No final de uma tarde exaustiva, Aurélio voltou para sua casa. Assim que entrou, largou seus pertences em qualquer lugar e subiu as escadas para seu quarto, que fica no segundo andar, desabou em sua cama junto de seu grimório.
Suas roupas estavam parecendo como trapos, ele olhou com seus olhos castanhos escuros como um carvalho para o teto de madeira envelhecida, procurando uma forma tranquila de dormir.
— Ah... Como posso resolver esse problema? — murmurou Aurélio, passando sua mão pelo seu bigode e cavanhaque respeitosos. — Agora que eu estava prestes a conseguir alguns trocados.
“Que pena” — ressuo uma voz feminina e delicada em sua cabeça. — “Não fique assim querido, tenho certeza de que logo terá outra oportunidade.”
— Eu sei, mas depois de recolher aqueles bois, aquele miserável ainda teve coragem de me dar um calote!
Enquanto eles conversavam, um vulto aproximou-se da janela do quarto e bateu na janela. Aurélio lutou para levantar-se de sua cama confortável e, quando conseguiu, foi ver o que era. Ao abri-la, ele viu que tratava-se de seu amigo em uma escada de madeira.
— Osma!? O-oque você faz aqui e com esse...
— Fica tranquilo, Aurélio. Eu só vim ver como você está — disse Osma, que entrou no quarto de forma sagaz e tomando cuidado para não cair. — Soube que você levou um calote do velho dos bois, não foi?
Ele tirou o capuz verde escuro, mostrando seu rosto jovem branco um pouco bronzeado. Seu cabelo era curto de cor negra e seus olhos claros como uma castanha que acabara de amadurecer, suas roupas sendo as de um típico aventureiro, porém, o que se destacava eram as proteções de antebraço e sua túnica com capuz verde escuro.
— Sim, mas o que te traz aqui? Eu estava quase a pegar no sono — disse Aurélio sonolento.
— Eu já sei o que vai te animar, vamos até a taverna beber um pouco — disse Osma, tentando animar seu amigo.
— Acho melhor não... Eu não estou no clima e também não tenho dinheiro.
— Isso não é problema! Fui muito bem na última missão e quero comemorar com você. Vamos, vai ser divertido!
Aurélio suspirou, derrotado.
— Certo... Você venceu. Só deixa eu trocar esses panos surrados.
Osma saiu do quarto, e foi o esperar do lado de fora.
Aurélio tirou suas vestes sujas, quase rasgadas, e as jogou no chão, por um momento ele parou em frente ao espelho, encarando a estranha marca em seu braço direito, ele apenas passou a mão sobre ela e, com um pouco de raiva, pegou suas novas roupas e as vestiu.
Suas vestes consistiam em um robe cinza com uma túnica azul, ele colocou seu icônico chapéu de mago e, antes de sair, ele pegou o seu grimório e seu cajado.
Durante o caminho, Osma falou de sua missão para Aurélio, enquanto passavam pelas casas mais antigas da vila. Ele a narrou como se fosse a coisa mais épica que havia ocorrido, isso para não dizer que era chata. Entretanto, o jeito que ele contava parecia com um conto de fadas, como se ele tivesse adentrado na caverna de um dragão e conseguido roubar uma moeda de ouro de seus tesouros. Apesar de sua missão ser apenas de pegar algumas frutas para uma senhora que mora em uma casa não longe dali.
Após um tempo, eles chegaram à entrada da taverna, a onde via-se um grande arco com uma lamparina e uma placa abaixo dela, com as letras pintadas na cor amarela com os dizeres: Taverna do Bach. Ambos entraram naquele estabelecimento.
Aquela taverna era diferente do que Aurélio estava acostumado a frequentar, o lugar estava limpo, tinha mesas e cadeiras novas e um balcão impecável com alguns queijos empilhados nos cantos. A música que a banda tocava era animada e as pessoas estavam felizes. Tudo corria bem até alguém levantar a mão e os chama de uma mesa de canto, essa pessoa era nada mais nada menos que Gregor, um dos contratantes da guilda dos aventureiros.
— Aurélio! A quanto tempo que não nos vemos? — disse Gregor, cumprimentando-o com um forte aperto de mão. — Como está?
— Nada bem, hoje levei um calote da queles.
— Meus pêsames, amigo — disse ele sem jeito. — Ei! Traga dois canecões de cerveja para meus amigos e mais um para mim!
