pular para o conteúdo
ETHOS · Capítulo 7: A Floresta (Parte 1)
ETHOS

A Floresta (Parte 1)

por Vitor Custodio1.764 palavras~8 min

A mata permanecia silenciosa. Nenhum vento atravessava as copas, e o ar úmido parecia grudar na pele.

Não demorou até avistarem os primeiros monstros.

À primeira vista, pareciam javalis comuns.

Até Ethos olhar melhor.

Eram enormes. Presas compridas se projetavam para fora da boca, enquanto olhos vermelhos brilhavam na penumbra. Uma aura densa envolvia seus corpos e, conforme o grupo se aproximava, um cheiro forte de carne podre tomou o ar.

A influência do Deus do Medo fazia aquilo com os animais. Ironicamente, arrancava deles o próprio medo, deixando apenas agressividade.

Um verdadeiro desastre.

Ethos engoliu seco. Suas mãos tremiam, o suor escorria pelo rosto e sua respiração estava mais rápida. Mas ele se esforçava para se acalmar e escutar as instruções.

Os adultos foram na frente. Em um piscar de olhos, os monstros estavam quase todos caídos no chão.

Árnion se virou para ele e deu um largo sorriso.

— Estamos aqui, Ethi. No seu tempo, um passo de cada vez.

Dessa vez, ele ficou feliz em escutar essa frase novamente. Ver a tranquilidade deles o acalmava.

Ethos respirou fundo. Firmou o olhar e deu seu primeiro passo — o mais importante — em direção ao inimigo.

Os adultos, propositalmente, haviam deixado apenas um vivo para Ethos.

O garoto apertou forte os cabos das espadas. Eram mais pesadas que as espadas de treino que ele estava acostumado.

Não é um problema, pensou.

O javali raspou uma das patas no chão. Saliva espessa escorria entre suas presas. Naqueles olhos vermelhos, Ethos não enxergava medo, hesitação... nada.

Seu coração acelerou.

Ethos fechou os olhos por um instante.

Respirou fundo.

Quando abriu os olhos, o javali avançou.

Uma luz verde surgiu em seu peito e percorreu todo o corpo.

Ethos encheu os pulmões de ar, olhou firme nos olhos do javali e…

SHING!

Um corte rápido e ele já estava do outro lado da criatura.

O javali permaneceu imóvel por um instante.

Então sua cabeça deslizou do pescoço e caiu no chão.

Durak assobiou.

— Muito rápido! Vejo que treinou bem seu pirralho, Árnion!

— Quinze anos? Nada mal! — comentou Cárion.

Árnion sorriu.

— É meu garoto!

Ethos, ainda ofegante, se virou para os adultos e abriu um grande sorriso.

Mas não houve muito tempo para comemorar. Do meio da mata, dezenas de olhos cor-de-sangue se aproximavam.

Ethos se posicionou entre os adultos e o grupo avançou contra os monstros.

A batalha estava apenas começando.

O próximo grupo não ofereceu muita resistência. Eles rapidamente os derrotaram.

Então, vieram mais.

E mais.

Depois mais.

A cada confronto, Ethos hesitava um pouco menos.

No início, mantinha-se sempre próximo do pai. Mas com o passar das batalhas, ia se soltando e já se encontrava sozinho seu lugar na formação. Observava quando Cárion avançava, quando Durak abria espaço e quando Árnion recuava.

Cárion e Durak estavam impressionados com a velocidade de aprendizado de Ethos.

E, sempre que tinham alguns segundos de descanso, as perguntas começavam.

— Cárion, como você usou o vento daquele jeito…?

— Durak, como defendeu aquele golpe…?

— Pai, você viu quando eu…?

Cárion respirou fundo e olhou para Árnion.

— Ele sempre fala tanto assim?

Árnion sorriu.

— Você não faz ideia.

Em certo momento, dois javalis avançaram contra Ethos ao mesmo tempo. Um pela frente; o outro, pelas costas.

Ethos firmou os pés no chão.

CLANG!

Cruzou as espadas e conteve a investida do primeiro. O impacto o fez deslizar alguns centímetros para trás.

O segundo se aproximava rapidamente.

Ethos não olhou, apenas ergueu o pé e um brilho avermelhado percorreu sua perna.

TUM!

Ele pisou com força.

