A criatura cortava armaduras como papel com suas longas garras, cada um de seus golpes calmamente analisado pelo oponente que aguardava sua chance perfeita.
"Então isso é um Transformado? É a primeira vez que vejo um tão de perto!" Vast engoliu em seco, torcendo para acordar deste pesadelo.
Ao contrário das outras classes de vampiros, Transformados não possuíam uma média previsível de poder destrutivo. Poderiam ser inofensivos como uma lesma ou perigosos como um exército, tornando-o num inimigo complicado para pessoas normais. A única coisa que tinham em comum era a completa selvageria!
GYAAARGH!!
Tal fato era mais que evidente nesta amostra viva, isenta de qualquer consciência. Cada golpe imitava o lobo cujo corpo havia sido imitado, arranhando como um filhote que ainda aprendia a caçar. A diferença era a força de dez homens adultos.
— PRÍNCIPE VAST! VAMOS SAIR DAQUI!!
A desesperada Emilia puxou-lhe pelo braço, seus olhos se recusavam a desviar do vampiro por qualquer coisa. O mesmo para seu mestre.
Vast tomou sua decisão.
— Para trás! — Se soltou do aperto da garota e pulou por cima do corrimão.
Devido aos efeitos da [Mutter], seu pouso forçado seguiu-se de um repentino e potente torcer de seus ossos — um contido grito dolorido ao final. Tal sofrimento converteu-se numa luz branca ao redor de pelo menos cinco soldados à frente. Antes cobertos de ferimentos, agora estavam novos em folha.
— Príncipe Vast! Não se aproxime mais!!
O soldado viu apenas um vulto passar, só percebendo instantes depois que a lança que carregava também havia sumido.
PRÍNCIPE!! Todos que deveriam protegê-lo clamaram pelo seu retorno ao vê-lo avançar contra o vampiro, mas nenhuma voz foi capaz de alcançá-lo.
O Transformado atacou com um brutal e enfadonho arranhar, tão reto que arquitetos ficariam maravilhados, evitado com um simples salto para o lado.
A poucos centímetros do alvo, Vast empalou o pescoço da criatura e girou, rasgando a pouca pele e decapitando o monstro.
Sua habilidade não era aplicada aos itens que empunhava, então deveria usar os equipamentos com cuidado, caso contrário se quebrariam como um galho seco devido ao excesso de força.
Voltando o olhar para Emilia, a encontrou apoiada no corrimão da varanda do segundo andar, afogada em preocupação. O único herdeiro do Reino, seu protegido, arriscava a vida diante de seus olhos sem que pudesse fazer nada.
Vast sorriu em resposta, disposto a usar o momento como prova de sua capacidade.
"Observe, Emilia, os resultados dos meus treinos!"
Para provar a si mesmo e aos outros que era forte o suficiente para sair do castelo sozinho, ele derrotaria este vampiro.
Crunch!
A cabeça decepada mordeu seu antebraço sem chance de reação. Resposta do próprio mundo para suas expectativas.
Os caninos podres afundaram na carne, quase alcançando os ossos. Antes que tivesse o membro arrancado, bateu-o contra o chão e forçou o soltar da criatura. Restos cerebrais espirraram pelo chão. Liberto, afastou-se e recuperou a postura.
O corpo cadavérico continuava de pé, recuperando a cabeça e a reconectando ao forçar um osso contra o outro, como quem finca uma estaca no chão.
"Gurh! Esse cara… Como?"
Vast tinha a lança, porém o braço direito e dominante foi imobilizado pela mordida. O formigamento se espalhou para o resto do corpo, o efeito de sua habilidade causando dormência dos pés à cabeça.
Droga…! Cerrou os olhos para que o oponente não sumisse de vista, uma ação simples com o efeito oposto ao desejado.
No tempo de um piscar de olhos, o Transformado cortou a distância entre os dois, roubando a lança do príncipe ao atingi-lo com um soco na lateral do torso que o arremessou contra os guardas.
GURYAAAH!!
A criatura rugiu, ansiosa. Seus olhos que nem funcionavam vagaram pelo salão, o sorriso podre indo de orelha a orelha quando encontrou algo de seu interesse. O corpo se inclinou num ângulo como um verdadeiro lanceiro e, antes que qualquer um reagisse, a arma foi arremessada.
O objeto rasgou o ar abafado do salão, trazendo um frescor momentâneo junto do inconfundível cheiro de morte. Um trajeto calculado aos milímetros, tendo como alvo a pessoa que aparentava ser a mais frágil do lugar, talvez pela mera luxúria que sentia com a violência para com os mais fracos.
Ainda no segundo andar, um curto sobressalto foi a única reação de Emilia antes de ser acertada em cheio, arrastada através de várias paredes pela força brutal da lança.