— E como está sua mãe, Osma? — perguntou Gregor em um tom romântico.
— Ela está bem casada, Gregor — respondeu Osma, um pouco irritado.
Os dois se juntaram à mesa.
— Então, Gregor como estão indo os negócios? — perguntou Aurélio, tirando o seu chapéu e o colocando na mesa, e colocou seu grimório sobre sua coxa.
— Ultimamente estou passando mais tempo cuidando da taverna, desde aquele fatídico dia em que perdi o meu olho e... — Gregor faz uma pausa enquanto mexe o cotoco que restou de seu braço. — Bem, mudando de assunto, vejo que Osma cresceu bastante desde a última vez em que eu o vi — disse ele, colocando mais fumo em seu cachimbo. — Então, Osma encontrou alguma namoradinha?
— Infelizmente, ainda não — disse Osma, pensativo. — Mas, pensando bem, não sei ao certo, mas parece que a filha da senhora das maçãs está interessada em mim. Faz algum tempo que ela vem me olhando de forma diferente.
— É isso, meu garoto! Você está melhor que seu mestre, aí que nem pega mosca — disse Gregor com um grande sorriso estampado em sua cara e ajustou seu tapa-olho.
Durante a conversa, a garçonete entregou as canecas de Osma e Gregor, porém, quando foi entregar a caneca do Aurélio, ela inclinou-se mais um pouco, mostrando mais de seu grande busto decotado, e antes dela sair, ela deu uma piscada para ele.
— É, parece que ainda sou um filézinho — disse Aurélio, revigorado, depois tomou um pouco de cerveja.
Aurélio levou uma espetada em sua perna.
— Ai! Tsch! “está bem, eu não vou fazer nada” — pensou Aurélio.
— O que foi? — perguntou Osma, preocupado.
— Não foi nada, só uma dor na perna, deve ser coisa da idade.
Depois de um tempo jogando conversa fora e bebendo, Gregor colocou um papel na mesa.
— Bem, eu tenho algo que possa interessá-los, “um trabalho” — disse ele após uma profunda tragada em seu cachimbo.
— Recentemente, apareceu um nobre requisitando algum mago que possa curar seu genro que está muito doente. Ele falou que tinha sido atacado por um feiticeiro ou algo parecido e está disposto a pagar uma boa quantia a quem fizesse esse trabalho.
— Quanto ele irá pagar? — perguntou Aurélio, colocando a caneca na mesa.
Gregor tirou seu cachimbo de sua boca e falou: — Se me lembro bem, são 23 moedas de ouro.
— Aceitamos! — disse Osma, empolgado.
— Me recuso a participar de algo assim.
— Ué... Aurélio! Por que não?
— Simples, porque isso seria suicídio. Na minha última missão, em que tive que lutar contra um feiticeiro, eu quase morri.
— Mas isso não passa de achismo, não terá nenhum feiticeiro. Pense bem, só iremos lá fazer o serviço e teremos dinheiro para pelo menos dois ou três meses sem precisar pegar trabalhos — disse Osma com um olhar de coitado. — E também posso usar esse dinheiro para ajudar meus pais.
Aurélio tirou um tempo para pensar, ele pegou novamente sua caneca quase vazia e deu mais um gole, terminando-a. Ele olhou para Osma, que fazia uma cara de um gatinho coitado, e respondeu: — Humm... Está bem, partiremos de manhã.
— Eba!
— Então, Gregor, conte o resto da proposta.
— Certo, o nobre que requisitou o serviço estará os esperando em uma vila chamada “Vila do Orvalho”, que não fica muito longe da nossa, daria um dia a cavalo, e ele se chama Sr. Carl — disse Gregor, entregando um mapa com a localização da vila e um papel com o nome do lugar de encontro e dois convites.
— Ele disse que ira tratar diretamente a outra parte do serviço. Mas agora vamos comemorar a missão bem-sucedida de Osma.
Muitas canções e conversas sobre as antigas aventuras de Gregor com Aurélio, os três brindaram para trazer sorte à próxima missão e que Osma encontre seu amor.
Mais tarde, Aurélio e Osma saíram e voltaram para suas respectivas casas. Ao entrar em sua casa, Aurélio voltou para seu quarto e desabou novamente em sua cama.
— Será que eu fiz a escolha correta?
“Quem sabe?”
