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Sputnik Saga · Capítulo 6: Estrela com Olhos
Sputnik Saga
arco 1 · SPUTNIK I: MUTTER · cap. 6

Capítulo 6: Estrela com Olhos

por Safe_Project2.626 palavras~12 min

Dentro da mansão no alto da colina, serviçais e guardas levaram a atenção para a grande coluna de fumaça que se erguia em direção aos céus.

Com semblante trêmulo, o lorde do burgo repetia a ação enquanto tomado por um forte presságio.

"Alguém está vindo!"

Estar no terceiro andar da mansão em nada apaziguou seu nervosismo, justificado em seguida.

Uma sombra surgiu do outro lado da janela à sua frente, de pé, encarando-o diretamente nos olhos com uma feição calma, porém firme como um carrasco em serviço.

— Prí-Príncipe… Vast!

Ele abriu a janela e entrou no cômodo em silêncio. Seus passos ecoaram pelo cômodo e pisotearam qualquer intenção de questioná-lo. O olhar afiado vasculhou o ambiente de forma rápida, analisando cada um dos presentes para só então pousar sobre o lorde.

— É bom ver que passa bem, Vincent. Peço perdão se lhe assustei.

— De forma alguma, me-meu senhor!

Vast analisou o homem dos pés à cabeça enquanto este o conduzia para um assento.

Vincent estava mais magro que o normal para as pessoas de La Serva. Seu rosto era o de alguém que faltava sono há dias, com olheiras tão profundas que seus olhos quase desapareciam.

Ao se sentar numa das poltronas, o príncipe aguardou até que o anfitrião fizesse o mesmo. Os serviçais e guarda-costas no cômodo engoliam em seco, ainda incrédulos com a súbita presença do príncipe. Este, como primeiro ato desde que surgiu, colocou o mosquito desacordado sobre a mesa entre ele e o lorde.

Ignorou a repulsa no semblante de todos e, inexpressivo, iniciou:

— Você está com uma cara péssima. Tem algo que gostaria de comentar comigo?

Silêncio.

Vast suspirou, passando o olhar por todos no cômodo uma segunda vez. De peito aberto, voltou a atenção ao lorde.

— Serei claro, Vincent, preciso de sua cooperação para descobrir quem ou o quê está realizando esquemas por trás das cortinas com o objetivo de prejudicar Von Legurn. Eu vim aqui pois, de todas as pessoas da oposição, você é o mais sensato e aberto para discussões. Mesmo que façamos parte de grupos rivais, eu estou aqui como príncipe a atualmente em posição de neutralidade; eu preciso que coloque sua confiança em mim.

Lembrou de Jordan, certo do que deveria saber primeiro.

…Eu então pergunto, Vincent. Há alguma coisa lhe impedindo de falar?

O homem cujo corpo inteiro tremia negou com a cabeça, buscando de todas as formas acalmar seu coração acelerado.

— Não há… nada, majestade. Na verdade, ouso dizer que Ormstade nunca esteve em situação melhor!

— Imagino, fiquei sabendo que estará realizando um "Festival de Carne". Só espero que não seja de origem duvidosa.

Todos miraram o mosquito desacordado sobre a mesa. Este que, ao mero sinal de que acordaria, foi devolvido ao sono profundo com um golpe na cabeça.

— Me-Mesmo que eu contasse… nem mesmo você, meu príncipe! Nem você poderia derrotá-lo…

— Fala daquele que chamam de Verdadeiro Sol?

Ocorreu um sobressalto em conjunto quando o nome escapou de seus lábios, Vincent ao ponto de que esqueceu o cansaço acumulado e arregalou os olhos.

Vast riu curtamente.

He! Então realmente há vampiros envolvidos. Nenhuma surpresa. — Passou a mão pelo rosto, usando-a como apoio para a cabeça em seguida. — Diga como aconteceu.

— Príncipe Vast, po-por favor, sei que é seu trabalho, mas acredite…

Os olhos do lorde tremulavam com força, a íris fracamente substituída pelas espirais da loucura. A marca de alguém que viu mais do que aguentava.

— Aquela criatura é pior do que pode imaginar!

Em resposta, Vast colocou um sorriso agradável nos lábios.