Uma densa nuvem de poeira inundou os corredores acima. O tempo parou por um breve segundo para Vast, cujo acabava de se recuperar da tontura, seu corpo tomado pelo desespero ao ver o caos.
— EMILIAAAA!!
O Transformado acertou-lhe uma joelhada nas costas antes que corresse ao resgate da mulher. Todos seus músculos estremeceram e a onda de choque o fez cuspir uma grande bola de sangue. A dor de ser atropelado por uma fila de carruagens.
Amedrontados, os guardas ao redor se afastaram na menor ameaça da criatura em avançar sobre eles. Fez do príncipe o seu tapete, a saliva misturada a resíduos do intestino podre desmaiando os mais próximos, sua sede tão grande que todos sentiram o próprio sangue tentar escapar das veias, querendo voar para longe do predador.
— Pro-Protegam o Rei! — ordenou o líder entre os guardas.
Vast, ainda consciente, sabia o que isso significava.
“Eu subestimei… a força dos vampiros.” Se sua boca ainda fosse capaz de se mexer, ele agradeceria aos soldados.
Para o príncipe, os guardas tomaram a escolha certa ao abandoná-lo. Notaram que era impossível salvá-lo e, portanto, decidiram prezar pela vida de quem tinha mais chance de sobreviver. Do seu ponto de vista como — até então — futuro Rei, esta foi uma decisão bastante sábia.
O Vampiro encarou-lhe de cima e abriu a boca, lentamente aproximando as presas de seu pescoço.
"Eu não posso morrer aqui! Ainda tenho… que visitar a Torre!"
Nenhuma barreira impediu o avanço da mandíbula cadavérica, e então as presas alcançaram sua carne, penetrando sem dificuldade. O sangue que corria até seu cérebro começou a ser desviado.
Em mente, chamou por Emilia, desejando que pudesse vê-la uma última vez, independente do estado em que estivesse agora. Concentrando parte do sangue no braço, foi capaz de enforcar a criatura.
“E eu nem consegui me declarar apropriadamente. Eu não sou um cavalheiro, sou apenas um covarde.”
O rosto estava virado na direção da sacada, com um olhar esperançoso de ver a amada surgir com um sorriso gentil para confortá-lo. Não aconteceu. Ao invés, sentiu uma gota quente cair em sua bochecha, seguida de outra e mais outra.
O líquido escorreu até sua boca, a língua forçada a reconhecer o sabor de seu próprio sangue misturado ao do Vampiro.
Huh!? Seu resmungo trouxe-lhe para a realidade. As presas escaparam de seu pescoço e um longo grito dolorido inundou o salão.
UGYYAAARRH!!!
A criatura sofreu com intensas convulsões, seus músculos e tendões se contorcendo como vermes afogados em um poderoso ácido. Sua mão ossuda deslizou incontáveis vezes pela língua esverdeada, a tentativa desesperada de limpar apenas piorando sua situação.
“Mas que…!” Vast encarou a cena por alguns segundos, só então percebendo a chance que ganhou.
Agarrou a espada mais próxima e saltou sem hesitar contra o vampiro.
S
L
A
S
H
!!
O baque seco da cabeça contra o chão trouxe junto um denso silêncio, quebrado pelo denso arfar dos soldados. Só após o que pareceu um minuto inteiro que a primeira voz ecoou de um dos soldados.
— Ganhamos… GANHAMOS! O Vampiro foi derrotado!!
ÔÔÔÔÔÔÔÔÔ!!!
Um sorriso curto ameaçou surgir nos lábios de Vast, desaparecendo quando a maior prioridade veio à mente.
Abandonando a espada, saltou os três metros que separavam o salão da varanda onde estava Emilia minutos atrás. Correu a passos largos, passando por diversas paredes destruídas até alcançar os limites do castelo. Ali, um rombo dava para o céu nublado.
"Por favor, não…" Num misto de urgência e hesitação, ele se pôs no limite do castelo e olhou para baixo. — Emilia!!
Era uma queda de vinte metros. No chão rente à base do castelo estavam os restos da parede destruída e a lança ainda presa à rocha.
Vast coçou os olhos, forçou a visão para enxergar melhor e até ameaçou pular para conferir de perto, mas não havia dúvida.
"Onde está o corpo?"
Emilia foi atingida em cheio pelo arremesso, mesmo assim nenhum rastro de sangue foi deixado no caminho das paredes destruídas, muito menos nos escombros abaixo.
"Será que estou alucinando? Talvez o sangue daquele vampiro me afetou de alguma forma?"
Era uma possibilidade, mas temendo que estivesse apenas enganando a si mesmo, Vast voltou ao salão na intenção de investigar melhor o corpo do Transformado. Lá, a última coisa que encontrou foi o vampiro.
— Mas que!? Guardas, o que é isso??
Nenhum deles respondeu, ao invés disso apenas abriram passagem para o rapaz apressado.
