Na manhã seguinte, ao nascer o sol, Aurélio saiu de sua casa carregando consigo uma mochila, uma bolsa de couro atravessada em seu ombro, onde carregava seu grimório e um pequeno saco pendurado em seu cinto que carregava alguns cristais elementais.
Ele caminhou junto de seu cajado até o portão da vila, onde Osma o esperava sentado em uma caixa do lado de uma carroça coberta, enquanto lia um livro de romance.
— Bom dia, Osma! Trouxe tudo que precisarmos?
— Bom dia, Aurélio! Tudo já está na carroça — disse Osma, que jogou o livro dentro da carroça.
— Então vamos! E que Deus nos acompanhe.
Assim começou a pequena aventura de Aurélio e Osma, rumo ao horizonte e sem saber o que os esperava.
Após um longo percurso, Osma demonstrou estar inquieto com algo, com isso, eles decidiram dar uma pausa. Osma foi o primeiro a descer da carroça, correu em direção a uma moita para se aliviar, enquanto isso Aurélio desceu e caminhou por aí admirando a paisagem.
Eles estavam em uma pequena área arborizada, com bastante mato e alguns pássaros cantando. Aurélio aproveitou o momento para assobiar uma pequena melodia aos pássaros que responderam a seu chamado, o acompanhando, formando um pequeno coral. Porém, não demorou muito para Osma chegar e sua presença assustou as aves.
— Poxa Aurélio! Que vista linda, não acha?
— Sim, ela é — disse Aurélio de forma ríspida. — Mas agora temos que pegar aquela estrada.
Enquanto eles voltavam, escutaram algo ao longe, um gemido indiscreto que vinha de uma moita. Ao chegarem lá, viram um senhor amarrado da cabeça aos pés e com uma mordaça em sua boca.
Pela sua estatura e seu peso, dava para dizer que se parecia com um porco pronto para assar. Sua pele era branca, seus cabelos cor ocre penteados e pelas suas roupas daria para ver que se tratava de alguém importante.
— Hum! Hum... Humm! — gemeu o senhor, pedindo por ajuda e tentando soltar-se das cordas.
— Fique tranquilo, senhor — disse Osma tirando a mordaça da boca dele. — Não faremos nenhum mal ao senhor.
— Obrigado, meu jovem, por ajudar esse pobre comerciante, mas poderia me desamarrar, por favor?
— Claro, mas quero saber um pouco de sua história antes de te libertar — disse Aurélio, que olhava desconfiado para aquele senhor.
— Certo, se é assim, eu contarei... Eu estava voltando da cidade vizinha, onde havia ido a negócios em nome da minha vila, quando fui emboscado por saqueadores, e agora estou nessa situação.
Aurélio parou por um momento para pensar, ele agachou e o analisou olhando diretamente em seus olhos e depois para seu fino bigode cor ocre.
Ele levantou-se e falou: — Pode soltá-lo. — E caminhou em direção à carroça.
Com isso, Osma o soltou e o ajudou a se levantar.
— Obrigado novamente, meu jovem — disse o senhor, apertando a mão de Osma.
— Ah, de nada, senhor?
— Demian, o comerciante — disse Demian que tirou o pó de suas vestes.
— Bem, o senhor disse que estava a caminho de uma vila. Qual seria essa vila?
— Ah! Sim, a Vila do Orvalho.
— Interessante, também estamos indo para lá — disse Osma que havia enrolado a corda.
— Então, poderia me dar uma carona? — perguntou Demian, mancando um pouco. — Eu posso pagar.
— Fechado! Mas trate de nos pagar, se não! Você terá de pagar de outra forma.
Assim, os dois voltaram para a carroça, onde Aurélio já estava esperando. Ao chegarem, Osma explicou o ocorrido para ele. De início, Aurélio discordou da decisão de seu amigo, mas acabou sendo convencido pelos dois, então os dois subiram na carroça. Deixando o lugar, eles seguiram a estrada por alguns quilômetros com Aurélio guiando a carroça, enquanto Osma conversava com Demian sobre suas viagens, até Osma perguntou:
— Mudando de assunto. O que você vai fazer na Vila do Orvalho? E por que você está indo sozinho?
— Pelo que vejo, você é bem curioso, meu jovem — disse Demian depois que tomou um pouco de água. — Bem, eu estou indo para lá em busca de novos negócios com outros comerciantes, quero conhecer o mundo através do comércio e também lucrar bastante com isso.
— Então você quer participar da “Rota da Seda”? — indagou Aurélio.
— Exatamente! É isso que eu almejo, quero conhecer o mundo além do habitual, quero expandir meus negócios pelo mundo todo! — disse Demian, levantando do assento, apontando seu dedo indicador para a estrada e depois para o céu. Para logo em seguida a carroça passar por cima de uma pedra que o faz perder o equilíbrio, o fazendo cair em seu assento.
— Ha!ha!ha!ha! — riu Osma. — Isso é interessante.
— Já quanto a estar sozinho... Eu não estava — disse Demian, desanimado, enquanto acariciava seu fino bigode. — Eu vim com um grupo de comerciantes, mas, por discordar deles em certos aspectos, eu fui abandonado.
— Ué mas por quê? — perguntou Osma.
— Bem... Como eu posso dizer isso... Eu, sem querer, acabei pegando um item que não era meu.
