A noite já começava a cair e a visão ficava cada vez mais prejudicada.
O grupo corria em formação, com Durak na dianteira e Ethos protegido no centro. Cárion seguia ao lado, atento aos sons da floresta, enquanto Árnion mantinha o olhar fixo à frente.
— O que está acontecendo? — perguntou Ethos, ofegante. — Ele não morreu? Aquele rugido parecia um grito de desespero.
Árnion não diminuiu o passo.
— Aquilo não era um grito. Era um chamado. Orcs nunca estão sozinhos.
Ethos sentiu um arrepio percorrer a nuca.
— Não conseguimos matá-lo antes que chamasse os outros — completou Árnion.
Durak, à frente, rangeu os dentes.
— Em outra situação, um grupo de Orcs não seria problema. Mas do jeito que estamos agora...
ROWW!!
Outro rugido respondeu ao longe.
Roww...
RoWwW!
Outros surgiam de várias direções.
O grupo apertou o passo. Os rugidos continuavam ecoando entre as árvores, cada vez mais próximos.
De repente, a mata se abriu, dando lugar a um campo aberto.
Eles continuaram correndo por mais alguns instantes.
— PAREM! — gritou Durak.
Todos frearam abruptamente.
Um passo a mais e teriam despencado. Um enorme penhasco se abria diante deles, desaparecendo na escuridão lá embaixo.
Árnion franziu a testa.
— Droga, viemos pelo caminho errado… Temos que voltar!
O grupo se virou para seguir em outra direção.
Mas…
TUM... TUM... TUMM...
O chão voltou a tremer.
Um estrondo veio da mata. Depois outro. Árvores começaram a tombar uma após a outra, enquanto alguma coisa avançava por entre elas.
Os quatro pararam.
TUM… TUM…
Até que três enormes silhuetas surgiram na escuridão.
Ethos arregalou os olhos.
Eram três Orcs. Todos eram ainda maiores, mas havia um que se destacava entre eles por seu tamanho colossal.
Sob a luz da lua, os três avançaram para fora das sombras. Os olhos vermelhos brilhavam na escuridão, e grandes clavas arrastavam pelo chão enquanto caminhavam.
Árnion ergueu as espadas.
Durak levou o martelo à frente do corpo. Cárion girou a lança e firmou os pés no chão.
Ethos engoliu seco. As pernas tremiam, mas ele respirou fundo, sacou as duas espadas e tomou posição.
Não havia mais para onde correr.
Acima deles, a lua cheia tingia-se de vermelho no céu.
Ela testemunhava…
O inferno prestes a começar.
Árnion mantinha os olhos nas criaturas que se aproximavam.
— Ethos, preste atenção. Dessa vez, você vai ter que encontrar uma abertura para fugir. Nós vamos cuidar deles, mas você precisa triplicar o cuidado.
Ethos assentiu, apertando os cabos das espadas.
— Ok… Não se preocupe.
Durak firmou os pés no chão. Cárion respirou fundo. Árnion abaixou o corpo e preparou as espadas. Os três estavam prestes a avançar quando um barulho veio da mata.
Galhos se quebraram.
Folhas se agitaram.
Dezenas de olhos vermelhos surgiram entre as árvores.
— Ah, qual é... — resmungou Durak.
Um grupo de javalis-monstro irrompeu no campo aberto, avançando diretamente contra eles.
Ethos olhou para os javalis. Depois, para os três Orcs à frente.
Sem esperar uma ordem, seu corpo se moveu.
SHING!
Ethos disparou contra os primeiros javalis. As lâminas riscaram o ar e, um instante depois, três deles tombaram.
— Eu cuido dos menores! — gritou, tomando posição entre os javalis e os adultos. — Vocês cuidam daquelas coisas feias ali na frente!
Durak caiu na gargalhada.
— Hahahá! Muito bem, pirralho.
Cárion lançou um breve olhar para o garoto e esboçou um sorriso.
— Tudo bem. Contamos com você.
