Oeste, Reino de Von Legurn…
No salão real, conselheiros discutiam com o Rei sobre o maior mistério do momento: a população estava desaparecendo sem explicação aparente.
Todos os casos eram muito parecidos. Nenhuma das vítimas tinha qualquer relação ou semelhança entre si, qualquer que fosse, e nunca deixavam rastros.
Por menores que fossem as pistas e evidências que levassem ao culpado, ele era mais que certo.
TRINSHL!
O corpo de um guarda sem a metade inferior do corpo rompeu por um dos vitrais do salão. Mesmo nos braços da morte, usou suas últimas forças para transmitir a mensagem.
— Vampiros!! Me-Meu Rei! Um vampiro está vindo!
Morreu em seguida, honrado pela breve reza silenciosa do Rei em sua homenagem. E antes que ordenasse a mobilização das tropas reais, uma figura surgiu no centro do salão.
Alta, dotada de magníficas curvas, vestindo uma roupa incrível. Esta talvez fosse a visão dos aqui presentes, pois o que viram desfilar pelo tapete vermelho os fez coçar os olhos em inicial confusão.
Diante deles estava uma literal silhueta, definitivamente de uma mulher. Mesmo ao alcance de lustres e diversas tochas, a própria luz se recusava a tocar seu corpo diretamente, tornando-a num espectro sinistro.
— Protejam Von Legurn com suas vidas! — bradou o Rei, sacando a espada escondida atrás do trono.
A resposta da criatura foi um breve sorriso antes do avanço feroz.
O único registro desse dia foram os gritos. Determinação ou desespero, foram todos calados de forma desconhecida.
Minutos depois, a sombra caminhava sozinha pelos largos corredores vazios do castelo. Procurava algo em específico, encontrado sozinho num berço no quarto mais alto da torre mais alta.
Um bebê de poucos meses, os cabelos esverdeados começando a crescer. O abrir forçado das pálpebras pelos dedos finos da sombra revelaram o sedento par de olhos escuros, cintilando com a coragem de um guerreiro que daria tudo de si para sobreviver.
Sem qualquer palavra, a figura agarrou o pequeno como quem adota um novo cachorrinho, carinhosamente depositando os dentes em seu pescoço rechonchudo. Ele sequer sentiu, na verdade, dormiu logo em seguida. O invasor desaparecendo no instante em que seus olhos fecharam.
Mesmo anos depois, ninguém nunca descobriu quem, muito menos o que invadiu o castelo de Von Legurn. O motivo para isto são vários, mas tal investigação pode ser deixada para outros mais interessados.
Alguns anos depois…
A empregada correu pelos corredores vazios do castelo, seus passos apressados para uma senhora no auge de seus 70 anos impressionavam fantasmas alheios.
Chegou no que uma vez foi a sala do trono, agora desprovida de um. Na parede onde ficava o assento do Rei havia agora um vitral a representar um olho. Acima deste, um grande relógio travado em 9 horas em ponto.
Sentado dramaticamente sobre um dos ponteiros estava o alvo da mulher, observando o horizonte vazio pelas fissuras da parede.
— Príncipe Vast, por favor, desça já daí!
O par de olhos escuros veio ao seu encontro. O cabelo esverdeado como grama preso num rabo de cavalo com uma fita vermelha.
A mulher repetiu: — Desça antes que se machuque!
A luz que passava pelos grandes vitrais azulados revelou a figura de um jovem adulto, trajado nas dignas, extravagantes e exageradamente detalhadas roupas de um membro da realeza.
— Algumas pessoas — disse ele —, elas me entregaram dinheiro hoje. As crianças ainda me chamam de "Príncipe Pobre". Por que será?
— Deve ser por causa dessa sua falta de modos! Um príncipe não escala uma parede de trinta metros para ficar sentado em um relógio!
Ela continuou reclamando por algum tempo, insistindo que o garoto saísse de lá. E assim ele o fez. Num risonho e confiante suspiro, ele apenas deixou o corpo tombar para o lado.
— E-ESPERA!! NÃO FAÇA ISSO!!
Caiu em linha reta, em rota de colisão com o chão feito do mais duro concreto conhecido.
Diminuiu a velocidade com dois chutes na parede, tão rápidos que parecia ter chutado o próprio ar. Com uma última acrobacia, pousou em segurança.
A empregada de olhos arregalados foi tomada de surpresa ao notar a total plenitude do jovem mestre.
— Ah… Hã!? Trinta metros e nenhum arranhão? Até ontem o limite era de vinte metros!
Vast sorriu, triunfante.
— Parece que o treinamento está funcionando no fim das…
TRULK!! Foi o som de interrupção, seguido pelo despencar do corpo contra o chão e a voz aterrorizada lhe chamando: PRÍNCIPE VAST!!
Aconchegado na beirada de sua enorme cama, Vast ajeitou os cabelos esverdeados e refez o rabo de cavalo ao sentar.
