pular para o conteúdo
Sputnik Saga · Capítulo 4: O Algo
Sputnik Saga
arco 1 · SPUTNIK I: MUTTER · cap. 4

Capítulo 4: O Algo

por Safe_Project2.603 palavras~12 min

Iluminado por um de seus súditos, Vast planejou seu curso de ação.

Sua maior suspeita, por mais que quisesse negar, era que as famílias da facção opositora planejaram o ataque com o Transformado. Como e por quê? Era isso que deveria descobrir antes de um último julgamento.

Com um mapa adquirido na sala de planejamento de guerra, ele traçou sua rota.

O plano era simples, começando no burgo mais próximo da capital: Ormstade.

A área estava sob o comando de um dos membros da oposição, um que Vast considerava o mais suscetível a ter uma conversa amigável. Usaria como primeira e principal fonte de informação e, baseado nos resultados, seguiria para os burgos adjacentes em prol de montar teorias mais sólidas.

Caso a conspiração se provasse mentira, retornaria ao castelo antes que afligido pelo Julgamento dos 20 Dias. Com o relógio reiniciado, seguiria numa investigação mais meticulosa até encontrar a real fonte do problema.

Se sua suspeita se provasse verdadeira, aqueles que negassem se render à coroa seriam exterminados.

O príncipe não torcia para nenhuma das alternativas, almejando apenas encontrar uma verdade sólida que lhe permitisse colocar à mesa o nome dos culpados pelo caos recente.

"Primeiro, preciso sair daqui."

Atualmente em seu quarto, abriu a janela e observou o mundo abaixo.

Sair do castelo era uma coisa; da capital era outra completamente diferente. Os largos e altos muros a cercar a área eram vigiados por dezenas de soldados armados com espadas, lanças e balestras. Nem de longe era o suficiente para impedir um ataque de vampiros, mas bastava contra humanos.

"Não posso usar os portões. Os esgotos também não dão no lado de fora…"

Passou a analisar os itens à disposição no próprio quarto, eventualmente travando no largo guarda-roupa. Dentro, encontrou pilhas e mais pilhas de lençóis feitos do mais resistente tecido conhecido. Também havia um leão ali por algum motivo, ignorado. Ele então amarrou as pontas dos lençóis e fez uma poderosa corda com vários metros de comprimento.

Localizado no quarto mais alto da torre mais alta, teve a ideia da fuga perfeita, apenas não podia ser visto. Com uma corda de lençóis à disposição, sua intenção era bem óbvia.

Sobre os muros à distância, os guardas em serviço de ronda notaram o súbito abrir da janela do quarto do príncipe. Observaram por um tempo, esperando ver a figura esbelta de cabelos verdes sentar-se ali para apreciar a vista.

Foi então que uma sombra surgiu.

VUSH!

Um largo guarda-roupa rompeu pela janela, arrancando junto pedaços da parede de pedra. Lançado como uma bala de canhão, arrastava uma corda de lençóis amarrada num dos pés, por onde o príncipe escalou em pleno ar até alcançar o móvel, onde se pôs de pé.

Os guardas assistiram perplexos enquanto o móvel voador cruzava os quase três quilômetros a separar o castelo e os limites da capital, gradualmente perdendo altura.

Por pouco o guarda-roupa passou por cima dos muros, permitindo até que o príncipe pudesse ser visto de perto. Seu olhar em momento algum desviando do horizonte à frente, fixos num objetivo já muito definido.

KABLANK!

O móvel espatifou em diversos pedaços no pouso. Vast amorteceu a própria queda ao abandonar o voo pouco antes da colisão.

— Prí-Príncipe! Qual o significado disso?!

Ao invés de responder os guardas, ele disparou na direção oposta da capital. Com a força extra proporcionada pela [Mutter], era tão rápido que sua figura desaparecia na poeira levantada.

"Se eu seguir uma linha reta, é possível chegar em Ormstade em apenas dois dias!"

Seriam necessárias algumas pausas durante o trajeto para manter a velocidade, mas ainda estava confiante em cumprir com o prazo.

Quando a uma distância segura dos muros, olhou para trás uma última vez. O castelo de Von Legurn parecia pequeno, e percebeu algo ainda mais diferente ao estreitar os olhos.

Tratava-se de um pequeno ponto na janela de seu quarto. Agia como uma pessoa balançando o braço em despedida, alguém numa familiar roupa de empregada.