Árnion permaneceu sério por um instante. Ethos sustentou seu olhar.
O pai soltou o ar pelo nariz e acabou sorrindo.
— Não conte pra sua mãe.
Ethos abriu um sorriso.
— E... tome cuidado, filho — completou Árnion.
Ethos assentiu.
À frente, três gigantescos Orcs.
Atrás, uma horda de javalis.
Ao redor, a mata fechada e um penhasco que não lhes deixava saída.
Acima, a lua assumia um tom cada vez mais próximo do sangue.
Exaustos, famintos, sujos e machucados, os quatro avançaram.
Dessa vez, não havia espaço para recuar.
SHING!
Ethos cortou mais um dos javalis e rapidamente girou o corpo.
CLANG!
As espadas seguraram as presas de outro a poucos centímetros do peito.
— Saí!
Um chute afastou a criatura. Ethos avançou logo em seguida.
SHING!
Mais um caiu.
E depois outro.
E outro.
Aos poucos, Ethos recuava pelo campo aberto, atraindo os javalis para longe dos adultos. Não podia deixar nenhum passar. Árnion, Durak e Cárion já tinham problemas suficientes.
Ainda assim, entre um golpe e outro, seus olhos sempre voltavam para a batalha que começava alguns metros adiante.
Os três Orcs avançavam lentamente sob a luz avermelhada da lua. De perto, eram ainda maiores do que pareciam. Mais largos, mais musculosos, com a pele escura se confundindo com as sombras da floresta. Às vezes, tudo que Ethos conseguia distinguir eram aqueles olhos vermelhos brilhando no escuro.
E o do meio… Aquele era diferente. Colossal. Quase uma aberração mesmo entre os outros dois.
O cheiro de carne podre que vinha deles chegava a embrulhar o estômago.
Os três Orcs não atacaram imediatamente.
Observavam.
Um deles começou a se mover para a esquerda. O outro tomou a direção oposta, enquanto o maior permaneceu no centro, encarando os três homens.
Árnion estreitou os olhos.
Aquilo não era o comportamento de uma fera.
Os adultos trocaram um breve olhar. Não disseram nada.
E tomaram a iniciativa.
Durak e Árnion avançaram juntos contra os dois primeiros. Cárion disparou para a esquerda, atraindo o maior para longe dos outros.
O Orc mordeu a isca.
TUM! TUM! TUM!
A criatura partiu atrás dele. Cada passada fazia o solo estremecer, enquanto Cárion corria pelo campo aberto que separava a floresta da borda do penhasco.
O monstro ergueu a clava.
BOM!
O golpe esmagou o chão. Terra e poeira explodiram para todos os lados.
Mas Cárion já não estava lá.
Ethos — após derrubar mais um javali — arregalou os olhos. Uma rajada havia atravessado o campo.
Cárion surgiu vários metros à esquerda do monstro, deslizando pelo chão. Girou a lança e arremessou.
FWOOSH!
A arma cortou o ar em uma velocidade absurda.
O Orc inclinou o corpo.
SHRACK!
A ponta passou raspando seu ombro, abrindo um corte.
Ele ficou desarmado, pensou Ethos.
Ele mal terminou o pensamento e precisou saltar para escapar da investida de outro javali. Ao tocar o chão, girou o corpo e cortou a criatura.
SHING!
Quando voltou os olhos para Cárion, o Orc mostrava os dentes, pronto para avançar contra ele.
Mas num piscar de olhos…
FWOOSH!
Outra rajada atravessou o campo.
Cárion desapareceu.
Surgiu do outro lado do Orc e agarrou a lança antes mesmo que ela tocasse o chão.
Ethos ficou boquiaberto.
Cárion arremessou novamente.
FWOOSH!
SHRACK!
Outro corte.
FWOOSH!
SHRACK!
E de novo.
Cada vez mais rápido.