— Agradeço a preocupação — Devagar, tornou-se inexpressivo e inclinando o corpo à frente. —, mas isso não é algo que você possa decidir. Eu protegerei você e seus súditos com a minha vida, independente de quem seja o inimigo. Apenas diga quem ele é.

Vincent por pouco conteve as lágrimas. Pela primeira vez em dias recebeu palavras reconfortantes ao invés de avisos de problemas e ameaças à sua vida.

Por mais que tivesse dúvidas sobre as capacidades do príncipe, agora ele havia se tornado a libertação que tanto pediu. Não havia razões para destruir seu coração em silêncio.

— Algumas semanas atrás, Ormstade foi invadida por uma trupe de vampiros. Entre eles, estava aquele homem…

Descreveu ao príncipe na medida em que era capaz de lembrar. Por não ser um Amaldiçoado, ele não exergava a aura vampírica, sendo então impossível saber o quão poderoso o indivíduo era.

Era um homem de aparência jovem, dotado das expectativas de um aventureiro renomado. O que mais chamava a atenção eram as roupas. Ao contrário dos outros vampiros que cobriam o máximo de pele possível, ele fazia o oposto — parecendo se exibir em alguns momentos.

Com as roupas leves de alguém que sai para uma caminhada matinal, ele andou por todo o burgo com passos animados.

— Ele não nos deu um nome, mas todos que o seguem lhe chamam de Verdadeiro Sol.

Com olhar rápido, o príncipe confirmou apenas pelo semblante dos serviçais que todos viram a mesma cena, prestando ainda mais atenção nas palavras de Vincent.

— Nós tentamos resistir no início, mas todos os guardas que avançaram foram imediatamente queimados como se jogados dentro de uma fornalha ativa! Era impossível se aproximar daquele homem!

— Ele disse qual era seu objetivo em Ormstade?

— Não disse, mas em momento algum ele nos impediu de observar suas ações. Desta forma, a única pista que temos de suas intenções é essa…

Ao mando do lorde, um mapa do burgo foi colocado sobre a mesa de centro. Nele era marcado em vermelho uma linha que cercava toda a área dentro de um círculo tremido.

— Eles chegaram com uma grande carga, meu príncipe, uma carga de tripas humanas.

— …!!

— Uma vez que analisaram a área, ele usou a legião de mosquitos gigantes para enterrar as tripas na terra de forma que circulasse toda a área do burgo. Depois disso, não fizeram mais nada.

— Disse que era uma trupe de vampiros, mas de quantos estamos falando exatamente?

— Creio ter visto três, senhor. É bem possível que haja mais.

Vast ponderou por alguns segundos.

Até agora encontrou apenas o vampiro corcunda, então restaria o Verdadeiro Sol e outro, possivelmente o responsável pelos mosquitos.

Considerando a escala da situação, o mais seguro era assumir que os dois restantes eram criaturas de grande poder.

— Alguma ideia do que possa ser esse círculo?

— Perdão, meu príncipe, nenhum de nós tem qualquer ideia da intenção desses vampiros.

— Entendo… E quais foram as ordens que deram para vocês?

— Disseram apenas para aguardarmos até o início do Festival de Carne. Desde então, ninguém foi permitido sair do burgo, apenas entrar. A população daqui é de trezentas pessoas, somando com os comerciantes e outros súditos que souberam do festival, meus secretários estimam que pelo menos o dobro de pessoas esteja aqui neste momento.

Com isso, Vast pôde confirmar. Algo acontecia — definitivamente!

— Muito bem, tomei minha decisão. Ficarei aqui para ajudar com este caso.

Príncipe Vast! O lorde saltou de seu assento, seu esqueleto fraco estalando ao menor dos movimentos.

— Lutar é suicídio! Mesmo o senhor, com todo o respeito, não será capaz de detê-lo!

Um tropeço imediato criou um caminho que levaria seu rosto numa colisão fatal contra a quina da mesa, destino esse interrompido pela mão do príncipe em seu peito.

— Se minha morte é necessária para manter a paz em Von Legurn, então que assim seja.

— Mas… majestade!!

— No entanto! De forma alguma eu caminharia em direção à morte sem antes resistir de todas as formas possíveis. Procurar por batalhas impossíveis é uma estratégia que covardes usam para escapar de responsabilidades maiores e fingir uma morte digna.