No mesmo instante, uma ponta de pedra irrompeu da terra atrás dele, atravessando o javali em plena investida.

Em seguida, Ethos fincou os pés no chão e empurrou o primeiro javali para trás.

Apertou os cabos das espadas e…

SHING!

A espada atravessou o pescoço do monstro restante.

Durak arregalou os olhos antes de cair na gargalhada.

Hahahá! Vento e terra? Esse pirralho é cheio de surpresas. O que você tem dado pra ele comer, Arni?

Árnion arqueou as sobrancelhas.

— Confesso que essa eu não esperava. — Um sorriso surgiu em seu rosto. — Deve ser coisa da mãe dele.

Ethos seguia concentrado em acompanhar os adultos. Piscava o mínimo possível. Precisava prestar atenção em tudo. Não queria atrapalhar.

Mas, conforme as batalhas se acumulavam, seu corpo começava a cobrar o preço.

Os monstros não paravam de surgir.

Um grupo atrás do outro... e depois outro.

PLAC!

POW!

TAC!

SHING!

A batalha não tinha fim.

Durak esmagou um javali com o martelo e passou o antebraço pela testa, limpando o suor.

— São muitos dessa vez, não?

SHING!

Árnion cortou outro que avançava pela lateral.

— Você que está ficando velho. Hahahá!

— Vai tomar no seu…

PLAC-PLAC!

Cárion atravessou um javali com a lança e, num giro, arremessou o corpo para o lado.

— Ele tem razão. — Seus olhos percorreram a mata. — Era para estarem diminuindo. Por que continuam aparecendo?

Árnion ergueu os olhos por entre as copas. A pouca luz que ainda atravessava as folhas começava a desaparecer.

— E já está escurecendo...

POW!

O martelo de Durak atingiu o chão. Terra e folhas voaram enquanto dois javalis eram arremessados para longe.

— Pirralho, você está bem?

SHING

Ethos atravessou o último javali e puxou a espada de volta. Seus ombros subiam e desciam a cada respiração.

— Sim, consigo me virar!

Ele forçou um sorriso e limpou o suor do rosto com o braço, espalhando ainda mais sangue pela pele.

Seus dedos começavam a endurecer ao redor dos cabos das espadas. Os pés doíam. Pequenos cortes se acumulavam pelos braços e ardiam cada vez que o sangue podre dos monstros escorria sobre eles.

Mesmo assim, Ethos apertou novamente as espadas. Não queria fraquejar.

Principalmente na frente do pai.

Mas, quando olhou ao redor, percebeu que até os adultos começavam a respirar mais pesado.

O laranja do pôr do sol já tingia o céu entre as copas das árvores.

Árnion respirou fundo e limpou uma das espadas na roupa.

— Certo! Mais um grupo foi. — Olhou ao redor. — São muitos dessa vez. Vamos descansar quinze minutos e recuar. Amanhã voltamos para terminar o serviço.

Ninguém reclamou.

Durak largou o martelo no chão e se sentou ao lado de uma árvore. Cárion apoiou a lança no tronco enquanto pegava o cantil. Árnion fez o mesmo.

Ethos praticamente se jogou no chão. Suas pernas agradeceram.

Finalmente poderia voltar para casa, tomar um banho e dormir.

Ele cheirou a própria roupa e fez uma careta.

Esse cheiro de carne podre não vai sair fácil, pensou.

— Muito bem, pirralho! — Durak deu uma mordida em uma barra de alimento. — Seu pai te treinou direitinho.

Ethos ergueu a cabeça. Mesmo ofegante, abriu um sorriso orgulhoso.

— Obrigado! Espero não ter atrapalhado vocês.

— Você foi bem, pirralho! Dá pra ver que...

ROOWW!!

Um rugido ensurdecedor ecoou pela floresta.

Bandos de aves explodiram por entre as copas.

Ethos sentiu o chão vibrar sob as mãos.

TUM…

Uma árvore tombou ao longe.

TUM… TUM…

Outra árvore caiu. Mais perto.

Os três adultos se levantaram quase ao mesmo tempo.

— Ethos, atrás da gente! — disse Árnion, já com as duas espadas em mãos. — E não esquece: se eu mandar, você foge!

Ethos se levantou num salto.

— Certo!

Durak agarrou o martelo. Cárion girou a lança e tomou posição. Ethos recuou, ficando atrás dos três.

