VRUHH!
Uma lança cortou o céu.
TRACK!
A ponta atravessou o centro da testa do Orc.
O gigante permaneceu imóvel por um instante. Então tombou.
O terceiro Orc mal teve tempo de atacar.
O do martelo avançou.
Saltou.
PAH!
O martelo atingiu o chão.
Terra e pedras explodiram diante dele.
O Orc ergueu a clava diante do rosto para se proteger.
Era esse o plano.
FUSH! FUSH! FUSH!
Flechas atravessaram a chuva.
Uma.
Duas.
Três.
Todas no pescoço.
RUAAH!
O Orc cambaleou, tentando arrancá-las.
Quando abaixou a clava, o do martelo já estava diante dele.
POW!
O golpe atingiu sua barriga.
O gigante saiu do chão e atravessou dois troncos secos antes de desaparecer entre as árvores.
O último Orc não avançou.
Não conseguia.
Uma luz anil envolvia seus olhos enquanto a do cajado mantinha a arma apontada para ele.
A criatura permanecia imóvel, como se nem sequer enxergasse o que acontecia ao redor.
A do livro abriu uma das mãos.
Uma luz violeta surgiu entre seus dedos.
O chão tremeu.
CRAC! CRAC!
As raízes das árvores começaram a se mover sob a terra.
— Me desculpe... — sussurrou ela.
As raízes irromperam do solo.
TCHAK!
Atravessaram o peito do Orc.
O corpo tombou para trás.
Rapidamente, o grupo voltou a se unir.
— Falta a rainha? — perguntou o do martelo.
A do livro permaneceu em silêncio por um instante.
— Apareceram mais... — Seus olhos se arregalaram. — São cinco... não, seis! Estão se aproximando rápido.
O do arco deu um passo à frente.
— Enquanto a rainha estiver aqui, vão continuar aparecendo.
O das espadas olhou para o grupo.
— Vamos fazer o seguinte. — Voltou-se para a do cajado. — Quanto tempo vocês três conseguem segurar seis Orcs?
Ela olhou para o do escudo e depois para a do livro.
— Uns dez minutos.
— É o suficiente! — O das espadas embainhou uma das lâminas e apontou para os outros três. — Nós quatro vamos atrás da rainha. Seis minutos para matar aquela coisa e mais quatro para voltar.
O do martelo gargalhou.
— Terminamos em três!
O das espadas sorriu.
— Você não é mais tão jovem! Talvez em quatro!
O do martelo bufou, enquanto os outros caíram na gargalhada.
O grupo se dividiu.
Três ficaram para trás.
Os outros quatro partiram atrás da rainha.
SPLASH! SPLASH! SPLASH!
À frente, o das espadas ergueu uma das mãos e parou.
O restante do grupo fez o mesmo.
— O que foi? — perguntou o do machado.
O das espadas olhou ao redor.
— Não sinto a presença dela. Pra onde ela foi?
O do arco se aproximou.
— A rainha Orc não está aqui.
Eles haviam chegado a uma clareira. Alguns metros à frente, as árvores simplesmente terminavam, dando lugar a um penhasco.
— Ela nos atraiu pra cá? — perguntou a da lança.
Um arrepio percorreu a nuca do das espadas. Ele arregalou os olhos.
— Os outros três! Precisamos voltar!
No momento em que se viraram...
SPLASH! SPLASH! SPLASH!
Três figuras encapuzadas surgiram correndo entre as árvores.
Eram os outros três.
O do escudo se aproximou, ofegante.
— Viemos o mais rápido possível. Por algum motivo, os Orcs desapareceram.
O do martelo bufou.
— É... Pelo visto, a rainha também.
— O que está acontecendo? — perguntou a do cajado.
A do livro permanecia imóvel.
— Era pra cá... — murmurou. — Era pra cá que eles queriam que a gente viesse.
— Tsc! — O do martelo estalou a língua. — Mas que merda... E agora?
O das espadas permaneceu em silêncio por alguns segundos.
Então caminhou até a beirada do penhasco.
Olhou para baixo.
Seus olhos se arregalaram.
