Eu vou partir do castelo!
Após dizer estas palavras com total convicção, o único herdeiro do trono de Von Legurn, Vast Los Filho, se viu mergulhado em dúvidas.
Agora que pensava com mais calma, notou que se deixou influenciar pelo desejo de ir até a Torre do Conquistador. Sair do castelo era apenas uma premissa que o levaria até o lugar de seus sonhos, mas agora era o pior momento para ser irresponsável.
“Será que eu devo sair do reino?”
Seu pai e os guardas não mostraram qualquer intenção de impedir sua partida — seriam incapazes mesmo que quisessem. Porém haviam os súditos da capital, sua maior preocupação.
Pensativo, foi até a janela mais próxima do corredor pelo qual andava e mirou o mundo abaixo.
Pelas ruas de Von Legurn, as pessoas se moviam em quantidades e formas que, vistas da posição do príncipe, eram semelhantes a formigas operárias fazendo o caminho até a fonte de comida e voltando para a colônia. Eram poucas pessoas para um reino deste tamanho, tanto que era fácil identificar quais casas estavam abandonadas só de olhar.
Vast suspirou pesadamente.
“O que devo fazer? Eu sei que tem algo errado, mas nenhuma pista de por onde começar.”
Voltando o olhar para o corredor, teve um susto. Diante de si estava uma jovem moça de cabelos ruivos e olhos verdes, vestindo um elegante uniforme de empregada.
— E-Emi…!
Ela se desfez no ar.
“Tsc! Eu vou ficar maluco nesse ritmo.” O olhar de canto voltou para as casas enquanto massageava a testa. “Talvez uma caminhada ajude.”
Assim o fez. Passando pelos portões do castelo sem quaisquer problemas, se encontrou no ambiente que se sentia mais à vontade, diferente do espaço excessivo e vazio do castelo.
— Príncipe Vast, bom dia!
— Majestade, que grande dia!
— Meu Príncipe, que honra vê-lo por aqui!
Ao contrário do castelo, onde nem os guardas ou seu próprio pai pareciam reconhecer sua existência, era difícil dar dois passos sem que fosse envolvido em alguma conversa.
Cumprimentou todos de volta, sem exceção, fazia a caminhada demorar um pouco e ser mais cansativa, mas era um preço baixo e que sempre colocava um sorriso em seu rosto. Um que apenas durou enquanto cercado pelos súditos.
Uma vez afastado da massa, a verdadeira atmosfera do ambiente afogou o príncipe. As pessoas estavam magras, muitas parecendo um esqueleto vestindo uma fina camada de pele. Em seus rostos, o sorriso por vezes forçado escondia o que era óbvio. Mesmo aqueles que foram perdidos para a insanidade — seus olhos dominados por espirais — eram incapazes de esconder a verdade abaixo de seus rostos contorcidos em loucura.
“Eles não vou sobreviver desse jeito.”
Se quisessem, os súditos poderiam se juntar e partir para cima do príncipe para reclamar sobre as condições atuais. Por mais que tivesse a [Mutter], Vast jamais levantaria um dedo contra essas pessoas. Ainda assim, essa ideia sequer passava pela mente de nenhuma delas.
Além da preocupação com seus futuros súditos, havia agora o mistério sobre o paradeiro de Emilia.
Tendo desaparecido sem deixar qualquer rastro de sangue mesmo após o ataque que sofreu, era muito possível que um vampiro tivesse a sequestrado. Pensar nessa possibilidade colocava Vast de joelhos, rezando para que o Rei Eterno a protegesse de qualquer mal.
Sem rumo, ele vagou pelas ruas enquanto murmurava seus problemas em voz baixa, sempre atento a qualquer pista que pudesse lhe fornecer um rumo concreto. Ainda que vestido em trajes da realeza, ele não se diferenciava dos mendigos loucos que andavam pelos becos, murmurando sentenças que mais pareciam uma maldição.
Eventualmente, pausou a caminhada numa rua menos movimentada. Ali encontrou um longo banco de madeira vazio, onde se sentou para descansar um pouco.
“Não consegui pensar em nada!”
Começar uma investigação sem pistas claras era mais difícil do que pensou, também aumentou seu respeito por aqueles que dedicavam suas vidas a resolver mistérios.
Para alguém que visse de fora, o problema parecia ter uma solução simples. Uma vez que o Transformado era alguém do grupo que apoiava o extermínio dos vampiros, era lógico o raciocínio de que o culpado estava entre aqueles da facção opositora.
Foi por causa dessa ideia que Vast pensou em partir imediatamente em busca de respostas. No entanto, havia um detalhe que complicava seus planos.
Maldições possuem uma desvantagem em proporção a uma vantagem, só que esta não era, de fato, a única razão para serem assim chamadas. O que impedia o príncipe de partir neste exato momento se chamava Julgamento dos 20 dias.
Se um Amaldiçoado deixasse o local em que ganhou sua Maldição — no caso de Vast era seu quarto no castelo —, o indivíduo em questão sofreria de uma morte súbita num período exato de vinte dias. Para evitar que isso acontecesse, bastava estar fisicamente presente no local onde tudo começou, assim reiniciando o relógio invisível.