…Eu jamais farei isso, independente de quais circunstâncias eu me encontre. Dito isso, a única coisa que peço é a sua confiança e de todos aqueles em Ormstade. Pode me oferecer esse apoio?

Os olhos do príncipe, obsidianas normalmente imersas em escuridão, eram agora dotadas do brilho da lava que foi usada para formá-las, aconchegando amigos e ansiando para queimar os inimigos. Vincent enxergou seu reflexo no par de espelhos negros.

Sua figura cadavérica causou um susto, tanto que pensou ser a própria morte vindo lhe buscar. Ao mesmo tempo, este mesmo homem prestes a ceder tinha um par de mãos firmes o segurando. Fortes, mas nada opressivas. Firmes, mas que curavam.

Após dias que pareciam anos, finalmente era capaz de engolir as negações e aceitar que o momento aguardado chegou. O murmúrio choroso veio direto de seu coração.

— Por favor, meu príncipe, salve-nos desses monstros!

Vast deu um sorriso sincero, ajudando o colega a se sentar novamente.

— Foque em descansar, eu cuido das coisas a partir daqui.

Imediatamente se virou para os serviçais no cômodo.

— Me disponibilizem um quarto e tragam todos os livros sobre vampiros que estiverem nesta mansão imediatamente. Quero também ouvir o que cada um de vocês sabem sobre o Festival de Carne. — Numa conferida rápida no próprio corpo, notou alguns fios soltos em sua roupa. — E também quero um pequeno kit de costura.

O dia passou rápido. À noite, Vast se aconchegava no quarto que lhe foi oferecido, sentado sobre a cama enquanto terminava de ler o último livro da pilha sobre a mesa de centro.

"Muito interessante…"

Fechou o livro e o adicionou à pilha, pensando em voz alta para garantir a retenção da leitura.

— Então os nomes que aparecem junto com a aura vampírica não são aleatórios. Mesmo essas criaturas possuem uma hierarquia estabelecida, que pelo visto nunca mudou desde que se estabeleceram.

Mesmo morando num castelo, os únicos livros que Vast teve acesso em toda a sua vida foram contos de fadas e aqueles que o ajudariam a desenvolver as habilidades para ser um Rei competente.

Fatos históricos, científicos ou relacionados, todos estes foram banidos do castelo e da própria capital por Emilia. De acordo com ela, o foco de um príncipe deveria ser a capacidade de governança sobre seus súditos.

Inicialmente em conflito, Vast rapidamente chegou à uma conclusão.

"Ela provavelmente fez isso para o meu próprio bem. Se eu soubesse de todas essas classificações antes, poderia ter feito um plano e saído do castelo há muito tempo."

Essa atitude teria resultado em sua morte sem sombra de dúvidas. Num mundo repleto de vampiros poderosos e pessoas mal-intencionadas, um príncipe ingênuo que sequer era capaz de controlar sua própria Maldição era uma presa fácil.

"Eu treinei tanto, por tanto tempo, e mesmo assim…"

Os últimos momentos de Emilia passaram diante de seus olhos. Um intervalo tão curto que ela sequer foi capaz de gritar, arrastada para fins desconhecidos por uma força que mesmo Vast seria incapaz de resistir.

De certa forma, era por causa dela que ele estava vivo neste exato momento.

"Me desculpe, Emilia… Eu prometo que farei essa viagem valer à pena! Eu devo fazer!"

Resoluto, repassou as partes mais importantes da leitura.

Vampiros se dividiam em castas sociais, estas medidas através de poder bruto — ao que a análise breve indicava. Infelizmente eram muito escassas as informações mais precisas sobre cada uma, afinal o estudo sobre qualquer criatura exigia que essa fosse observada em seu habitat natural.

Poucos eram os loucos que se arriscavam em vigiar um vampiro, por mais fraco que fosse. Menos ainda eram os que voltavam vivos de tais insanas expedições.

O mais importante era o seguinte:

— A hierarquia é bem clara, mas como exatamente eles se organizam?

Do mais baixo para o mais alto, a ordem dos vampiros era: Indulgente, Vagante, Transformado, Descendente e Original.