Mirou além da janela de seu quarto, encontrando o mesmo céu de tons terrosos e nublado que via desde que se lembrava. Um dia comum em La Serva.
Teve de aceitar os cuidados da empregada que tanto quis o convencer de não subir em lugares altos. Agora que havia se machucado — um pouco pior do que o de costume —, sua expressão mostrava uma mescla de satisfação e preocupação.
— Pelo menos foi bom pra você — disse Vast, alisando o rosto da mulher. — Ficou com quantos anos desta vez?
— Nã-Não diga uma coisa dessas, meu príncipe!
Ao contrário da voz rouca de uma senhora mais velha que o próprio Reino, seus ouvidos eram agora agraciados com os murmúrios envergonhados de uma jovem senhorita na flor da idade. Sua pele branca, cabelos ruivos e olhos esverdeados tornavam-na semelhante às personagens de conto de fadas que o príncipe lia, por vezes levando-o a se questionar se ela era realmente real.
Entretanto, o feito extraordinário de rejuvenescer não foi por uma bênção, na verdade era o exato oposto.
Quando um vampiro compartilhava seu sangue com um humano, intencional ou não, haviam três resultados possíveis: Morte, Maldição e Transformação em vampiro.
Para o segundo caso, os chamados Amaldiçoados ganham habilidades únicas que variam de pessoa para pessoa. A única coisa em comum deste estranho fenômeno era seu equilíbrio funcional. Para uma vantagem, há uma desvantagem, sendo um dos motivos para os humanos terem nomeado-o desta forma.
A Maldição do único herdeiro do trono de Von Legurn, Vast Los Filho, tinha o nome [Mutter].
Suas capacidades físicas eram mais altas que a de um homem comum, no entanto, para todo e qualquer dano que recebesse, a sensação das feridas seria duas vezes pior do que o normal. Por exemplo, ser furado por uma agulha teria dor equivalente a ser empalado por uma estaca. Para completar, o ser vivo mais próximo de si no momento da lesão, amigo ou inimigo, teria seus ferimentos curados proporcionalmente ao dano causado no príncipe.
No caso da empregada chamada Emilia, que não estava de forma alguma machucada no momento, a cura de Vast atuou em sua idade, tornando-a numa jovem moça de 22 anos. Apenas dois anos mais nova que ele.
— Por favor, meu príncipe, mesmo que sua recuperação seja mais acelerada, o senhor não deve se arriscar de tais maneiras. Além disso, deve melhorar seu comportamento para quando assumir o trono!
O vermelho das bochechas realçava o brilho dos olhos esmeralda. Levaria algum tempo até o rapaz esquecer a aparência idosa de algumas horas atrás.
— Eu já falei, tenho planos diferentes. O trono será cedido para alguém de confiança e eu irei resolver alguns assuntos fora do castelo.
Emilia fez biquinho, mas não de raiva. Ao se levantar, pegou as toalhas que usava para limpar Vast e, após as deixar na bacia ao lado, sentou-se na beirada da cama.
— Se refere à Torre do Conquistador novamente? Quantas vezes precisamos repetir, meu príncipe, aquele lugar é perigoso demais para ir, mesmo quando falamos do senhor.
Ele franziu o cenho, como se repreendido pela própria mãe.
— Mas eu quero saber o que tem lá… Quero saber se o Rei Eterno realmente existe! Ele seria a pessoa perfeita para ser meu mestre!
— Ha~… É como se o senhor ainda fosse um bebê.
Apesar de carecer de motivos plausíveis, Vast sentia uma atração inexplicável para com a Torre.
Algo o esperava por lá, grandioso, revelador a pontos inimagináveis, algo semelhante àquilo que sentia o Herói Escolhido pelo destino que lia nos contos heroicos. Seu instinto gritava para que fosse até lá, o mais rápido possível.
Sentado à janela de seu quarto, frequentemente observava o horizonte o dia inteiro, se imaginando nas aventuras fantásticas dos livros.
Ninguém o impediria se tentasse ir. Por algum motivo, o número de trabalhadores no castelo diminuiu e os poucos que sobraram — alguns guardas e seu pai, o Rei — nunca conversaram direito consigo, sempre alegando terem coisas para fazer quando só ficavam parados no salão o tempo inteiro. A única exceção era Emilia, a empregada ao seu lado que nunca faltava um dia em puxar conversa.
— Você conseguiu falar o que pedi com o meu pai?
Ela negou com a cabeça e respondeu: — Vossa Alteza diz não haver tempo para as suas conversas, o de sempre. Temo que ele diga isso por causa das recentes tensões entre os grandes poderes.
Vast murmurou desapontado. Tal conflito entre a Realeza, a Igreja e o Exército se estendia há certo tempo e, honestamente, ele não poderia ligar menos. Ao contrário dos envolvidos na discussão, sua preocupação era direcionada aos que sequer eram incluídos em tal triângulo desarmônico.
