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Sputnik Saga · Capítulo 5: Carne Voadora
Sputnik Saga
arco 1 · SPUTNIK I: MUTTER · cap. 5

Capítulo 5: Carne Voadora

por Safe_Project2.228 palavras~10 min

Um dia inteiro se passou e a caravana de Russisch finalmente chegou em seu destino.

Com isso, faltavam 19 dias até o Julgamento causar a morte súbita de Vast. Nenhuma diferença real pôde ser percebida em seu corpo, exceto pelo leve aperto no peito. A premonição do coração que temia explodir a qualquer momento.

— Acho que nos despedimos aqui. Eu agradeço pela companhia.

Desceu da carroça pronto para disparar em direção ao burgo, interrompido pelo inventor que bloqueou o caminho com seu corpo largo.

— Antes disso, por favor, aceite meu mais novo invento!

A pressa fez Vast esquecer desse detalhe. O início da viagem foi marcado por perguntas quase intermináveis de Russisch sobre sua Maldição, tanto que caiu no sono no instante que a sessão acabou.

— Eu agradeço, mas… o que é isso exatamente?

Se tratava de uma larga cápsula oval e achatada da mesma cor de seus cabelos. Com quatro patas em cada lateral e um longo tubo de ponta afiada na parte frontal, poderia ser confundido com um pulgão afetado por radiação.

— Não vou mentir, foi difícil pensar em alguma coisa que pudesse te ajudar — iniciou Russisch. —, mas então eu me lembrei: você disse que um dos vampiros que enfrentou foi ferido quando bebeu o seu sangue, certo?

Vast lembrou do Transformado do castelo, cujo corpo começou a derreter ao tentar beber seu sangue.

— Ainda é uma teoria, mas tenho quase certeza que sim.

— Bem, é sua chance de colocar à prova! Por favor, equipe esse item.

Seguindo as instruções do inventor, Vast conectou um tubo na parte traseira do pulgão diretamente à veia de seu braço. O sangue fluiu sem problemas, se acumulando dentro do compartimento oval em pouco tempo.

— Com isso você vai ser capaz de disparar jatos concentrados de sangue. É tão efetivo quanto um tiro de escopeta!

— Entendo…

Era bem fora da curva que Vast esperava. Em partes parecia bom, pois cobriria a grande desvantagem num combate de longa distância, mas a utilidade só seria provada na hora do aperto.

— Farei bom uso de seu invento. Por acaso já deu algum nome?

— Chamei de Baratão de Sangue.

Vast sorriu de leve, decidindo que o nome seria Atirador Rubro.

— Pois bem, aqui me despeço. Tomem cuidado durante a festa, busquem abrigo nas casas ao menor sinal de perigo. Nunca se sabe quando um vampiro pode atacar.

Todos da caravana se lembrariam disso, a experiência recente servindo de aviso.

Desta forma, Vast agradeceu uma última vez e avançou com pressa.

"Os guardas daqui conhecem meu rosto. Tenho que evitar as ruas."

Foi forçado a buscar caminho pelos telhados das casas. Saltava agilmente entre as telhas, em certo momento escalando a torre de sino no meio do burgo para uma visão privilegiada.

No alto de um pequeno morro se destacava a mansão do burguês que comandava o local. Pelo movimento e os guardas nos portões, ele sem dúvidas estava em casa.

Antes de ir até a mansão fazer seu interrogatório, devia reunir pistas e opiniões com seus próprio esforços para então comparar às palavras de seu alvo. Desta forma poderia forçá-lo num beco sem saída e usar de sua autoridade para conseguir uma confissão.

Mesmo que devesse assumir posição neutra, nenhum conspirador seria poupado ante a justiça do reino.

"Primeiro, preciso descobrir do que se trata esse tal Festival de Carne."

Mergulhou nos becos entre as casas, mesclando-se à escuridão de forma tão natural que espiões ficariam invejados.

Nas ruas, barracas eram erguidas numa fileira a desaparecer de vista, todas vazias, como se servindo comida para fantasmas. Não havia música, pois todos os bardos se ocupavam com trabalho braçal para disfarçar a fome, suas gargantas secas demais até para a mais curta das serenatas.

Nenhum animal circulava pelas ruas, fosse gato, cachorro ou rato. Os únicos a andar pelas estradas de pedra — mais para mancar —, eram os súditos com sorrisos magros. Risadas curtas e cínicas ecoavam por todo o local, dos jovens bebês aos mais idosos da área. Todos compartilhavam de uma alegria que apenas o príncipe parecia incapaz de enxergar a fonte.

"Isso não é normal nem em meus pesadelos. Será algum tipo de doença desconhecida? Não, estou sendo otimista demais."

A resposta para suas perguntas residia na "carne" que dava nome ao exótico festival, e havia apenas um local onde ela estaria sendo guardada. Tal como uma sombra, Vast esgueirou-se até lá.

