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A Caça · Capítulo 1: Unidos (1)
A Caça
arco 1 · St.Dennis · cap. 1

Capítulo 1: Unidos (1)

por PsyBRYsp4.007 palavras~18 min

St. Dennis - Ashveil Street - Apt.104 - 8:40 A.M

O ambiente soturno foi preenchido pelo som de teclas pressionadas em alta velocidade e o bocejo longo do homem de cabelo médio castanho, óculos e cavanhaque ralo.

— Pfft! Só pode ser brincadeira… — murmurou o indivíduo em frente ao seu computador.

Seus dedos bateram na mesa, após ter encarado o conteúdo na tela. Embora sério, as visualizações de pessoas estranhas, e os comentários de incentivo, lhe deram motivação para continuar.

— Vamo lá!

O homem respirou fundo, permitindo que o ar atingisse suas narinas, mesmo que de forma limitada pela máscara de médico da peste. Ele clicou no botão de gravação.

— Oi, pra quem está chegando agora, eu sou Corvus, e posto nesse blog como hobby e objetivo de vida.

Seus olhos, vez ou outra, se fixavam no cenário de fundo verde exibido no monitor. Por trás da máscara um sorriso leve se instaurou, abrindo um vídeo durante a gravação.

— Desde 2031, venho tentando mostrar a verdade por trás das mentiras que contam pra gente — Disse ele, e depois de conferir o tempo de gravação, continuou — No vídeo de hoje, quero mostrar a vocês as mentiras que foram ditas por nosso governante três dias depois do evento. Ele pensa que somos tão idiotas assim para cair nisso? Bem… do jeito que nossa sociedade anda, eu pensaria a mesma coisa…

Ele passou os próximos 15 minutos explicando a incongruência na fala do Governador Supremo.

— Como sempre, guarde esse link e compartilhe com aqueles que você confia. Desligando.

O indivíduo salvou o vídeo em seu computador e se levantou para comer algo na cozinha. De repente, passos são ouvidos do lado de fora, seguidos por batidas na porta.

— Quem é?

— Eddie… sou eu, a Christy! — respondeu a voz feminina do outro lado.

Edward abriu a porta, revelando sua amiga de infância. O abraço veio dela, uma pressão leve e acolhedora, causando um leve rubor nas bochechas do moreno. A mão dele repousou no cabelo loiro de Christy.

— Para… vai bagunçar meu cabelo!

— Foi mal.

Ela se afastou e bateu o pé no chão ao ritmo da música em seus fones de ouvido

— Que música você tá ouvindo?

— In The End, obviamente.

Edward levantou a sobrancelha, deixando escapar uma leve risada.

— De novo!? Sabia que eles têm outras músicas?

— Eu sei, eu sei… — ela revirou os olhos e continuou — Mas essa é a minha favorita, eu também gosto de ouvir Emptiness Machine, às vezes.

Edward suspirou e afundou na poltrona da sala, onde um rangido escapou das molas. A mulher retirou os fones e parou para observar o lugar.

— Bleh! Quando você limpou essa casa pela última vez?

— Eu tenho andado muito ocupado com meu trabalho… Nem percebi a bagunça.

Os olhos da loira fitaram o ambiente de trabalho de Edward, as paredes manchadas, o quadro negro com rabiscos de giz e o mural de conexões investigativas. Um sorriso travesso surgiu em seu rosto.

— Com trabalho, você quer dizer seu blog de conspirações? Nem sei como não te pegaram ainda.

Edward a encarou com um sorriso desajeitado por alguns segundos.

— Também não sei como, mas você sabe que eu não vou desistir disso, não depois do que aconteceu…

— Me desculpe, Eddie… não queria te lembrar daquilo.

— Não se preocupe… E obrigado por ainda se importar comigo.

Ela deu um tapa leve em seu ombro, sorrindo de canto.

— Você não vai se livrar de mim tão fácil, ouviu? Sempre estarei ao seu lado.

Edward se levanta. O cheiro do xampu da mulher, adocicado e leve, foi o suficiente para alegrar o blogueiro. Christy se sentiu segura com o queixo de Edward pressionado em sua cabeça, permitindo que ela o prendesse em seu abraço com mais força.

— Então… Christy, o que veio falar comigo de verdade?