Em poucos instantes, Ethos já não conseguia acompanhar seus movimentos. Cárion surgia em um ponto do campo e desaparecia no seguinte. Logo, nem isso. Restavam apenas rajadas cortando a noite e o som da lança rasgando o ar.
FWOOSH!
SHRACK!
FWOOSH!
SHRACK!
O Orc girava de um lado para o outro, tentando encontrá-lo, enquanto novos cortes surgiam por seus braços, pernas e torso.
Ethos segurou a respiração.
Então esse é o auge do elemento vento?
Dois javalis avançaram. Ethos respirou fundo e disparou contra eles.
SHING! SHING!
Os dois tombaram.
Ele tornou a olhar para Cárion.
Eu não chego nem perto daquela velocidade.
ROOW!
O Orc rugiu e, pela primeira vez, recuou.
Então se virou e correu.
Mesmo assim, Cárion continuava atacando sem dar qualquer abertura.
Esses ataques… parecem superficiais, Ethos pensava.
Mais dois javalis saltaram sobre Ethos.
SHING!
Ethos girou as espadas e derrubou as duas criaturas. Assim que seus pés tocaram o chão, voltou os olhos para Cárion.
E então arregalou os olhos.
O Orc havia recuado para a escuridão. Sua enorme silhueta desapareceu entre as árvores, engolida pelas sombras da floresta.
Cárion parou.
Fechou os olhos e abaixou lentamente a ponta da lança.
Inspirou.
Uma brisa suave percorreu o campo e adentrou a floresta. Passou por entre as folhas, contornou os troncos e deslizou sobre as pedras.
Até encontrar alguma coisa.
Os olhos de Cárion se abriram.
Girou o corpo.
FWOOSH!
A lança desapareceu em meio à escuridão.
SHRACK!
— ROOOWW!
O Orc irrompeu entre as árvores com um novo corte atravessando o braço.
Ethos abriu um sorriso.
Ele consegue sentir onde está. Eu preciso aprender isso!
Não importava onde aquele monstro se escondesse.
O vento encontraria primeiro.
Cárion voltou a se mover.
FWOOSH!
SHRACK!
ROOW!
O Orc rugia, cada vez mais irritado. Mas Cárion não lhe dava espaço para retornar ao campo de batalha. Sempre que a criatura tentava avançar na direção dos outros, a lança de Cárion cortava seu caminho.
Ethos franziu a testa.
Espera…
Seus olhos acompanharam o Orc. Depois, Cárion. Então, Árnion e Durak, cada vez mais distantes.
Esses cortes…
Um sorriso surgiu em seu rosto.
Ele não está tentando derrotá-lo.
Está ganhando tempo.
Então, os olhos de Ethos buscaram Durak e Árnion do outro lado do campo.
Mas encontrou apenas Durak.
O baixinho permanecia imóvel, martelo em mãos, encarando as duas enormes criaturas de frente.
Cadê meu pai?
Não teve tempo para procurar. Três javalis saltaram contra ele.
— Droga, acaba logo! Tô perdendo a luta!
SHING!
Ethos girou o corpo, e as duas lâminas atravessaram os três quase ao mesmo tempo.
Restavam poucos. Ele já estava ofegante, os braços pesavam e o suor escorria pelo rosto, mas seus olhos continuavam atentos à batalha.
De repente…
BOOOOM!
O chão explodiu.
Terra e pedras foram lançadas para o alto, e uma onda de impacto se espalhou pelo campo. Os dois Orcs recuaram alguns passos.
Rosnaram.
Ergueram as clavas e avançaram juntos.
Durak arrancou o martelo do chão e o apoiou no ombro.
Um sorriso surgiu por trás da barba grisalha.
— Pode vir, coisas feias.
As duas criaturas voltaram toda a atenção para Durak.
Então…
SHING!
Um corte atingiu a parte de trás do joelho de um dos Orcs.
A criatura grunhiu e tombou parcialmente.
Era Árnion.
Ele havia surgido por trás e já saltava em direção ao pescoço do monstro.