Num curto sobressalto, Vast deu um passo na direção do castelo, voltando no instante seguinte.

"É apenas uma alucinação", decretou para si mesmo.

Deu as costas para o castelo, ainda levando um último olhar por cima do ombro, confirmando. Finalmente, voltou a correr.

Se visto de cima, podia-se pensar que o príncipe se tratava de um veículo militar em alta velocidade. O rastro de poeira que deixava para trás se erguia a metros, demorando para dissipar. Por um momento ele chegou a se preocupar na chance de alguém usar isso para segui-lo, acelerando ainda mais.

Ninguém seria capaz de rastreá-lo se fosse mais rápido que qualquer perseguidor imaginário. Na verdade, talvez os papéis até se invertessem.

À distância, viu um grande corpo subir aos céus, uma carroça com cavalo e tudo. Lançada à mais de dez metros no ar, espatifou-se no chão ao lado da caravana que fazia parte.

Vast identificou várias pessoas correndo de um lado para o outro, dentre elas, o motivo de tanta alvoroça.

"Aconteceu mais rápido do que imaginei."

Este foi seu primeiro desvio. Certo de que não seria o último, ele acelerou no limite antes de seus músculos romperem.

Na caravana, um velho foi arremessado para fora de outra carroça e colidiu com alguns cavalos antes de cair no chão, por pouco escapando de ser pisoteado pelos animais assustados.

— Como pode um grupo desse tamanho não ter nada valioso? Pra piorar, só tem velho aqui!

Um vampiro desceu. Usava o cadáver sem cabeça de um rato como taça para bebericar sangue. Seu olhar passeando pelos humanos.

Nenhum deles era um Amaldiçoado, tinha certeza. Saindo de um vila decadente também, foi idiotice esperar um grande banquete. De qualquer forma, parte do trabalho estava concluído.

Indo até o velho que acabou de arremessar, afundou o pé no chão rente à cabeça do homem. O curto estrondo fazendo o ouvido sangrar.

— Você é o inventor de que tanto falam, né?

— Si-Sim, meu nome é…

— Não importa. Você é bem sortudo, o mestre estava procurando alguém com suas habilidades tinha um tempo. Vai poder se juntar a nós muito em breve! Mas bem… — Passou o olho pelos outros humanos, lambendo o beiço. — Os outros são desnecessários.

Haviam quinze pessoas na caravana, todas de idade mais avançada. O sangue de idosos não era muito saboroso, mas satisfatório para um vampiro esfomeado. Como precisava poupar apenas o inventor, comeria o suficiente para vários dias.

Antes que escolhesse sua primeira vítima, porém, um curto tremor de terra chamou-lhe a atenção.

Pouco distante, uma nuvem de poeira se aproximava rapidamente.

— O que é aquilo? Com essa velocidade… É o mestre?

Finalmente, uma silhueta de olhos vazios surgiu em meio à poeira. Um vulto.

Vush!

Vast agarrou o pescoço do vampiro e o derrubou no chão, o joelho afundando no tórax.

— E-Espera… Quem?!

Viu o punho se erguer e tapar o sol, cujo brilho foi ofuscado pela intenção assassina nos olhos obsidiana.

Sem dar chance de reação, o príncipe afundou a mão firme no rosto do vampiro. Com apenas três golpes, a cabeça da criatura explodiu, seu corpo imediatamente transformando-se em névoa. Apenas ao garantir a morte, Vast se pôs a analisar a situação.

Nenhuma troca de palavras foi necessária.

— Todos vocês, reúnam-se aqui!

Mesmo sem entenderem, os quinze idosos decidiram confiar em seu salvador. Aqueles capazes de andar sozinhos foram os primeiros, enquanto Vast ajudou a carregar os mais debilitados e colocar todos num pequeno círculo às margens da fila de carroças.

Ao fim do processo, o corpo do vampiro desapareceu por completo sem deixar qualquer rastro, o que ajudou todos a se acalmarem mais rápido. Com isso, o príncipe se agachou sobre um dos joelhos em frente ao grupo e iniciou.

— Quem é o líder aqui? Poderia me dizer o que aconteceu?

Um dos homens deu um passo à frente, o corpo corcunda se mantendo de pé com a ajuda de um grande bastão metálico como bengala.