Onde antes jazia o corpo morto do vampiro animalesco, agora estava um homem familiar para o príncipe. Este era Jordan, o patriarca de uma das mais importantes famílias nobres de Von Legurn, também um dos poucos que o príncipe admirava como pessoa.
— Jordan! O que aconteceu com você?!
O homem ainda era um vampiro, mas a veloz perda de suas forças fez com que a transformação animalesca desvanecesse e revelasse sua verdadeira forma antes de partir. Assim como para todos os vampiros ao serem derrotados, seu corpo se desfazia em névoa e misturava-se ao ar.
— Prí-Príncipe Vast… por favor…!
Vast segurou a mão do homem, trazendo o máximo de conforto que a situação permitia. Olhos determinados, encarou o nobre.
— Jordan, informe! Um nome, um único nome basta, apenas diga!
— Eu… não posso…! Se eu disser o nome… você também… morrerá! Então, por favor, meu Príncipe… — Os olhos de Jordan arregalaram, mirando Vast com dificuldade. — [Aquilo] não é confiável! Pela glória do Rei Eterno, afasta-se daquela… coisa!
— Jordan!!
Os olhos do homem reviraram e seu corpo relaxou por completou. Dentro de rápidos dois minutos, sua figura desvaneceu completamente na névoa mística, subindo em direção às nuvens do céu nublado e a elas se unindo.
Vast sentiu imensa vontade de xingar, impedido pelas aulas de etiqueta marcadas a ferro quente em seu cérebro.
"O que acabou de acontecer aqui?"
Por mais surpreendente que toda a situação tivesse sido, estava longe de ser algo raro. Vampiros eram seres sem moral, o tipo que invadiria uma reunião que poderia colocar fim a uma guerra e fingir aliança a um dos lados apenas para ver a chacina continuar. Para eles, causar o caos era tão normal quanto respirar.
Esta era a primeira possibilidade que o príncipe considerou, também a que descartou.
"Por que escolheram logo Jordan para causar tudo isso? Zombaria? Não, foi específico demais."
Apesar do pouco interesse nas questões políticas do reino, Vast tinha noção do que se passava. Resumindo de forma bruta, haviam duas ideias sendo discutidas há quase um ano.
Uma delas dizia que Von Legurn devia contratar forças estrangeiras para eliminar os vampiros e restabelecer o controle de seu território. O outro lado, por sua vez, propunha uma tentativa de negociação com as criaturas.
Assim como Vast, Jordan não estava aberto para contratos com o inimigo. Desta forma, era um alvo para a oposição.
O raciocínio lógico levou o príncipe a uma conclusão que parecia óbvia. No entanto, ele negou aceitar. Era apenas loucura demais aceitar de forma prepotente que os outros chegariam a um ponto tão baixo.
Mesmo que pouco, Vast quis acreditar naqueles que atualmente tinha o reino em mãos. Dito isso, de forma alguma ele ficaria parado.
"Eu preciso de respostas."
Subitamente, ele levantou e se virou para encarar tanto os guardas no salão quanto seu pai, o Rei, ainda sentado em seu trono como se nada tivesse acontecido.
— Pai, eu tomei minha decisão. Após esse ataque, um incômodo em meu peito diz que há algo mais perigoso acontecendo em nosso território do que um simples ataque de vampiros.
Rei Vast por si só não demonstrou qualquer reação, fosse positiva ou negativa. Os guardas, por outro lado, todos deram alguns passos para trás. Aquele diante deles nem de longe era o mesmo príncipe que conheciam.
Se um Amaldiçoado tinha a presença de um enorme tubarão, Vast agora equiparava-se com um cardume de dezenas destas feras. Exibia suas presas sem medo de mostrar o ódio que até então aprisionava no peito, contido com algemas de ignorância e libertado pela chave da descrença.
— Eu estou indo…
Foi o que ele disse após longos suspiros. Ainda não estava calmo, mas definitivamente era um humano, por maior que fosse a dúvida de todos presentes.
— Indo? — os guardas perguntaram. — O que quer dizer, Príncipe Vast?
— Eu vou atrás daqueles que ousaram trair Von Legurn e os mostrarei a ira do Reino com minhas próprias mãos.
Ergueu a cabeça, mirando o grande rombo no teto causado pela entrada avassaladora do Vampiro.
No horizonte, com seu topo escondido além de onde sua visão alcançava, se colocava a Torre. Uma estrutura com as proporções de uma metrópole, coberta num material negro tão duro quanto diamante. O lar do único cuja soberania era incontestável, e também onde poderia cumprir seu verdadeiro desejo.
"Me desculpe por minha incompetência, Emilia. Prometo que vou trazê-la de volta!"
— Eu irei partir do castelo… — virou-se para seus expectadores, encarando além do que os olhos enxergavam. Havia se decidido. — E encontrar os culpados dessa confusão!