Ela levantou a cabeça para encará-lo diretamente.

— Lembra daquela agência de modelos que eu tava tentando entrar?

— S-Sim?

— Eu fui aceita! Agora sou uma modelo da One Vision!

Ela o abraçou de novo, o olhar de Edward se fixou na parede à frente, dando atenção a um insignificante ponto escuro no meio. Sua mente transbordou de pensamentos negativos, principalmente envolvendo a famosa agência de modelos.

— Alô? Terra pra Eddie?

— Desculpe, acabei pensando em algo do blog… Parabéns, Christy! Estou feliz por você.

— Obrigada por me apoiar… você não sabe o quanto eu aprecio isso.

— Aí! É pra isso que servem os amigos.

O celular dela tocou, e a moça se afastou um pouco para atender.

— Agora? Ok, já estou chegando!

— Quem era?

— Da agência. Preciso ir! Estão me chamando.

— Boa sorte!

— Brigada. Mais tarde te ligo pra conversar.

A porta se fechou e os passos sumiram em alguns segundos, deixando apenas o silêncio agonizante e a sensação de tempo parado.

— Droga… Por que logo a One Vision? Tomara que ela fique bem.

O homem sentiu o cheiro de mofo da sala e decidiu limpá-la. A expressão de felicidade no rosto de Christy ecoou em sua mente, um sentimento de culpa surgiu, sabendo que não poderia baixar a guarda para essa notícia.

A limpeza foi interrompida por um som indistinguível, a notificação de mensagem nova no computador, que o fez largar a vassoura no chão para ver o que chegou.

— Hã? O que é isso?

Edward viu uma notificação de e-mail em seu computador. Ele abriu a mensagem, e se impressionou com o que leu.

“Boa noite, Sr. Keaton. Queremos te convidar para fazer parte de nosso grupo anônimo, que tem como missão, expor a verdade e libertar nossa sociedade. Vimos o trabalho em seu blog e estamos impressionados com suas habilidades de investigação. Então, você aceita nossa proposta?”

O blogueiro engoliu em seco, sua paranoia habitual ficou ainda mais forte. Ele encarou a janela ao lado, já imaginando ter alguém o observando de fora.

— Não… Isso está muito fácil, tem que ser uma armadilha.

Ele arrastou o mouse para apagar a mensagem, porém uma dúvida surgiu em sua mente.

— Mas… E se for verdade, e se for a chance de fazer algo pra mudar esse sistema? O que eu faço?

Copperhill Drive - 9:00 A.M

O caminho de Christy até o prédio da agência foi animado, ela quase tropeçou em uma pedra na rua, mas manteve a postura confiante para não fazer feio.

— Tomara que eu me saia bem hoje.

A mulher chegou na agência, sentindo um frio na barriga ao reparar no tamanho do lugar. Ela soltou um suspiro nervoso, suas mãos tremeram, e precisou se apoiar em um banco, cambaleante.

Se acalme Christy, você chegou até aqui, não vacile agora.

O pensamento motivador foi suficiente para que a mulher conseguisse se sentar com a postura tranquila. Enquanto esperava, a loira observou o ambiente, limpo e profissional, seus olhos arregalaram ao perceber que o ambiente que já visitou antes, tinha tantos detalhes impecáveis para agradar quem entrasse pela porta principal.

Ela viu várias garotas esperando nos bancos.

— Devem ser as outras modelos… Que lindas!

Uma pontada de medo surgiu em Summers, que observava as próprias roupas e maquiagem, sentindo-se insegura, ela beliscou o próprio braço, como uma forma de ignorar esse sentimento.

Após minutos de espera, uma mulher elegante de cabelos loiros curtos e olhos azuis cheios de vida apareceu diante delas, batendo palmas para chamar atenção de todas.

— Sejam bem-vindas! — Disse ela, colocando as mãos na cintura e observando o rosto das modelos — Meu nome é Suzane Spencer e vou levá-las para o estúdio. Venham!

Christy seguiu Suzane junto com as outras mulheres, cada passo trazendo uma batida mais forte em seu coração, que parecia estar prestes a sair de sua boca.

Tendo entrado no estúdio, as modelos se impressionaram com o ambiente cheio de equipamentos de fotografia e o profissionalismo das veteranas.