— Somos moradores de um vilarejo próximo. Estávamos em nosso caminho para Ormstade, até que fomos atacados por aquele vampiro. Ele disse que queria apenas a mim e que me levaria ao mestre dele.

— Mestre…?!

Vast foi inundado por uma súbita onda de arrependimento. Agora que lembrava, havia visualizado a aura do vampiro poucos instantes antes de decidir atacar. Era um mero Vampiro Vagante, com habilidades valendo por apenas cinco homens adultos.

“Eu fui muito prepotente, ele poderia ter sido uma fonte de informações preciosas.”

Lamentou em seu interno, mas não adiantava choramingar pelo erros já foram cometidos. Tinha agora de se alertar para evitar cometê-los novamente no futuro.

— Eu também estou indo para Ormstade. Qual a razão para irem até lá? Não parecem ser vendedores, com todo respeito.

— E realmente não somos, jovem. Estamos indo pois recebemos um convite para participarmos do grande evento que irão realizar no burgo.

— Qual seria esse evento?

— Ora, não está sabendo? Todos na área próxima foram avisados. O Lorde anunciou que teremos uma grande festa com muita comida, ele chamou de Festival da Carne!

Vast torceu o cenho em descrença.

Comida não era algo raro apenas em Von Legurn, a situação era ruim em toda La Serva. Vampiros devoravam principalmente humanos, mas animais em geral estavam em seu cardápio da mesma forma, alguns costumavam matar gados inteiros apenas por diversão. Colheitas também estavam longe de ser opção, dificultadas pelo céu constantemente nublado.

Para Ormstade estar preparando um festival de comida; CARNE, especificamente, era impossível aceitar como se fosse algo normal.

Agravando as suspeitas ainda mais, eles não haviam feito o pedido formal à capital para realizarem a celebração!

— Creio que podemos nos ajudar neste caso, meus caros súditos, mas permitam-me ajudá-los primeiro.

Vast organizou melhor o círculo e, com uma pequena adaga que estava com um dos senhores, fez um corte longo na palma da própria mão. Os efeitos da [Mutter] se ativaram de imediato.

Ao que todos foram cobertos por uma leve luz inexplicável, suas peles rejuvenesceram junto de todos os outros aspectos do corpo. Num piscar de olhos, o grupo de idosos foi substituído por adultos dispostos no ápice de suas capacidades físicas, mantida ainda a sabedoria da extensa idade.

Entre todos, um se destacava completamente.

— Ma-Mas que… maravilha!! Não me sinto assim há anos!!

O mesmo velho que estava sendo alvo do vampiro se aproximou, exceto que a imagem de idoso corcunda desapareceu por completo. No lugar, um homem de dois metros e com o corpo de um grande herói tomou seu lugar.

— Fico feliz em ver que estão todos bem. Sei que é repentino, mas será que podemos continuar a viagem? Tenho assuntos urgentes para resolver em Ormstade.

Oh, claro! Meu nome é Russisch, um inventor e também líder desta humilde caravana.

Notando seu erro, o príncipe limpou a garganta e retribuiu o firme aperto de mão.

— Perdão. Vast Los Filho, é um prazer.

— O quê?! O Príncipe Vast em pessoa? — disse outro súdito. — Por que vossa majestade está por aqui? Sozinho ainda por cima!

— Eu… irei discutir assuntos comerciais com o Senhor que lidera Ormstade. São pendências internas, então não posso comentar muito.

— Entendo — continuou Russisch. —, então não há motivos para ficarmos parados, afinal temos um festival pra ir! Todo mundo, de volta pras carroças!

Uma por uma, as pessoas voltaram para seus respectivos lugares enquanto admiravam seus corpos rejuvenescidos.

— Por favor, meu Príncipe, use este espaço para descansar.

Russisch o guiou para dentro de sua própria carroça, esta coberta por uma tenda. No interior haviam caixas e mais caixas com pedaços de metal, barras de ferro e ferramentas tão diversas que nem mesmo Vast, tendo estudado várias artes de ferraria e artesanato, foi capaz de reconhecer.

— Sinto muito pela bagunça, majestade. Nós saímos de casa com certa pressa.

Quem falou foi uma segunda pessoa à frente da carroça, uma mulher linda em todos os aspectos mas que ainda perdia para Emilia — opinião pessoal de Vast. Era a esposa do inventor. Pelo olhar que ambos trocaram, agora cheios de vitalidade, era bem provável que o número de pessoas na caravana viesse a aumentar em breve.