Agora!
Mas uma clava surgiu.
WHOSH!
Árnion arregalou os olhos e torceu o corpo no ar.
BOOM!
A clava passou raspando e esmagou o chão logo abaixo dele.
O segundo Orc.
Árnion aterrissou e imediatamente deu outro salto para trás, parando ao lado de Durak.
Os dois Orcs também se reposicionaram.
O ferido recuou.
O outro avançou e tomou sua frente, protegendo-o.
Árnion estreitou os olhos.
— Eles estão se ajudando.
Durak cuspiu no chão.
— São Orcs-rei. Eles são muito inteligentes.
— É... eu me lembro.
Árnion respirou fundo, sem tirar os olhos das criaturas.
— Precisamos de um plano.
Durak assentiu.
Por um instante, ninguém se moveu.
Os dois se olharam.
Um segundo.
Talvez menos.
Durak sorriu.
Árnion também.
Ethos franziu a testa.
O quê...?
Nenhum dos dois havia dito nada.
Árnion avançou.
O Orc ergueu a clava sobre a cabeça.
Árnion continuou correndo.
A criatura preparou o golpe.
Ele não desviou.
Não diminuiu.
Não levantou as espadas.
Ethos arregalou os olhos.
— PAI!
A clava desceu.
Árnion continuou em linha reta.
POOOOOOW!
Durak surgiu pela lateral.
O martelo atingiu a clava em pleno movimento.
O impacto foi tão forte que o braço do Orc foi lançado para o lado.
A clava atingiu o chão.
Árnion sequer olhou.
Não precisava.
Ele sabia que Durak estaria lá.
Seus pés não pararam. Árnion saltou.
SHRACK!
As duas lâminas atingiram o pescoço.
Árnion pousou logo atrás do Orc.
Mas o monstro permaneceu de pé. Sangue escorria pela garganta. O corte havia sido profundo… mas não o suficiente.
— Que pele desgraçada… — grunhiu Durak.
O outro Orc avançou imediatamente para proteger o companheiro. A clava veio contra Árnion.
Durak apareceu novamente.
Mas, dessa vez, um brilho vermelho surgiu em suas pernas, subiu até as mãos e percorreu todo o martelo.
Durak firmou os pés e girou o corpo.
POOOOOOW!
Martelo e clava colidiram.
Por um instante, nenhuma das duas armas cedeu.
Então…
CRACK!
Uma rachadura surgiu na clava.
CRACK! CRACK!
Outras se espalharam pela madeira.
O Orc arregalou os olhos.
Durak abriu um sorriso.
CRAAAAAACK!
A arma explodiu em dezenas de pedaços.
Árnion já estava correndo com fumaça escapando de suas espadas.
O Orc ferido tentou erguer os braços.
Tarde demais.
SHING!
A cabeça caiu.
O corpo tombou em seguida.
Árnion e Durak saltaram para trás. Durak quase perdeu o equilíbrio ao pousar e precisou se apoiar no martelo.
Árnion respirava pesadamente.
Mas sorriu.
O Orc restante olhou para o corpo do companheiro. Depois, para os dois homens à sua frente.
O vermelho de seus olhos se intensificou.
— ROOOOOOWWW!
Ele avançou.
Durak bufou.
— Vem.
E correu de encontro à criatura.
BOOOOM!
Martelo e clava colidiram.
Os pés de Durak afundaram alguns centímetros na terra.
Mas ele segurou.
Árnion avançou pela direita.
A perna do Orc estava completamente exposta.
A poucos metros dali, Ethos derrubou mais alguns dos javalis restantes e imediatamente voltou os olhos para a luta.
Ele vai pegar!
Árnion preparou as espadas.
O Orc olhou para ele.
E sorriu.
Ethos congelou.
TUM!
O Orc pisou com força.
O solo cedeu sob Árnion. Seu pé afundou na terra, jogando todo o seu corpo para o lado.
Por um instante, Ethos arregalou os olhos.