— Gente! Que lugar incrível! — disse uma das modelos.

— Né? é divino! — respondeu outra.

Christy observou os fotógrafos trabalhando com as veteranas, se imaginando no lugar delas e fazendo poses.

Suzane parou e reuniu todas as novatas para apresentá-las às veteranas.

— Meninas, quero apresentar a vocês, as novas integrantes da One Vision!

As mulheres soltaram gritos de euforia e aplausos, se aproximando para cumprimentar as recém-chegadas. Christy sentiu seu coração bater mais rápido, cheia de entusiasmo pelo que estava por vir.

A modelo mais popular da empresa, Denise, se aproximou da loira e lhe deu um abraço, Summers deixou escapar um suspiro.

— Qual o seu nome?

— Christy…

— Gostei de você, acredito que vai conseguir bastante propostas em breve, boa sorte!

Summers corou, virando o rosto pro lado com um sorriso nervoso de canto.

— Obrigada… Vou me esforçar.

As outras modelos logo começaram a comentar em voz baixa, os olhares eram mistos, algumas impressionadas, outras com inveja.

— A Denise falou com ela pessoalmente?

— Sim, eu vi também.

Suzane não perdeu tempo e começou a andar para a porta do estúdio, mas antes de sair, se virou para as mulheres presentes.

— Ok, meninas! Preciso sair agora, mas depois eu volto pra observar vocês. Lembrem-se do lema da empresa: O brilho está em você!

Elas se despediram da loira, a sala ecoou com o som de aplausos leves e vozes femininas. Um homem que já estava no estúdio se aproximou delas e chamou atenção com um assobio alto.

— Vocês ouviram a chefe. Vamos trabalhar juntos para fazer essa agência brilhar cada vez mais!

Assim, em seguida, a sala voltou ao estado profissional, e os integrantes assumiram seus postos de trabalho, rostos sérios, porém envolvidos em carga positiva, inspirados pelo lema da One Vision

Do outro lado do estúdio, uma das modelos recentes, ruiva, bem maquiada, com uma expressão de nojo, encarou Christy enquanto ela estava focada no novo trabalho.

— Você ainda me paga, Summers...

Ashveil Street - Apt.104 - 13:00 P.M

Edward andou de um lado pro outro, seus olhos voltaram para a tela do seu computador, onde o ambiente de trabalho que antes transmitia rotina e sossego, se transformou em algo pesado e desagradável.

— Será que essa mensagem é real? Está bom demais para ser verdade…

Ele se sentou na cadeira e abriu o navegador, voltando ao e-mail. Keaton percebeu que havia um link para um chat anônimo. Depois de ter respirado fundo, o homem clicou.

DoctorRulez2012: Com quem estou conversando?

KDM: Olá, Sr. Keaton. Fico feliz que tenha iniciado o chat. Eu sou Kodama.

DoctorRulez2012: Keaton? Quem é esse?

KDM: Não precisa se assustar, nosso hacker conseguiu descobrir seu nome pelo código fonte do blog.

O moreno apertou os dentes e encarou aquela resposta como uma ofensa.

DoctorRulez2012: O quê!? Vocês me hackearam? Era só o que me faltava, adeus!

Ele fechou a janela do chat, mas seu celular tocou quase que imediatamente, com um suspiro pesado, Edward atendeu.

— O que foi?

— Por favor, Sr.Keaton, não desligue! O que temos pra falar é muito importante, você vai se interessar!

Keaton apertou os olhos de leve e levantou a sobrancelha. O desespero na voz modificada do outro lado foi surpreendente, a respiração rápida da pessoa anônima e o sotaque evidente serviram para lhe dar mais segurança.

— Tá bom, você tem 5 minutos.

— Obrigado, muito obrigado, bem… O nome do nosso grupo é Unidos, nossa missão é enfrentar o Governo Supremo e expor a verdade.

— Você já disse isso no e-mail, aliás, o nome é meio ridículo, sabe?

— S-Sim, sim, desculpa, é que estou um pouco empolgado em falar com você… — a pessoa soltou grunhidos abafados e continuou — É, esse é um nome provisório, ainda estamos pensando em algo melhor.

O homem estreitou os olhos.