Vast se aconchegou num dos cantos do lugar, o suficiente para conseguir ter um bom cochilo durante a viagem. Mesmo que fosse mais rápido continuar a pé, seria melhor seguir com todos e garantir a segurança contra outro ataque de vampiros.

E assim que os cavalos começaram a andar, Russisch se virou para seu mais novo passageiro e também guarda-costas.

— Por sinal, vossa Majestade…

— Pode me chamar apenas de Vast, eu prefiro assim.

— Quanta gentileza! Se me permite, Vast, eu adoraria fazer um apetrecho especialmente para você! Um agradecimento por… bem, tudo até agora! — Ele alcançou um caderno e lápis numa das caixas próximas. — Pela força que demonstrou contra aquele vampiro, eu suponho que seja um Amaldiçoado, correto? Me diga sobre sua Maldição, eu vou fazer um item que seja perfeito para você!

— Eu não salvei vocês por obrigação, é meu dever como príncipe prezar pela segurança de todos os meus súditos. Não precisa se preocupar em retribuir o favor.

— Se você realmente quiser que ele se acalme, apenas colabore— disse a esposa. — Acredite em mim, vai te poupar uma boa dor de cabeça.

Aproveitando esse incentivo, o inventor completou:

— É verdade, além do mais, é muito mais cavalheiresco aceitar o presente de agradecimento de alguém. Imagino que os serviçais no castelo devem encher sua cabeça o dia inteiro com essas coisas de "etiqueta", hahahaha!

O príncipe riu de leve: — É, ensinaram sim.

Incontáveis momentos que passou junto de Emilia inundaram sua mente, tão vívidas que sentiu retornar para aquele momento no tempo.

Se ela estivesse aqui, provavelmente iria repreendê-lo pela falta de modos com um forte tapa na nuca.

Vast não desacreditava nas habilidades de Russisch, tinha certeza de que ele era um bom inventor, porém era improvável que ele fosse capaz de desenvolver algo que pudesse ser útil para uma luta contra vampiros. Era apenas um trabalho complicado demais para se acreditar até ver o resultado com os próprios olhos.

Brevemente perdido em pensamentos, seu olhar caiu sobre o céu. Lá, ele viu algo.

De canto de olho, um grande ponto brilhante em meio às nuvens chamou a atenção, desaparecendo como um vulto instantes depois que recebeu contato visual do príncipe, este que logo perguntou.

— Ei, mais alguém viu aquilo?

Todos miraram a direção apontada, encontrando as costumeiras e densas nuvens cobrindo o terroso céu de La Serva.

— Havia alguma coisa ali?

O olhar de Vast vagou entre os súditos e o céu algumas vezes. Por fim, ele esfregou os olhos e sorriu, sem graça.

— Não… Mil perdões, acho que algum raio de sol bateu no meu rosto.

Oho! Agora isso que eu queria ter visto. Não vejo o sol tem pelo menos três décadas, hahaha!

Todos acompanharam o inventor com uma risada agridoce, apesar que a dele era de genuíno divertimento.

— De qualquer forma, Russisch, do que exatamente precisa saber para sua invenção?

— Posso mesmo perguntar?! Maravilha! Tenho certeza de que vai ser uma das minhas melhores criações até hoje! Muito bem, vamos ver…

Com isso, a caravana oficialmente voltou a andar. Os cavalos continuariam o caminho para a Ormstade sem mais pausas.

Em meio às perguntas, conversas e histórias que seu súditos contavam, Vast olhou para o ponto no céu uma última vez, incomodado pela dúvida que rastejava por seu peito como uma larva faminta.

“Aquilo era… um olho?”

capítulo 04 de 23

Você atravessou.

Levou cerca de 1 min de leitura.

como te deixou?

Já lê faz 4 capítulos. Avalia?

leva 6 toques · ajuda quem escreve a calibrar.

Sputnik Saga
próximo · cap. 05

Capítulo 5: Carne Voadora

2228 palavras · ~10 min
continuar lendo

Discutir o capítulo

pular pros comentários do fim

Sumário da obra

ver todos os capítulos

discussão

comentários do capítulo

0 comentários · seja gentil com quem escreve

entrar pra comentar.

cap 4/2317%2603 palavras