Os únicos que eram de conhecimento público, logo nenhuma surpresa para Vast, eram os Originais.

Desde que os Vampiros emergiram e até os dias de hoje, sempre existiram apenas quatro destas criaturas. Cada um deles age como um governante supremo em uma das regiões da La Serva. Um tipo de "conselho" superior às leis humanas, como se a natureza tomasse forma física para demonstrar sua superioridade.

— Poderia o Verdadeiro Sol ser o Original que governa esta região?

Vast assumiu ser uma suposição segura, principalmente ao lembrar do olho entre as nuvens que o observava no caminho para Ormstade.

— Sem dúvidas aquilo foi fruto de uma habilidade poderosa, mas como posso saber se um vampiro é forte nesse quesito?

Tal como Amaldiçoados, cada uma dessas criaturas possuíam habilidades únicas, sendo sempre uma surpresa que tipo de batalha poderia se desenrolar em um confronto prolongado.

Considerada as condições da [Mutter], Vast optaria por ataques furtivos e fatais sempre que possível. Mesmo que uma luta se estendesse por meros dois minutos, o fato que seus inimigos seriam curados a cada vez que o príncipe fosse ferido poderia facilmente levar à uma derrota completa.

Sentado de pernas cruzadas sobre a cama, ele pensou. Pelo o que pareceram horas, ele pensou e pensou mais ainda. Sua concentração chegou ao ponto em que foi capaz de comandar o sangue dentro de suas veias a se concentrar no cérebro para acelerar seu funcionamento, causando toda a parte inferior do corpo a formigar e até adormecer.

Eventualmente, o esforço se provou útil.

— As estatísticas! Elas com certeza tem alguma influência!

Por causa da viagem ainda estar no início, suas referências eram poucas, mas bastante úteis.

Primeiro o Transformado que atacou o castelo.

— Aquela coisa era poderosa em quesitos físicos, mas se me lembro bem, sua Inteligência era muito baixa.

Segundo, o vampiro corcunda — Indulgente — derrotado no galpão dos mosquitos.

— Ele era capaz de falar, apesar da dificuldade. Se eu não o tivesse encurralado, era bem possível que saísse voando e iniciasse um ataque contra mim. A Inteligência era ligeiramente mais alta.

Obviamente seriam necessárias outras observações para comprovar sua teoria, mas por enquanto elas serviriam de base segura o bastante para se apoiar.

— A Inteligência sem dúvidas influencia em como eles se comportam, ou melhor, em quanto eles conseguem imitar um humano normal. Acho que posso assumir que funciona do mesmo jeito para as habilidades naturais deles, já que Força e Agilidade parecem afetar apenas o aspecto físico.

— Essas são suposições muito precisas, fico impressionada.

Uma súbita voz fez Vast saltar da cama com uma cambalhota, mas como havia uma parede atrás dele, sua fuga falhou e o que deveria ser um pouso em pose de batalha acabou num mergulho de ponta no colchão.

Se levantou com o rosto amassado.

— Quem está aí!?

No exato momento que sua visão conseguiu focar, a primeira coisa que avistou foi uma figura desconhecida sentada numa cadeira à frente da cama. Usava um longo vestido preto de laterais abertas, exibindo um par de pernas lisas de uma dama de alta classe.

Os olhos do príncipe passearam pelo corpo voluptuoso, não em segundas intenções, mas por puro receio de chegar ao rosto do indivíduo que lhe causava um frio tão aterrador por todo o corpo.

— Que-Quem é…

Quando estava prestes a desvendar o rosto da mulher.

Splish! O sangue em seus olhos ferveu de repente, fazendo algumas das veias explodirem e o sangue ardente escorrer por seu rosto.

GURH…!!?

Sentindo como se um par de estacas tivesse afundado em seu globo ocular, Vast rangeu os dentes quase ao ponto de rachá-los em prol de conter os gritos de dor. Se os serviçais ou o próprio Vincent viessem ao seu socorro, seus destinos seriam piores que esta dor excruciante.

— Assim como eu pensei, hehe! — A doce voz feminina pairou pelo ar, acariciando os ouvidos de Vast como um par de lenços espinhosos. — Você é muito mais que mera aparência, ó "Príncipe Pobre".

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