— Tudo bem… E por que estão entrando em contato comigo agora?

— Nós estávamos fazendo alguns planos, mas não poderíamos fazer isso sem você, o seu blog tem nos inspirado a continuar.

— Ah! Então são vocês os meus seguidores?

— Sim! Suas investigações nos motivam a continuar… e eu queria te convidar para se encontrar com a gente, não se preocupe, não queremos te sequestrar.

— Falar é fácil.

— Eu sei que você está desconfiado, e você está certo, mas quero que saiba que se nos ajudar a enfrentar o Governo, vamos te ajudar a descobrir o que realmente aconteceu com seu pai, Marcus Keaton.

A menção do nome do pai trouxe memórias que ele tentou esquecer por muito tempo, mas que não conseguiu por ser a motivação de suas investigações.

— Meu pai… então vocês também perceberam?

— Sim… Se aceitar nossa proposta, vamos te ajudar a expor a verdade.

O homem passou alguns segundos em silêncio, dividido entre a vontade de encontrar pessoas que o apoiam, e o medo de ser enganado. O ar ficou mais pesado, o estalo da geladeira fez seu coração pular uma batida. Ele ajeitou os óculos, e disse:

— Vou pensar…

A ligação foi encerrada, e Edward respirou fundo, tentando controlar a ansiedade. Ele verificou o e-mail de Kodama mais uma vez, percebendo um endereço anexado.

— Não tenho nada a perder…

One Vision - Estúdio - 02:00 P.M

Christy estava em sua sessão de fotos, os pés doendo devido ao salto alto, ela ajustou a pose e segurou a respiração para não perder um único centímetro da posição.

— Isso! Essa pose está ótima! Não, um pouquinho para o lado… Perfeito!

Depois que terminou, ela suspirou e pegou a garrafa de água na mesa, deixando o líquido refrescar sua garganta.

— Christy, venha cá! — disse o rapaz negro que substituiu Suzane.

Summers deixou a garrafa de lado e se aproximou dele.

— Estava te observando, você ficou ótima nas fotos.

— Obrigada, foi bem difícil manter a pose o tempo todo… Ah, ainda não sei seu nome.

— Caramba! Esqueci de me apresentar. Meu nome é Lincoln, muito prazer!

— O prazer é todo meu, Lincoln.

— Quer saber de uma coisa? Tenho certeza que você será a próxima estrela da One Vision.

— Como assim?

— Estou falando do título de prestígio da empresa, The Worthy!

A jovem mulher pensou ter ouvido errado, e até mesmo cogitou ser apenas uma piada de Lincoln.

— O quê!? Não, eu não sou boa o suficiente para isso, é um título muito grande.

— A Denise veio falar com você pessoalmente, ela só faz isso com quem vê potencial, tenha mais fé em si mesma — Sussurrou ele.

As palavras finalmente foram absorvidas por ela, que imaginou toda a cena em sua mente, os aplausos, fotógrafos inconvenientes, e principalmente, o recebimento do título mais importante para uma modelo.

— Obrigada… prometo me esforçar.

— Esse é o espírito! Conto com você!

Alguns minutos depois, Summers foi à sala de descanso, ela se sentou no sofá aconchegante, e seus pés finalmente descansaram no tapete felpudo.

— Olha só a loira santinha, já está cansada do dia de trabalho.

— Ai coitada, o dia ainda nem terminou.

— Deve ser um grande esforço pra filhinha de papai.

Mesmo cochichando, as modelos deixaram as vozes altas o suficiente para que Christy escutasse.

A mulher engoliu em seco e as encarou, suas pálpebras tremiam, mas não a impediu de demonstrar coragem.

— Vocês não tem vergonha não? Vão mesmo usar essas formas baixas para competir? Eu nem mesmo sou rica, não sei de onde tiraram isso.

Nenhuma das três soube como responder a esse confronto direto, uma delas desviou o olhar, enquanto as outras duas riram de nervoso.

Abrindo a porta da sala, surgiu uma ruiva muito bonita, as três modelos foram ao seu encontro.

— Jennifer! Como foi sua sessão? — perguntou uma das mulheres.

— Obviamente fui incrível — disse ela, jogando o cabelo pro lado — não teria nenhuma chance de pagar um mico na frente das câmeras.