Muitas eram as famílias que estavam na oposição, suas casas mais que distantes umas das outras. Desta forma, não havia maneira de Vast iniciar uma investigação minuciosa sem que fosse obrigado a retornar ao castelo a cada visita para evitar a morte súbita, o que daria tempo suficiente para o verdadeiro culpado descobrir suas intenções e se desfazer de quaisquer provas.
“Se apenas a Emilia estivesse aqui…”
Trunk.
Foi então que alguém sentou-se no mesmo banco em que estava.
— Hum? Oh! Prí-Príncipe Vast, sinto muito! Eu estava tão cansado que nem percebi que estava sentado aqui. Como vai a vida?
Era um homem velho, pela aparência diria que um sem-teto, cobrindo o corpo com um conjunto desgastado de roupas simples. Sua pele enrugada tinha uma segunda camada feita puramente de poeira, a barba branca tão suja que parecia jovial. Estacionada logo ao seu lado havia uma carroça puxada por uma mula em condições semelhantes, um pouco mais saudável que o dono.
A primeira reação de Vast foi sorrir junto de um educado acenar com a cabeça, seguido de um semblante de curiosidade.
— Perdoe-me a pergunta, mas por acaso o senhor seria um gari?
— Sou sim, é uma honra ter nosso futuro Rei reconhecendo isso! Muito obrigado, hohoho!
Tal profissão surgiu recentemente por La Serva, tendo chegado em Von Legurn a meros dois meses após sugestão de aliados do Sul — onde a profissão surgiu e teve a eficiência analisada ao longo de seis meses. Foi um dos vários decretos aprovados por Jordan.
Desde então, o número de epidemias na capital e vilarejos por todo o território diminuiu rapidamente. Estava longe de resolver todos os problemas, mas trouxe uma esperança necessária para todos os súditos.
— Por que a cara feia, meu Príncipe? Parece até que um cachorro com raiva mordeu sua perna.
— Estou apenas perdido em pensamentos. Fui confrontado recentemente com um problema difícil de ser resolvido.
— Woah! Eu costumo dar conselhos para os mais jovens, mas se mesmo o príncipe tem dificuldade, é difícil me imaginar sendo útil de alguma forma.
Intrigado com o homem ao seu lado, Vast ajeitou a postura.
— Na verdade, eu adoraria ouvir. Nenhuma frase é inútil, apenas precisa ser ouvida pela pessoa certa.
— Hoho, essa é uma fala e tanto, majestade! Bem, se me permite, como exatamente eu poderia ajudá-lo?
Vast de maneira alguma entraria em muitos detalhes, uma vez que poderia trazer preocupação desnecessária ao coração do velho e até de outros súditos com quem ele viesse a conversar eventualmente. Considerando isso, adaptou seu discurso.
— Pense numa situação hipotética onde imensas pilhas de lixo surgem sem explicação por toda a capital.
— Seria um pesadelo e tanto, e eu nem sei o que significa "hipotético".
— Hehe… Bem, destas pilhas, existem aquelas que são mais nocivas aos outros súditos e aquelas que são menos nocivas. Seria óbvio por onde começar, correto?
— Com certeza, o que é mais perigoso precisa sair primeiro.
— Precisamente, mas há um problema. Você não sabe quais pilhas são nocivas ou não, e também não há pistas que indiquem a resposta.
— Hoho, agora eu entendo. — O velho sorriu ansioso ante o desafio. — É um problema interessante, mas a resposta é mais simples do que pensa, majestade.
— E qual seria?
O velho deu um largo sorriso amarelo.
— Eu limparia tudo o mais rápido possível!
Vast congelou por um momento. Sua expectativa foi quebrada e em compensação a curiosidade apenas aumentou.
— Perdão, poderia explica melhor?
— Mas é claro! Veja bem, é complicado mesmo não saber quais pilhas de lixo são mais perigosas, senão era só tirar elas primeiro e depois seguir com as outras. Mas nessa situação que o príncipe disse, se você for rápido o bastante, nem vai precisar se preocupar com isso. Na verdade, eu diria até que ficar pensando é a pior coisa a se fazer, já que o lixo continuaria lá até que fizesse algo. Com um pouco de sorte, quem sabe até daria pra tirar todas as pilhas nocivas primeiros, mas aí já seria uma grande ajuda do Rei Eterno, hohoho!
…Mas bem, no fim do dia, tudo isso é apenas o meu trabalho, e eu o faria quantas vezes fosse necessário.
Vast refletiu sobre as palavras do homem à sua frente. Cada uma delas encheu seu peito com diversos sentimentos diferentes. Entre eles, arrependimento.
Desde que se viu diante do problema, nada do que fez poderia ser considerado útil de qualquer maneira. Seu andar apressado, os murmúrios, a perna a bater nervosa. Se arrependeu de todo este tempo perdido, ao mesmo tempo que ansiou grandemente pelo que ainda estava por vir.
Ele se levantou de repente, os olhos brilhando. O velho imitou no puro reflexo.