Então…
Sorriu.
Idiota.
Ele conhecia aquilo.
Isso não vai funcionar.
Árnion tinha apenas um pé firme.
Foi o suficiente.
Ele flexionou a perna.
O sorriso desapareceu do rosto do Orc.
Árnion se lançou para frente.
PUFF!
Chamas brancas surgiram de suas espadas.
SHIIIIING!
Árnion passou pelo monstro e pousou do outro lado.
O Orc permaneceu imóvel.
Uma enorme linha atravessava seu peito. As bordas do corte começaram a brilhar e, logo depois, escureceram. A carne carbonizou.
O gigante tombou.
Mas seu corpo virou cinzas antes mesmo de atingir o chão.
Árnion sorriu.
Durak finalmente soltou o ar.
Ethos ficou boquiaberto.
Por um instante, silêncio.
Então…
FWOOSH!
Uma rajada atravessou o campo.
Cárion passou por Árnion e Durak em alta velocidade e freou logo atrás deles.
O último Orc-rei vinha em seu encalço.
Sangrando.
Coberto de cortes.
Furioso.
E ainda assustadoramente rápido.
Cárion não precisou explicar. Havia trazido o inimigo exatamente até eles.
— AGORA!
E os três se moveram ao mesmo tempo.
Árnion saltou.
BOM!
Fogo branco explodiu sob seus pés. O impulso o lançou pelos ares, fazendo seu corpo descrever um grande arco sobre o campo de batalha.
Ethos acabava de derrubar o último javali. Respirava pesadamente quando percebeu a luz.
Olhou para cima.
Árnion continuava subindo.
Até que sua silhueta cruzou a lua vermelha.
Ao mesmo tempo…
TUM!
Durak pisou com força. O chão se rompeu, e uma enorme placa de pedra se ergueu diante dele.
O baixinho girou o martelo.
POOOOOOW!
A pedra disparou.
O Orc mal teve tempo de cruzar os braços.
BOOM!
O impacto arrancou seus pés do chão e o arremessou para trás. A criatura caiu violentamente, arrastando terra pelo caminho.
Tentou se levantar.
Não conseguiu.
FWWOOOOOSH!
A lança de Cárion atravessou a escuridão.
THUNK!
Perfurou o peito do monstro e o cravou contra o solo.
O Orc rugiu. As duas mãos agarraram a haste. Os músculos dos braços incharam enquanto ele, lentamente, começava a arrancá-la do próprio peito.
Ethos arregalou os olhos.
Mesmo depois disso?!
Então uma luz branca iluminou o campo.
Ele olhou para cima.
Árnion já estava descendo.
As duas espadas ardiam, mas aquele não era um fogo comum.
Era um fogo branco, de brilho quase cegante — como uma estrela rasgando a escuridão da noite.
O calor alcançou Ethos mesmo à distância.
Era intenso.
Absurdo.
Mas havia algo estranho nele.
Era quente e, ao mesmo tempo, acolhedor.
Familiar.
Como um abraço de seu pai.
O Orc finalmente arrancou a lança.
Tarde demais.
Árnion caiu sobre ele.
SHIIIIIIIIING!
Um clarão branco tomou a floresta.
Ethos protegeu os olhos com o braço. Por um instante, não conseguiu enxergar nada.
Quando a luz desapareceu…
Não havia mais Orc.
A terra estava negra, carbonizada. Pequenos focos de fogo branco ainda ardiam pelo chão, desaparecendo aos poucos.
Ethos permaneceu imóvel.
Meu pai…
Engoliu seco.
...tem tanto poder assim?
Árnion pousou alguns metros adiante, deslizando os pés pela terra. Endireitou o corpo e sacudiu as espadas.
As chamas se apagaram.
Depois de toda aquela confusão…
Vushhh…
Uma leve brisa atravessou as árvores.
Ethos olhou em volta.
Os javalis estavam mortos.
Os Orcs também.