Christy observou a interação das quatro, ela chegou a conclusão que a ruiva é líder das outras três, que seguiam seus passos enquanto eram ignoradas para que ela se destacasse.

— Espera… Jennifer Louis, é você?

— Sim, sou eu, há quanto tempo, Summers.

Christy estendeu a mão para ela, que ignorou e se virou.

— Eu te fiz alguma coisa? Por que essa hostilidade?

A ruiva se virou e estreitou os olhos, colocando as mãos na cintura.

— Você realmente não se lembra? Grr! Que seja, é melhor desistir, não vou deixar você ficar com o título.

Após isso, elas saíram da sala, deixando Christy sozinha.

O que ela tem contra mim? Tanto faz... preciso manter o foco agora.

Ashveil Street - Apt.104 - 10:35 P.M

Edward ajeitou sua mochila, checando se havia colocado tudo o que precisava. Ele coçou o cavanhaque e ajustou os óculos, enquanto analisou mais uma vez a instrução deixada pelo anônimo.

KDM: Nosso motorista vai te buscar no local combinado. Vista sua roupa só quando tiver certeza de que não tem ninguém por perto.

— Não me diga, Sherlock…

O homem saiu de seu apartamento. Andando pelas ruas quase desertas, ele tentou se distrair observando os prédios em volta. A sensação de paz lhe atingiu, a cidade à noite sempre o confortou em momentos críticos, sua rotina o manteve preso na frente do computador, e sair lhe deu um sentimento de liberdade, mesmo com o cheiro forte de perfume das prostitutas irritando suas narinas.

— Tomara que seja verdade. Tudo que fiz até agora não pode ter sido em vão.

Algum tempo depois, ele chegou no endereço combinado, o antigo parque de diversões Funtime, abandonado há anos. Edward encontrou uma cabine de fotos e entrou para se trocar. Quando saiu, estava encapuzado e usando sua máscara de médico da peste.

Cinco minutos depois, um carro preto chegou ao local. O motorista estava usando um terno e uma máscara cinza do Michael Myers.

— Você é o Sr.Keaton?

— Sim, sou eu.

— Por favor, entre no carro. Irei te levar a base.

Edward aceitou e entrou no veículo, e assim partiram em direção ao esconderijo dos Unidos.

One Vision - Escritório do CEO - 10:40 P.M

No topo do prédio da One Vision, um homem de cabelo castanho e boa aparência estava em seu computador, acessando o site de Keaton, ele tomou seu café e soltou um riso breve.

— Como esse cara consegue tanta coisa? É impressionante!

O indivíduo escutou com atenção o conteúdo do blog, fazendo anotações e deixando comentários no vídeo.

A zeladora entrou cuidadosamente no escritório.

— Senhor Ferrera, o prédio está fechando.

— Já estou de saída, obrigado por me avisar.

Ele desligou o computador e saiu do escritório, levando consigo o bloco de notas no bolso.

Red Maple Loop - 10:45 P.M

Finalmente, Edward chegou ao local do esconderijo. A rua era fria, melancólica, sem uma única alma viva vagando por ali, ele sentiu um arrepio na espinha, imaginando os piores cenários possíveis.

— Nossa! Vocês são cautelosos mesmo…

— A gente mantém a discrição, assim como você faz em seu blog.

— Fico feliz em saber que vocês se espelham em mim nisso.

Juntos, eles entraram no prédio abandonado, cheio de destroços e parecia estar prestes a desmoronar, o lugar perfeito para afastar curiosos que poderiam colocar tudo a perder.

O homem levou Keaton ao subsolo, onde havia uma porta de ferro no final do corredor de paredes rachadas e cinzas. Ele bateu na porta e uma pequena janela se abriu.

— Qual a senha?

— Occulta Veritas.

O local parecia uma base secreta da máfia, com um clima misterioso e a constante sensação de estar sendo observado, o blogueiro engoliu em seco, e imaginou sua morte certeira ali mesmo.

Um rapaz vestindo uma máscara de serpente estava usando um computador, rodeado por monitores com linhas de código que piscavam na tela. A mulher com máscara de yokai se aproximou dele e apertou sua mão.

— Você veio! Que bom, eu sou a Kodama.