Estava em um canto nos limites do burgo e muito evitado pelas pessoas, a razão se colocando na forma de uma imponente estrutura. Com criação datada de antes da existência dos vampiros, levava o popular nome de "fábrica".

Uma estrutura retangular do tamanho de uma mansão, isenta das decorações bem tratadas presentes em uma. No lugar, as paredes metálicas se cobriam de ferrugem assim como os largos tubos espalhados por sua estrutura, suas funções desconhecidas. Vapor quente escapava por frestas em toda a construção, marcando os batimentos pesados e lentos da fábrica, suas paredes a expandir e contrair num ritmo constante.

Sem janelas ou qualquer possibilidade de averiguar o interior, Vast se dirigiu até a porta da frente, esta que se encontrava desprotegida.

As largas portas enferrujadas trouxeram surpresa ao seu semblante. Pesadas. Somente foi capaz de abrir graças à [Mutter]. Assim que a pouca luz revelou o interior, o silêncio foi rompido.

BZZZZZZZZZZZZZZZ!!

Vast cobriu os ouvidos no susto enquanto o rosto se contorcendo em dor. A pouca luz que invadiu o ambiente acordou uma multidão, ou talvez infestação fosse uma melhor definição neste caso, pois o lugar era um verdadeiro ninho.

Gaiolas dos mais variados tamanhos foram empilhadas e espremidas até o teto, todas por pouco capazes de conter o que à primeira vista era idêntico à uma tela de televisão chiada. A massa nauseante só tomou forma concreta quando o príncipe se esforçou para compreendê-la.

Mosquitos! Cada um do tamanho de um cachorro de médio porte e com o ódio de mil pinchers. Unidos, suas asas grandes como um braço reverberavam o chiado ensurdecedor; isolados, soavam como um motoqueiro com escapamento adulterado.

A primeira ação dessa massa sedenta ao ser acordada foi encarar o príncipe dos pés à cabeça. Analisavam, chegando rápido na conclusão óbvia: comida!

Vendo sua vida protegida por um mero seguimento de justas e finas barras metálicas, Vast recuou de imediato, fechou o portão e torceu uma cano velho numa trava improvisada.

"O que são essas criaturas?!"

Nenhuma aura vampírica surgiu, descartando a primeira opção.

"Por acaso é essa a carne que querem usar no festival?"

Uma forte repulsa fez veias saltaram à sua testa ao mero pensamento de tais bestas serem servidas aos seus súditos. Morreriam corrompidos por alguma doença desconhecida antes que mastigassem o primeiro pedaço.

"Será que eu devo destruir?"

De início quase o fez sem pensar duas vezes, determinado a esmagar todos os insetos com os escombros de metal. Havia, no entanto, duas possibilidades para esta descoberta.

Uma vez que não tinham aura vampírica, poderiam ser a criação de um vampiro ou um Amaldiçoado, quem sabe até fossem criaturas domadas por outro indivíduo que estivesse lutando contra os vampiros — por mais que os mosquitos sugerissem o contrário.

"Não, melhor ainda, eu posso levar um deles de prova para o interrogatório como elemento surpresa!"

Seria fácil pegar um. Visto que poderia ser apenas o corpo, bastava puxá-lo por entre as barras da jaula sem medo de esmagá-lo no processo. Para completar o plano, poderia finalizar com chave de ouro.

"Eu pego um deles… e depois destruo o galpão! Tenho que garantir que nenhuma dessas coisas escape."

Deveria fazer algo maior que simplesmente demolir o local, a melhor opção sem dúvidas era queimar o máximo de mosquitos possível antes de destruir qualquer pilastra. Atordoados pelo fogo, seria impossível escaparem da destruição seguinte.

Pronto para colocar o plano perfeito em ação, Vast se virou para partir e, de uma das esquinas do galpão, viu duas figuras surgirem.

— Hã?! Ei, quem é você!?

Sua primeira reação foi um passo para trás, fuga pretendida, ignorada quando o detalhe único revelou a identidade dos dois antes mesmo que se aproximasse.

Sobre a cabeça pairava a informação em forma de nomes e números.

Vampiro Indulgente
Força 20/100
Agilidade 7/100
Inteligência 13/100

Sem mais hesitar, ergueu o braço direito e apontou com o Atirador Rubro, causando as duas figuras a interromperem o avanço.

— Esse cabelo verde e as roupas caras… Você é o Príncipe Vast?

Em melhor análise, Vast notou que apenas dos indivíduos era um vampiro — a figura menor e com uma corcunda tão intensa que quase se tornava uma espiral.

O homem que lhe dirigia a palavra era um humano normal, mas ninguém que reconhecia.

— Sou eu, sim. Eu perguntaria quem é você, mas primeiro gostaria de explicações sobre o que está dentro do galpão.