Eles ficariam dias e até meses discutindo como melhorar a vida de seus súditos, mas você nunca veria algum deles se propondo a questionar os súditos em si.
Claro, nem todos os reis e políticos eram pessoas arrogantes ou interesseiras. Mas, curiosamente, todas as pessoas arrogantes e interesseiras eram reis ou políticos.
— Pelo menos estão aprovando algumas boas leis — disse Vast para si mesmo. — Não vejo razão para me envolver enquanto eles mostrarem o mínimo de interesse em melhorar a vida dos súditos.
Emilia resmungou um sim e olhou para o chão. Seu desconforto chamou a atenção do príncipe, que pensou ser pelo mesmo motivo de sempre.
Era bastante comum a mulher ficar deste jeito quando tentava adentrar em algum assunto que envolvesse política, provavelmente por alguma coisa que aconteceu em seu passado ou simplesmente por falta de interesse. Diferente dos outros serviçais, ela mantinha uma honestidade tão grande com seu mestre que às vezes pareciam ser melhores amigos. Não que não fossem de fato.
Vast já tentou avançar em Emilia algumas vezes, e de uma forma bastante cavalheiresca, um tanto quanto manso. No entanto, sempre que tentava era impedido por uma intensa atmosfera aterradora que surgia ao redor da mulher. Muito possível que fosse a tão famigerada "aura feminina", mas era apenas especulação sua.
— Meu príncipe, sabendo que eu não serei capaz de lhe impedir de partir para a Torre em algum momento, eu gostaria de lhe contar uma coisa importante, mas… — Ela levantou, ajoelhando-se no chão logo à frente e virada para o príncipe. — Preciso que prometa não contar a mais ninguém. Se souberem que contei-lhe isso, certamente buscarão por minha cabeça.
Pela primeira vez, ele engoliu seco. A atitude da empregada era uma novidade, um evento inesperado até para quem o buscava.
— É claro que eu não vou contar. Alguma vez eu já contei um de seus segredos pra alguém?
Ela deu um breve sorriso, satisfeita. Ao passo de sua longa e pesada respiração, o coração de Vast saltava mais forte a cada segundo. Incerto de uma declaração de amor ou má notícia. Infelizmente, descobriu ser a pior das opções.
— Esta nobreza que tanto admira, meu príncipe… Eles não merecem seu louvor.
Um breve momento de silêncio. O quê?, murmurou sem ar, tendo esquecido de respirar antes de falar.
Ele perguntou uma, duas, três vezes, mas Emilia sempre lhe dava a mesma resposta.
— Eles escondem isso do senhor para impedi-lo de tomar qualquer providência. Sabem muito bem da influência que possui sendo herdeiro do trono. — Estufou o peito e preparou, determinada. — Por favor, acredite em mim! Os membros da nobreza estão…!
TRURRUUUM!!
O castelo tremeu por inteiro, como se um terremoto começasse logo abaixo. Garrafas e lustres despencaram por toda parte, fissuras surgiram nas paredes como tubarões ao redor de um cadáver e um grito animalesco rasgou seu caminho por todo o castelo.
— O quê!? Emilia, vá para um lugar seguro!
— Eu ficarei ao seu lado, senhor!!
Sabendo que ela o seguiria de qualquer forma, testou brevemente a perna antes machucada e, confirmando a total recuperação, se pôs a correr.
Desceu as escadas enquanto perseguia as fissuras nas paredes, esperançoso de que encontraria o motivo do abalo em sua origem.
Em menos de um minuto, alcançou o atual salão do trono. Lá estava o Rei e dez soldados. Todos, sem exceção, miravam a coisa à frente.
"Merda!! Essa aura maldita…!!"
De uma pequena cratera no centro do salão, uma figura negra e com o corpo coberto de pelos emergiu, semelhante a um grande lobo desnutrido. Sem carne, seus ossos e pele eram sustentados pelos próprios tendões, expostos em partes aleatórias do corpo e se contorcendo como vermes em busca do próximo hospedeiro.
No instante em que os olhos de Vast caíram sobre o invasor, a aura ao redor da criatura tomou a forma de palavras e números acima de sua cabeça, revelando quem exatamente se tratava.
Transformado
Força 35/100
Agilidade 28/100
Inteligência 2/100
Esta aparição que fez metade daqueles na sala desmaiar era…
— UM VAMPIRO!! — gritou um dos guardas na lateral. — PROTEJAM O REI!!
Os guerreiros em armaduras prateadas formaram uma barreira, empunhando lanças e espadas douradas na direção da criatura. Da varanda com vista privilegiada, Vast analisou a aparição enquanto se colocava à frente da assustada Emilia.
"Como ele invadiu? Nenhum vampiro comum deveria ser capaz de entrar no reino, quem dirá no castelo!!"
Não havia tempo e muito menos razão para buscar uma resposta neste momento, apenas uma coisa importava: esta criatura tinha que morrer!