— Pelo visto... chegamos!
Os outros se entreolharam.
— Como assim? — disse o do martelo ,caminhando até ele e olhando para baixo.
Seu sorriso desapareceu.
— Puta merda!
Um a um, os outros se aproximaram.
Diante deles, erguia-se um castelo gigantesco.
Suas torres atravessavam as nuvens cinzentas, desaparecendo dentro delas. As muralhas negras quase se confundiam com a escuridão que cobria aquela terra. Ao centro, duas enormes portas se erguiam, grandes o suficiente para que um gigante passasse por elas sem precisar se curvar.
E estavam abertas.
Escancaradas.
Como se os convidassem a entrar.
Por alguns segundos, ninguém disse nada.
— Bem... — O das espadas quebrou o silêncio. — Pelo visto, era aqui que queriam nos trazer.
— Devemos entrar? — perguntou o do escudo.
O das espadas continuou encarando o castelo.
— Ainda não. Estamos correndo há dois dias. Vamos recuperar as forças primeiro e decidir com calma o que fazer.
Ninguém contestou.
A chuva negra seguia intensa. As árvores secas mal ofereciam abrigo e, apesar da escuridão, o clima era particularmente abafado.
— Droga de chuva. Além de molhar, ainda mancha toda minha roupa — disse a da lança. — Sobrou alguma comida?
— Você já comeu tudo! — respondeu o do arco. — Nossa... não vejo a hora de sair deste lugar. Sinto falta do sol. — Ele suspirou profundamente. — Esse escuro dá preguiça de lutar.
— Você tá sempre com preguiça! — exclamou a do cajado. — Mas eu não recusaria uma praia quando tudo isso acabar.
A do livro estava deitada no chão, olhando para uma das árvores secas.
— Eu até que gosto daqui, as árvores são feias, mas são gentis.
— Hahahá! Só você mesmo — respondeu o do escudo. — Mas chega de papo furado, precisamos bolar um plano.
Um pouco afastado do grupo, o das espadas estava sentado ao lado de uma árvore quando o do martelo se aproximou.
— Ela deve estar bem...
— Espero que sim — respondeu o das espadas.
O do martelo apoiou a mão em seu ombro.
— Ela é uma mulher forte, tenho cert...
— Como eu deixei isso acontecer? — interrompeu o das espadas. — Por que ele não me levou no lugar dela?
— Você sabe o porquê... Ele quer te desestabilizar. Quer que você vá atrás dele.
O do martelo sentou-se ao seu lado.
Por alguns instantes, os dois apenas encararam o gigantesco castelo diante deles.
— Estou arrastando vocês pra essa armadilha... — O das espadas abaixou o olhar. — Me desculpe. Se eu fosse mais forte, ele não teria levado ela.
— Não precisa se desculpar. Mais cedo ou mais tarde teríamos que enfrentá-lo.
— Eu sei, mas parece errado... — Ele voltou os olhos para o castelo. — Ele nos trouxe até aqui. Entrar... é suicídio.
Seus dedos se fecharam e seu punho atingiu a terra molhada.
— Droga... Eu não sei o que fazer...
O do martelo deu um leve soco no ombro do das espadas e sorriu.
— Mas é por ela — disse, sorrindo. — Todos nós queremos salvá-la.
— Mas...
— Sem “mas”! — Ele deu um tapa nas costas do amigo e se levantou. — Anda logo, o grupo está esperando as palavras do líder. Capricha... talvez sejam as últimas. Hahahá!
Um pequeno sorriso escapou do das espadas.
Ele se levantou.
O amigo parou à sua frente e ergueu o martelo.
— É! Já que vamos morrer... vamos morrer com estilo!
Os outros haviam se aproximado.
Por alguns segundos, ninguém disse nada.
Então, um a um, ergueram suas armas.
— É!
O das espadas olhou para os seis.
Nenhum deles parecia disposto a recuar.
Seu sorriso aumentou.
— Já que querem tanto morrer... — Ele desembainhou as espadas e as apontou para o céu. — Vamos! Afinal, o anfitrião está nos esperando.