Durak apoiava o grande martelo no ombro, tentando recuperar o fôlego. Cárion recolheu sua lança e sacudiu a capa, retirando algumas folhas presas nela. Mais adiante, Árnion limpava o sangue do rosto.
Os braços do garoto finalmente relaxaram.
Um enorme sorriso surgiu em seu rosto.
Enfim, tudo bem…
Ele começou a caminhar em direção ao pai.
Um cheiro doce tomou conta do ar.
Ele respirou fundo.
Finalmente aquele cheiro horrível acabou.
Continuou caminhando.
Vamos poder ir pra casa…
Seu pai estava alguns metros adiante, ainda ofegante. Cárion mantinha a mesma expressão séria de sempre.
Durak percebeu sua aproximação e sorriu de longe.
Então…
WHOOSH!
Durak simplesmente desapareceu.
POW!
Um estrondo ecoou entre as árvores. O corpo do anão havia voado para dentro da mata.
— DURAK?!
POW!
Cárion foi o próximo. Voou vários metros antes de cair imóvel no chão.
O sorriso desapareceu do rosto de Ethos.
Seus dedos afrouxaram ao redor das espadas.
Árnion começou a correr em direção ao garoto.
— CORRE, ETHI! É UMA RAINHA! CORRE!
Foi tudo rápido demais.
Durak havia desaparecido entre as árvores. Cárion não se mexia. Seu pai corria desesperadamente em sua direção.
O que está acontecendo?
Ethos não entendia.
Até que seus olhos se arregalaram.
Uma sombra tomou seu campo de visão.
Ethos ergueu a cabeça.
Uma clava gigantesca descia sobre ele.
Já estava perto demais.
Seu corpo não reagiu.
Eu vou morrer.
Merda.
Eu baixei a guarda…
A clava desceu.
POW!
O mundo girou.
Ethos sentiu o corpo ser arrancado do chão e, no instante seguinte, bateu violentamente contra a terra. Rolou várias vezes antes de parar.
Por alguns segundos, não ouviu nada.
Apenas um zumbido.
E calor.
— ...Quente... — sussurrou.
Abriu os olhos com dificuldade.
Árnion estava caído ao seu lado.
— Pai…? — A voz saiu quase sem força.
Aos poucos, entendeu o que havia acontecido.
No último instante, seu pai havia se jogado entre ele e a clava.
Árnion apoiou uma das espadas no chão e se levantou com dificuldade. As pernas cambalearam, mas ele permaneceu de pé.
— Você está bem, filho?
Ethos tentou se levantar, mas seu corpo não respondeu.
— S-sim…
ROOW!
Os dois voltaram os olhos para a penumbra da floresta.
Da escuridão…
Algo caminhou para fora.
TUM!
Um pé enorme esmagou as folhas.
TUM!
Depois outro.
Aos poucos, uma silhueta se formou.
Então, mais um Orc surgiu diante deles.
Era um pouco menor que os outros três. Sua pele tinha um tom mais claro. E, diferente dos demais, sorria.
Um sorriso que fez o estômago de Ethos se revirar.
Não fazia sentido.
Era menor. Não parecia tão forte quanto os outros.
Mas cada parte de seu corpo gritava a mesma coisa.
Corre.
Ethos tentou mover as pernas novamente.
A dor não deixou.
— Pai… o que vamos fazer?
Árnion se virou.
Seus olhos estavam fundos. A pele, coberta de cortes. Suor e sangue escorriam pelo rosto, e até as mãos que seguravam as espadas tremiam.
Mesmo assim, ele sorriu.
— Vou te mostrar o que seu velho pai pode fazer!
Ele apertou os cabos das espadas.
Uma luz amarela surgiu do seu abdômen.
Pulsou.
Ficou mais intensa.
Mais clara.
Até se tornar branca.
PUFF!
Fogo branco irrompeu de seu corpo.
Árnion avançou.
Em um instante, já estava diante da criatura.
A Rainha ergueu a clava e golpeou de cima para baixo.