— Você é a Kodama? Achei que fosse um homem.

— Ah… E isso é algum problema?

— N-Não… Mas não nego que estou surpreso.

Kodama se afastou e riu.

— Estou só zoando com você, essa foi a reação desses dois também.

Edward observou os outros dois membros, que fingiram não estar ouvindo a conversa.

— Agora que ele está aqui, vamos revelar nossos rostos.

Todos retiraram suas máscaras ao mesmo tempo e se apresentaram.

— Eu sou Lacey Kushina, a Kodama.

Ela era uma mulher takamorinesa, cabelos pintados de rosa, com discretos reflexos ruivos ainda visíveis, vestindo um quimono adaptado por baixo do disfarce.

O motorista continuou.

— Meu nome é John Conan, o Mike.

John era um homem alto, de cabelos grisalhos e personalidade calma, porém Edward percebeu que ele não era alguém que se devia provocar, principalmente após ter visto de relance o cabo de uma faca em seu bolso.

O próximo é o rapaz do computador.

— Meu nome é Kyle Denvers, mas pode me chamar de Snake.

Kyle aparentava ter 18 anos, sendo o mais jovem do grupo. Ele tinha um físico de quem treinava bastante, seus cabelos castanhos bagunçados e tom descontraído fizeram Keaton imaginar que o rapaz era o mais imaturo também.

Finalmente, o blogueiro retirou sua máscara.

— Meu nome é Edward Keaton, mas vocês já devem saber mesmo.

Todos riram, Kyle colocou as mãos por trás da cabeça, deixando escapar um sorriso maroto.

— Me desculpe por te hackear, eu estava empolgado pra ver quem era o homem por trás do disfarce — Disse Kyle.

— Não se preocupe, pelo menos não é ninguém do governo, senão eu já estaria morto.

— Ah, isso é verdade — respondeu Lacey, ajustando seu traje antes de continuar — Fico feliz que tenha vindo. Com sua ajuda, podemos finalmente avançar com nossos objetivos. Mas antes, vamos te dar um codinome, ou melhor, você já tem ele, não é?

— Corvus? Querem que eu use esse apelido mesmo?

Todos se encaram e acenam concordando.

— É um bom codinome! tem uma aura misteriosa que fica bacana! — comentou Kyle.

— E nos poupa o trabalho de ficar uma hora escolhendo um nome, certo Lacey? — acrescentou John.

— Poxa John! Achei que já tinha superado isso, foi difícil pensar nos nomes, ok?

— Demoramos demais pra escolher apenas… Mike.

— Mas pelo menos foi melhor que a primeira ideia.

Lacey ficou envergonhada com a menção de Kyle, socando seu ombro para que se calasse, Edward observou a interação e achou tudo engraçado.

— Que primeira ideia?

— Não queira saber, não é importante!

— Ah, foi-

— Cala a boca, Kyle!

A cena idiota foi suficiente para retirar a paranoia de Keaton, trazendo junto uma tranquilidade que ele não via há muito tempo. O sorriso em seu rosto veio de maneira inconsciente.

— É, agora eu sei que dá pra confiar em vocês, um grupo secreto do mal não teria líderes tão bobos.

— Estou com você nessa, Edward — disse John.

Após a perseguição idiota, Lacey se recompôs, e retornou para o centro, desviando o olhar.

— Bem, mais uma vez quero dizer em nome do grupo, bem-vindo, Edward, espero que essa cena não tenha te feito pensar em ir embora…

— Não… agora que eu vou ficar mesmo.

Os braços dela o envolveram em um abraço, ele se assustou com a força, perdendo um pouco de equilíbrio.

Como uma garota pode ser tão forte assim?

Percebendo que estava o sufocando, Kushina se afastou e curvou-se repetidas vezes.

— Me desculpa, me desculpa, acabei me empolgando!

— Relaxa… Mas e aí? O que vocês estavam planejando? Pode me mostrar?

Ela correu para uma prateleira e pegou alguns documentos, suas mãos deixaram escapar um deles, mas ela usou o pé e chutou a pasta na mesa, impressionando o novo integrante. Lacey colocou o resto dos papeis junto com a pasta, respirando fundo para falar.

— É nisso que estive pensando ultimamente…

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