— Então, você roubou? — indagou Aurélio, olhando de forma ameaçadora.
— Não foi assim. Alguém com quem havia brigado durante a viagem implantou isso para queimar meu lado. E, como eu era praticamente um novato no grupo, eles não confiaram em mim e, na manhã seguinte, partiram sem mim.
— Nossa...
— Não se preocupem, eu não faria mal algum para vocês.
A viagem seguiu como se nada tivesse ocorrido. No outro dia, eles avistaram finalmente a vila. Por fora, dava para ver os muros bem conservados. Eles a seguiram através da estrada até chegarem aos portões da vila, onde foram recebidos por dois guardas que escoltavam o portão. Sendo um esguio que parecia estar no mundo da lua, enquanto o outro era um tanto forte e sério.
— Alto lá! — disse o guarda forte. — O que os traz a essa vila?
— Nós estamos aqui a negócios. Aqui os papéis da guilda. — disse Aurélio, entregando os papéis.
O guarda pegou os papéis e deu uma olhada neles.
— Está tudo certo aqui, vocês podem passar — disse o guarda forte. — Podem abrir os portões.
— Sejam bem-vindos a Vila do Orvalho — disse o guarda esguio com sua voz anasalada.
Os portões se abriram para eles entrarem e ao entrarem, viram que o lugar tinha uma beleza inestimada, o lugar todo estava enfeitado com flores para cá e para lá, parecia que estava acontecendo um festival. Entretanto o que estranhavam eram as pessoas que tinham roupas bem elegantes. Demian pediu para eles pararem perto da fonte.
— Obrigado, rapazes, é aqui onde eu me despeço de vocês — disse Demian descendo da carroça. — Aqui está o pagamento — disse ele, entregando as moedas na mão de Osma.
— Espere um momento, Sr. Demian — disse Aurélio estendendo sua mão com um papel. — Poderia nos dizer onde fica essa taverna?
Demian pegou o papel e o leu. — Há, a taverna do Tex, ela fica um pouco longe, no lado oeste da vila, você saberá que estará próximo quando ver outra fonte.
— Outra fonte?! — disse Osma, perplexo. — Quantas fontes tem nessa vila?
— Contando ao todo, são três: essa aqui, outra que fica no centro da vila e outra perto da Taverna do Tex. Boa sorte para vocês.
Aurélio e Osma foram procurar pela tal taverna. Eles passaram pelo centro da vila, onde viram um pouco do festival as pessoas festejando sem preocupações, até parecia um lugar acolhedor, as pessoas estavam usando suas melhores roupas e a variedade de cores era impressionante, porém o que mais chamava a atenção eram a alegria quase contagiante deles.
Eles chegaram até a fonte, aquela fonte era parecida com a anterior, com seu diferencial sendo os quatro pratos e parecia mais nova, seus detalhes eramentalhados formando várias gotas e relevos que formavam várias pombas. Com isso, eles encontraram a taverna do Tex, deixaram a égua e a carroça no estábulo ao lado e foram até a entrada da taverna.
Ao chegarem lá, eles viram que o lugar era bem extravagante tanto por fora quanto por dentro, a música do lugar era suave, enquanto as pessoas que estavam presentes e estavam usando máscaras. Aquela era uma taverna para nobres, dava para ver uma pequena diferença entre os convidados pela roupa, quem era um nobre e quem era um aventureiro.
— Então é assim que é uma taverna para nobres? — disse Osma, impressionado. — Não acredito que estou em uma.
Nisso apareceu um garçom grisalho de bigode comprido.
— Os senhores foram convidados? — perguntou o garçom com desdém.
— Olha como voc...
— Temos, olhe aqui — disse Aurélio, cortando a fala de Osma e mostrando os convites.
O garçom pegou os convites com as pontas dos dedos e, ao lê-los, fez uma cara de entediado, olhou para outro garçom e fez um gesto para ele vir até eles. O outro garçom, mais novo, trouxe uma travessa com duas máscaras, uma tinha um formato que lembrava a um pássaro, tendo até algumas penas, e outra que parecia com uma máscara de borboleta.
— Essas são as máscaras para vocês, coloquem-nas e vão até a mesa perto da janela — disse o garçom bigodudo, apontando para a mesa. — Eu já irei chamar o seu Senhor.
Aurélio pegou a máscara que lembrava um pássaro, enquanto Osma pegou a outra e foram até a mesa instruída. Eles sentaram-se em seus lugares para passar o tempo e ficaram observando algumas pessoas dançando na pista de dança. Até que o Sr. Carl apareceu, usando uma máscara de urso.
Aurélio e Osma se levantaram de suas cadeiras para cumprimentá-lo e logo se sentaram novamente em seus lugares.
— Sr. Carl, posso presumir — disse Aurélio, mexendo em sua máscara desconfortado.
— Sim, e os senhores são os aventureiros de quem Gregor me falou — disse Carl, aproximando-se dos dois. — Então vamos aos negócios, preciso que vocês ajudem meu genro, ele está piorando a cada dia.
— O preço se mantém? — perguntou Osma.
— Sim, claro.
— Uma dúvida — acrescentou Aurélio. — O que exatamente tenho que lidar?
— Bem, para responder a essa pergunta, vocês terão de me seguir por um momento até minha casa.