— Vejo que é realmente bom com conselhos. Pelo visto os jovens deste reino estão em boas mãos, é um alívio.
— Oh, por favor, eu não mereço tais palavras. Na verdade…
O homem levou a mão ao bolso da calça, de onde tirou uma única moeda de prata — provavelmente a única que tinha. Ele então agarrou a mão de Vast e pôs a moeda em sua palma.
— Por favor, aceite isso.
— O quê? Claro que não, como eu poderia aceitar dinheiro de meu súdito, ainda mais depois de tamanho favor que me fez com esses conselhos? Se alguém deveria estar oferecendo dinheiro, deveria ser eu!
Foi então que um apelido lhe veio à mente, a sensação de uma agulha penetrando seu crânio e cutucando seu cérebro. Acreditando ter entendido, ele envolveu as mãos do homem com sua mão livre e sorriu.
— Acredite em mim, senhor, mesmo que eu seja um “Príncipe Pobre”, tenho certeza de que essa moeda será muito mais útil para você.
Por alguma razão que o próprio Vast desconhecia, seus súditos o chamavam por este apelido desde a primeira vez que saiu da castelo, quando tinha oito anos de idade. Ao que lembrava, a única pessoa que o acompanhou no passeio naquele dia foi Emilia.
Ser chamado assim não lhe incomodava de forma alguma, o real problema era que, esporadicamente durante seus passeios, seus súditos vinham lhe entregar dinheiro mesmo que ele nunca o pedisse. Muitos deles estavam em condições ruins, claramente passando por jejuns e economizando mesmo nas refeições mais importantes, ainda assim, entregavam dinheiro.
Vast recusava todas as vezes, mas Emilia fazia questão de recolher as moedas. Seria um ato desonroso recusar o presente dos súditos, ela dizia, ao que Vast jamais concordou. Infelizmente, ele também era incapaz de devolver o dinheiro, uma vez que não fazia ideia de onde a empregada o guardava após a coleta.
Foi então que o gari deu um curto riso sem graça.
— Majestade, acho que se enganou.
— Perdão?
— Ninguém neste reino lhe chama de “Príncipe Pobre”, jamais ousaríamos. Foi um erro pequeno, veja bem, é fácil de errar o sentido. As pessoas na verdade te chamam de “Pobre Príncipe”.
Atordoado pela revelação, Vast paralisou no lugar.
— Eu… não entendo.
— Hoho, e não há problema. Nenhum de nós vai exigir que o senhor entenda isso agora. Sabe, meu príncipe, todos nós sabemos que o senhor não vai entender essas palavras por agora, mas todos tem certeza de que, um dia, irá sem dúvidas captar nossa mensagem. — Ele gentilmente fechou a mão que Vast segurava a moeda. — É por essa razão que, enquanto tivermos esperança, nós conseguimos fazer nossos trabalhos todos os dias!
Os olhos obsidiana brilharam ao ponto de parecer uma lagoa cristalina. Sem se conter, ele abraçou o homem.
— Você me trouxe um grande entendimento. Eu agradeço do fundo do meu coração, senhor.
— E-Eu agradeço imensamente, meu príncipe, mas…! Eu não… consigo respirar!
— Ops! Sinto muitíssimo! — Pôs o súdito de volta ao chão, se curvando antes de completar. — Eu prometo, no nome do Reino de Von Legurn, que farei tudo ao meu alcance para resolver qualquer problema.
O gari ia pedir que o príncipe levantasse a cabeça, invés disso, decidiu agradecer de volta.
— Sabemos que fará um bom trabalho, Príncipe Vast. Que o Rei Eterno lhe proteja.
— Eu agradeço, nobre súdito, e aqui me despeço.
Desta forma, ambos partiram caminhos para resolver seus próprios problemas. Poderiam confirmar, entretanto, que as pessoas que começaram a conversa eram totalmente diferentes daquelas que a finalizaram, o que se aplicava principalmente a Vast.
“Era tão óbvio! Como não pude perceber antes? Meu trabalho como um príncipe não é procurar um caminho!”
A passos firmes e constantes, ele voltou ao castelo e subiu até seu quarto. Lá, ele abriu a janela e escalou o telhado.
No pico da torre mais alta, tudo estava ao seu alcance. O ar era mais pesado, mas curiosamente se sentiu mais vivo. Aqui, ele pôde ver de relance o céu azul citado nos contos de fadas, escondido atrás do céu nublado de La Serva. Aguardava para ser revelado ao mundo.
Sua atenção caiu sobre a Torre do Conquistador. Visível de qualquer lugar, a estrutura era a única existente que passava das nuvens, estendendo-se para onde nem a imaginação mais fértil era capaz de pensar. Era larga como uma montanha e de superfície tão calma quanto um lago inerte. Semelhante a um pedaço da realidade que foi arrancado, restando uma região escura repleta de mistérios. O lar do Rei Eterno!
— Não temam, meu povo!
À frente, um futuro brilhante era mais que notável. Um que o príncipe estava mais que disposto a conquistar.
— Eu forjarei um caminho com minhas próprias mãos!