TUM…

O chão tremeu novamente.

CRACK!

O som de galhos se partindo ecoava pela mata.

TUM…

Mais perto.

TUM!

Ethos apertou os cabos das espadas.

Então…

Tudo parou.

Silêncio.

Por alguns segundos, apenas uma leve corrente de ar atravessou as folhas acima deles.

POW!

ROOOWWWW!

Um grande rugido e a floresta explodiu diante deles.

Troncos se partiram. Galhos e folhas voaram pelo ar enquanto uma criatura colossal emergia por entre as árvores, derrubando-as como se fossem gravetos. Devia ter quase quatro metros de altura.

Sua pele era verde-acinzentada. Os olhos brilhavam em vermelho vivo e duas enormes presas escapavam da boca. Em uma das mãos, carregava uma clava de madeira quase tão grande quanto o próprio Ethos.

E ao cheiro de carne podre estava muito mais forte.

Árnion franziu a testa.

— Um... Orc?! Era para estarem extintos!

Durak ergueu o martelo, bufando.

— Que diabos isso está fazendo aqui?

Cárion girou a lança, firme.

— Não importa. O que deve ser feito, vai ser feito.

Árnion olhou para Ethos e abriu um sorriso.

— Filho... fique para trás, está na hora dos adultos mostrarem como se faz.

Ethos recuou e tomou posição.

Seu coração martelava no peito. Suas pernas tremiam. Sua respiração era rápida e curta, enquanto um formigamento percorria seus dedos.

Cansaço? Medo? Ansiedade?

Ele já não sabia.

O Orc deu um passo.

TUM!

O chão tremeu.

TUM!

Outro.

Ethos apertou as espadas.

A cada tremor do chão, seu coração parecia parar.

Então... os três avançaram.

Durak foi na frente.

Ele saltou, erguendo o enorme martelo acima da cabeça.

BOOM!

Martelo e clava colidiram.

O impacto espalhou folhas e poeira pelo chão. O Orc rugiu e deu alguns passos desequilibrados para trás.

Ethos arregalou os olhos.

Ele empurrou aquela coisa?!

Árnion e Cárion já estavam em movimento.

Um pela direita.

Outro pela esquerda.

SHRACK!

Espadas e lança rasgaram as pernas da criatura quase ao mesmo tempo.

ROOOW!

O Orc caiu de joelhos.

Durak não perdeu tempo. Assim que seus pés tocaram o chão, avançou novamente.

BOOM!

O martelo afundou no peito da criatura.

O Orc foi arrancado do chão e lançado contra as árvores.

Alguns troncos se partiram com o impacto.

Ethos estava imóvel com os olhos arregalados.

Sinergia. Confiança. Força.

Eram impecáveis.

Ethos soltou lentamente o ar que nem percebera estar segurando.

Suas pernas pararam de tremer.

Eles são incríveis…

O monstro que havia feito a floresta inteira tremer mal conseguia reagir.

Perto daqueles três, não havia o que temer.

Árnion disparou em direção ao Orc caído.

A criatura tentou se levantar.

Tarde demais.

Quando Árnion estava a poucos passos…

ROOWWWWW!!

O rugido atravessou a floresta.

Ethos levou as mãos aos ouvido. Bandos de aves levantaram voo ao longe.

Árnion não hesitou.

SHING!

Suas espadas atravessaram o pescoço da criatura.

O enorme corpo tombou.

Ethos respirou aliviado.

No fim, ele não teve a menor chance.

Mas algo parecia errado...

Árnion se virou bruscamente e disparou em direção a Ethos.

— DROGA… NÃO CONSEGUIMOS A TEMPO! ETHOS, CORRE!!

O alívio desapareceu do rosto do garoto.

Seu sangue gelou.

O que está acontecendo?

capítulo 08 de 08

Você atravessou.

Levou cerca de 1 min de leitura.

como te deixou?

Já lê faz 8 capítulos. Avalia?

leva 6 toques · ajuda quem escreve a calibrar.

Você chegou ao fim da obra. Isso é raro.

Discutir o capítulo

pular pros comentários do fim

Sumário da obra

ver todos os capítulos

discussão

comentários do capítulo

0 comentários · seja gentil com quem escreve

entrar pra comentar.

cap 8/8100%1764 palavras