— Então você já viu? Neste caso não há razão para esconder, está tudo anotado no meu caderno.

O homem levou a mão às costas e alcançou o item guardado na cintura. Os olhos cravados no príncipe.

Ele então saltou para o lado, revelando um revólver e disparando logo antes de cair no chão. O disparo acertou Vast de raspão no abdômen, o que em nada impediu que devolvesse o ataque com um tiro do Atirador Rubro.

O jato de sangue super concentrado perfurou o ar e atravessou o braço que segurava a arma. O ferimento foi imediatamente curado devido ao efeito da [Mutter], porém qualquer tentativa de se recuperar foi impedida.

Pisando sobre o homem e chutando o revólver para longe de seu alcance, Vast apontou a agulha de sangue para a testa do oponente.

— Com truques tão ruins assim. Eu estava suspeitando de uma mega conspiração, mas me parece ser apenas um grupo de bandidos aleatórios.

Mesmo completamente dominado, o suspeito conseguiu forçar um sorriso arrogante.

— Pode me torturar o quanto quiser, eu não vou revelar nada!

— Oh, então você confirma que faz parte do esquema com os mosquitos e que estava tentando prejudicar o Reino?

— Pode pensar o que quiser, sua imaginação é a única verdade que vai ter dependendo de mim.

— Entendo, é o suficiente. — Ajustou a mira do Atirador Rubro.

— O quê? Nã-Não! Espera…!!

Trish! O disparo atravessou a testa do homem antes que o semblante congelasse em pavor, seu corpo sequer estreceu, apenas subitamente ficando imóvel.

Vast em seguida limpou o pouco sangue que escorria da ponta do Atirador Rubro, prosseguindo em pegar o revólver no chão e descarregar o tambor.

Mesmo que poupasse o homem, os relatos seguintes muito provavelmente seriam apenas invenções desesperadas na tentativa de ter a vida poupada. Era um desperdício de informações até certo ponto, mas estava disposto a apostar nesta pequena exceção, afinal acabava de ganhar algo muito melhor que um mosquito gigante.

Uma vez que sua atenção caiu sobre o corcunda, este caiu de costas no chão e rastejou cegamente para trás, apenas querendo manter a maior distância possível do príncipe. Sem perceber, encurralou-se contra a parede do galpão.

— Seu nível de inteligência é mais que suficiente para ser capaz de falar. Dito isso, escolha suas palavras com sabedoria.

Sem a necessidade do Atirador Rubro desta vez, fechou o punho firmemente antes de iniciar:

— Foi você que criou estes mosquitos?

— Nã-NÃo… Este fOI mEu paI…

— Outro vampiro, eu suponho. E este seu pai está neste burgo?

— ESTá, papAI Está! Ele… sa-saBErá da suA preSENnça… em BREve!

— Entendo, então você e seu pai estão pretendendo usar uma legião de mosquitos para destruir meu Reino, é isso?

A criatura hesitou, seu rosto insectoide contorcendo-se em súbita admiração.

— É pelo… MEstre!

— Mestre? Quem seria esse?

— Nosso mesTRE… ele é~… o VerdaDEIro SOL!! VoCÊ nunca POderÁ esCApar! Todo LuGar que o SOL TOca é domÍNIo deLE!!

— Então ele já sabe que eu estou aqui?

— CerTAmenTE~!!

— Entendo. Melhor eu me apresentar para ele, então.

Num último grunhido, o vampiro corcunda se viu ser agarrado pelo colarinho e, num giro tão veloz criou um redemoinho de poeira, ser arremessado para as alturas.

Sua figura alcançou um ponto onde poderia ser visto de todo o burgo, seus gritos atraindo a atenção do público mais longínquo, principalmente aqueles que se escondiam atrás das densas nuvens.

Vast mirou e disparou novamente com o Atirador Rubro. O jato concentrado de sangue acertou a criatura em cheio, exceto que desta vez não atravessou o corpo. Ao invés disso, as veias do vampiro expandiram ao ponto de que seu corpo tornou-se um balão, incapaz de aguentar a pressão súbita e explodindo no ar num TAC súbito.

Por ter se dividido em pedaços pequenos, o sangue e a carne evaporou em névoa antes que tocasse o chão outra vez. Uma batalha sem pistas visuais, mas que sem dúvidas marcou a mensagem nos olhos de quem a viu.

"Já tenho informações o suficiente. Hora do plano principal."

Com alguns galões de combustível e isqueiro adquiridos na área, pouco demorou até que a fumaça negra fedendo a inseto frito se erguesse aos céus. Uma versão mórbida e disforme da Torre no horizonte.

Vast segurava o último mosquito gigante. Evitou matá-lo por medo que evaporasse como os vampiros, mantendo-o apenas desacordado. Desta forma, ele seguiu, desta vez de definitivo, para a mansão no alto da colina.

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