Árnion cruzou as espadas.
POW!
O impacto sacudiu o campo.
Ele segurou.
Mas seus braços tremiam.
O solo começou a ceder sob seus pés.
Primeiro, alguns centímetros.
Depois mais.
Árnion rangeu os dentes.
A força daquela criatura era brutal.
Seu corpo já implorava por descanso. As pernas mal o sustentavam, os braços queimavam e sua visão começava a pesar.
Mas recuar não era uma opção.
Ethos estava atrás dele.
Árnion desviou a força da clava para o lado e se jogou na direção oposta. Rolou pela terra algumas vezes antes de fincar uma espada no chão e recuperar o equilíbrio.
Levantou-se imediatamente.
A Rainha não o perseguiu. Apenas apoiou a clava no ombro e sorriu.
Era como se estivesse brincando com ele.
Árnion cuspiu sangue no chão.
E correu.
A criatura ergueu a clava novamente.
BOOM!
Árnion desviou para o lado. O golpe esmagou o chão, e ele aproveitou a abertura para avançar por baixo do braço da criatura.
Abaixou o corpo.
Girou.
E correu pela lateral do monstro.
SHRACK!
Uma das espadas rasgou o abdômen da criatura. Fogo branco acompanhou o corte, deixando um enorme rastro queimado pela pele.
A Rainha rugiu e saltou para trás.
Árnion não parou.
PUFF!
Uma explosão sob seus pés mudou sua trajetória no ar no instante em que a clava passou por ele.
Ele viu a abertura.
Os braços da criatura estavam expostos.
Árnion avançou.
Mas seus olhos se arregalaram.
A Rainha estava sorrindo.
É uma armadilha, pensou.
A perna da criatura já vinha contra ele.
POOOOW!
O chute atingiu Árnion em cheio no estômago.
Sangue escapou de sua boca. Seu corpo foi arremessado para longe, bateu violentamente contra o chão e rolou até parar a poucos metros de Ethos.
— Pai…
Ethos mal ouviu a própria voz.
Suas pernas estavam dormentes. A visão escurecia. Até respirar começava a exigir esforço.
Não posso…
Piscou com força.
Preciso ficar acordado.
Árnion se mexeu.
Primeiro, apoiou uma mão no chão. Depois uma espada.
E se levantou.
Outra vez.
Ethos o encarou.
Árnion também olhou para ele.
Por alguns segundos, nenhum dos dois disse nada.
Então seu pai sorriu.
O mesmo sorriso de sempre.
— Cuide das meninas.
Ethos franziu a testa.
— Pai...?
Árnion se virou.
E correu.
Uma chama ainda mais intensa surgiu de seu abdômen.
As chamas se espalharam pelo corpo. Primeiro pelo peito e pelos ombros. Depois, pelos braços e pernas.
Árnion continuou correndo.
Por fim, alcançaram as espadas.
A luz aumentava.
O ar ficava cada vez mais quente.
Até que Ethos já não conseguia distinguir o fogo de seu pai.
Havia apenas uma silhueta branca avançando pela escuridão.
A Rainha deixou de sorrir.
Ethos tentou erguer o corpo.
— Pai...
Árnion se lançou contra a criatura.
E o mundo virou luz.
BOOOOOOOOOOM!
Por um instante, a noite deixou de existir.
O clarão atravessou o campo, engoliu as árvores e iluminou o penhasco como um pequeno sol. A onda de impacto varreu tudo ao redor.
Ethos protegeu o rosto.
PIIIIIH!
Um apito tomou seus ouvidos.
Não ouvia mais nada.
Não enxergava nada.
Não conseguia pensar.
Tudo era apenas… branco.
PIIIIIH!
Aos poucos, o clarão enfraqueceu.
Ethos piscou.
Uma vez.
Outra.
As formas começaram a retornar.
Acima dele, a lua já não estava vermelha.
— Pai…?
Sua visão escureceu.
E desmaiou.
